Os desafios da (melhor) idade

Na semana em que se comemora o Dia do Idoso, o que se torna pauta é a preocupação com a violência contra a terceira idade

Vinte e oito de setembro, tarde quente e ensolarada em Passo Fundo. Era pouco mais de três e meia da tarde quando eu e a repórter fotográfica – e motorista da rodada – Fabiana Beltrami chegamos à rua General Daltro Filho, no bairro Lucas Araújo: endereço do Abrigo Nossa Senhora da Luz, um lar que atende idosos em situação de abandono. Era o início de mais uma daquelas reportagens em que a frieza dos dados jornalísticos se torna elemento secundário para o desenvolvimento da pauta.

Os portões verdes do abrigo prontamente foram abertos para nos receber. Na parte externa, alguns moradores, devidamente acomodados em suas cadeiras, em círculo, à sombra de uma árvore; uns conversavam, outros apenas olhavam para o nada, como se estivessem refletindo sobre a vida. Logo na entrada, vimos um extenso corredor que separava os ambientes e acomodava centenas de anos de vida em seus moradores. Sentados em poltronas, em cadeiras de rodas ou caminhando a passos lentos de um lado a outro, todos eles nos olhavam com certa curiosidade.

Enquanto aguardávamos a chegada do diretor do abrigo, vimos as enfermeiras levarem os idosos para o banho; alguns deles com grandes dificuldades de locomoção. Aqueles que já tinham realizado a tarefa ficavam sentados em cadeiras espalhadas pelo corredor e, algum deles, até falavam sozinhos. No meio daqueles monólogos, me senti à vontade para um diálogo com uma simpática senhora que estava sentada perto de mim. “Quente hoje, né vó?!”, comentei. A resposta veio acompanhada de um sorriso, que entregava a alegria em ter alguém diferente para conversar. “Sim, muito… Tá um calor!”. Reparei, então, que os seus cabelos brancos contrastavam com o esmalte cor vinho nas unhas, revelando que a vaidade não tem idade. “Que bonitas as suas unhas, vó. Quem pintou para a senhora?”, perguntei. “Foram as enfermeiras, filha. Gostou?”, ela respondeu. Diante da minha resposta positiva, ela abriu um sorriso que transcendeu todas as décadas que nos separavam. “Estão mais bonitas que as minhas…”, completei.

Alguns minutos depois, uma das enfermeiras veio perguntar se gostaríamos de aguardar na outra sala. Sim. Ainda estávamos perto da entrada quando a Fabiana começou a folhear um caderno que estava em uma mesinha. Movida pela curiosidade natural a todo estudante de jornalismo, me aproximei para ver: o caderno continha o registro de visitas ao abrigo. Em cada folha, havia o nome de um morador e, logo abaixo, uma tabela com 3 colunas: uma para a data da visita, outra para o nome do visitante e a última para o grau de parentesco com o morador. Em uma rápida análise, percebemos que muitos ali recebiam apenas visitas mensais, nem sempre de parentes muito próximos, como filhos, esposas ou maridos. Na maioria, eram sobrinhos ou primos que visitavam e, nem sempre, com frequência. Pela grafia, era possível perceber quais visitantes eram jovens e quais eram pessoas mais velhas, pois alguns traços carregavam as marcas de quem já quase nem consegue segurar a caneta com firmeza. Pior que isso, só as folhas em branco, pois revelavam que alguns nunca receberam um familiar, um amigo ou mesmo um simples conhecido, ainda que fosse apenas para dizer um “Oi, tudo bem?” ou mesmo conversar sobre o clima.

No curto período em que ficamos na recepção, vimos muitas coisas que, certamente, nos ensinaram algo. Vimos uma senhora que estava em uma cadeira de rodas e insistia em tirar a blusa que vestia. Quando a enfermeira percebia, explicava: “Vó, a senhora não pode tirar a blusa. As pessoas vão ver a senhora”. Ela, então, balançava a cabeça, como se compreendesse, e vestia novamente a roupa com o auxílio da enfermeira. Passados cinco minutos, ou nem isso, ela repetia a ação, como se nada daquilo já tivesse acontecido, e assim foi enquanto estivemos ali. Outra idosa chorava e chamava pela família: “Eu quero meu irmão”, repetia incansavelmente. Aquela voz ecoava no corredor como uma mistura de perda, abandono, tristeza e choro: algo de cortar o coração.

Fomos para outra sala do abrigo, com janelas grandes, algumas mesas e uma televisão no alto da parede. Naquele cômodo, dois idosos estavam sentados próximos às janelas e aproveitavam a brisa agradável que passava por ali, enquanto um grupo de quatro moradores dividia a mesa em um jogo de baralho. Pelo número de cartas – que eram nove-, imaginei que o jogo fosse pife ou pontinho, nada muito complexo, mas que rendia boas risadas. Era possível perceber alguma dificuldade em embaralhar as cartas, na sua distribuição entre os jogadores e, até mesmo, em segurá-las na mão; contudo, isso não era, de modo algum, um empecilho para a brincadeira. Ao observar aqueles velhinhos concentrados na disputa pelas cartas, eu me questionava sobre se o vício de baralho era resquício da sua juventude, das madrugadas de jogos em bares da cidade. Aliás, enquanto via cada um daqueles moradores, uma centena de questionamentos congestionava a minha mente: o que eles estariam pensando? Como foi a juventude? O que os fez parar ali? Será que aproveitaram a vida?

Devido a alguns contratempos, marcamos a entrevista com o diretor do Abrigo Nossa Senhora da Luz para o dia seguinte. Ao sair de lá, levamos uma bagagem de lição de vida com a qual não havíamos chegado. Conhecemos pessoas que mal conseguem caminhar, que dependem da ajuda dos outros para realizar as tarefas mais básicas de higiene pessoal, que sequer sabem onde estão ou quem são. Idosos que estão dividindo o lugar onde moram com vários outros, mas que, ainda assim, se sentem sozinhos, sentindo na pele o preço de carregar anos e anos de vida. O contraste entre a juventude e a velhice deixou-nos ensinamentos valiosos: mesmo falando pouco, os idosos são, por si sós, professores na escola da vida e lutam, diariamente, contra uma contagem, que, para eles, passou a ser regressiva.

A valorização do idoso

O Dia do Idoso é comemorado no Brasil no dia 1º de outubro. Até 2006, a data era celebrada em 27 de setembro, mas, em razão da criação do Estatuto do Idoso no primeiro dia de outubro, a comemoração foi transferida, de acordo com a lei nº 11.433 de 28/dez./2006.

De acordo com o estatuto, os idosos têm direito à atendimento preferencial no Sistema Único de Saúde (SUS) e à distribuição gratuita de remédios de uso contínuo, próteses e órteses. Desconto de 50% em atividades de cultura, esporte e lazer também é garantido pela lei. Além disso, maiores de 65 anos podem usufruir de transporte público sem custos.

Apesar de criminalizadas, negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão contra os idosos ainda fazem parte do nosso dia a dia. Uma pesquisa realizada em 2007, pela Universidade Católica de Brasília (UCB), revelou que 12% dos idosos sofrem maus-tratos no Brasil e, em 54% dos casos, o agressor é o próprio filho. No início deste mês, por exemplo, um idoso de 79 anos teve sua perna amputada após ser internado em um asilo em Bauru, no interior de São Paulo.  Já em Belo Horizonte, segundo a Delegacia do Idoso, aproximadamente 15 idosos são agredidos por dia. Somente no período entre janeiro e julho deste ano, foram registrados 2.920 casos, além de um aumento de quase 20% nas denúncias na capital mineira.

A violência contra o idoso não faz parte apenas da vida real. Na teledramaturgia, o assunto já apareceu para conscientizar a sociedade. A novela Mulheres Apaixonadas, transmitida pela TV Globo em 2003, trazia a personagem Dóris, interpretada por Regiane Alves, que maltratava seus avós Flora e Leopoldo, interpretados, respectivamente, por Carmem Silva e Oswaldo Louzada. Além da agressão verbal sofrida dentro de casa, os idosos eram vítimas de preconceito na própria sociedade, em situações comuns ao cotidiano, como andar de ônibus, por exemplo.

[stextbox id=”custom” caption=”Curiosidade:”]Segundo o STF, o Brasil possui 19 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. 55% são mulheres.[/stextbox]

 

O envelhecimento traz consigo algumas doenças, entre elas, o mal de Alzheimer e o mal de Parkinson, que se destacam por serem as mais comuns nessa faixa etária. Conheça um pouco mais sobre elas:

Mal de Alzheimer

De acordo com o site ABC da Saúde, o mal de Alzheimer atinge o cérebro e é degenerativa, isto é, leva à perda das habilidades de pensar, raciocinar e memorizar, e afeta as áreas da linguagem, produzindo alterações no comportamento. A doença aparece com mais frequência após os 65 anos, com causas ainda desconhecidas pelos médicos. Sabe-se que certas mudanças nas terminações nervosas e nas células cerebrais, que interferem nas funções cognitivas, podem estar relacionadas ao surgimento da doença, além de outros fatores, como a diminuição de substâncias através das quais é transmitido o impulso nervoso entre os neurônios – como a acetilcolina e noradrenalina-, infecções cerebrais e da medula espinhal ou a pré-disposição genética em algumas famílias, não necessariamente hereditária.

Ainda não existe cura para o mal de Alzheimer; o tratamento apenas controla os sintomas e protege o doente dos efeitos produzidos pela deterioração trazida pela doença. Nesse caso, antipsicóticos podem ser recomendados para controlar o comportamento agressivo ou deprimido, aumentando, assim, a segurança do paciente e dos que o rodeiam. Estima-se que, após os 65 anos, entre 1 e 6% da população sofra de Alzheimer. Segundo a revista Veja, as mulheres correm um risco maior que os homens de desenvolver essa doença, que afeta cerca de 1,5 milhão de pessoas no Brasil. Como, geralmente, vivem mais que eles, estão mais sujeitas ao mal.

 Mal de Parkinson

O Parkinson é uma doença neurológica que compromete os movimentos da pessoa. A informação vem do site Mundo Educação, que também explica que o Parkison não compromete, ao contrário do que se imagina, a memória nem a inteligência dos indivíduos. A origem da doença é desconhecida, mas ela é responsável pela degeneração e morte dos neurônios que produzem a dopamina no sistema nervoso central. Essa perda provoca falhas na condução das correntes nervosas – conhecidas como neurotransmissores – pelo corpo, levando à perda da coordenação e controle dos movimentos.

A ausência de dopamina no organismo causa cansaço, fraqueza, tremores, lentidão de movimentos, rigidez muscular, desequilíbrio, dificuldade para se movimentar e alterações na fala. Contudo, esses sintomas só aparecem quando cerca de 80% dos neurônios estão mortos. Um estudo realizado em 2007 pela Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, aponta que, até 2030, os casos da doença no Brasil e nas 15 maiores nações do mundo devem dobrar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 1% da população acima dos 65 anos possui essa doença, e a prevalência é de 150 a 200 casos a cada 100.000 habitantes. No Brasil, estima-se que a doença atinja 250 mil pacientes.

Filmes

O playlist abaixo traz o trailer de alguns filmes que envolvem os idosos, a questão do envelhecimento ou como as pessoas da terceira idade encaram os desafios da vida e seus relacionamentos:

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