Gênese

“A memória se estende, simultaneamente, sobre várias épocas”
(Proust)
 

Toma estas terras. Leva tua família e teus escravos. Constrói tua estância.
Não foram estas as palavras. O sentido foi este.
– Vai para esta terra, protege o território dos índios e estabelece morada.

 Nada – a não ser mato, um rio e índios – havia aqui quando os primeiros tropeiros escolheram Passo Fundo como rota para as feiras de Sorocaba. Foi então que o cabo Manoel José das Neves recebeu, em 1827, um pedaço de terra da Comandância Militar de São Borja e fundou a Fazenda Nossa Senhora da Conceição Aparecida. No lugar onde hoje está a Praça Tamandaré, o primeiro homem branco a habitar esta cidade construiu o início da povoação. A instalação da primeira fazenda e, logo após, de pequenas construções foi o primeiro passo para o surgimento, enquanto cidade, da Capital do Norte do Estado.

A Praça Tamandaré, outrora Praça da Matriz –  palco de invasões à fazenda de Cabo Neves – presenciou a população passo-fundense ser dizimada na Revolução Farroupilha, se reerguer, se reestruturar, ser elevada ao nível de cidade e, hoje, transformou-se em cenário para passeios de fim de tarde. A primeira praça de Passo Fundo foi, realmente, uma praça apenas em 1892 com a construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição quando o amplo terreno em frente à edificação servia para o aguardo do início da missa. Antes disso, a Praça Tamandaré era, apenas, lugar de passagem ou de referência para construções.

Três anos depois, em 1830, Joaquim Fagundes dos Reis foi enviado a Passo Fundo para ser a primeira autoridade: comissário da nascente povoação. Os 419 habitantes – atraídos para o local possivelmente pelo solo fértil – passaram a integrar em 1833, o 4º Distrito de Cruz Alta. O povoado desenvolvia-se em torno de atividades agrícolas e, logo, viu-se a necessidade de erguer outra edificação: uma igreja. As terras, no topo de uma coxilha, doadas pelo cabo Manoel das Neves são o berço da atual Catedral Nossa Senhora Aparecida. Há 177 anos erguia-se a capela destinada à adoração de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

A partir da igreja, era o início da afirmação de Passo Fundo enquanto cidade.

Ao redor da pequena capela instalaram-se aos poucos novos moradores que, com o passar do tempo, tornaram-se responsáveis pelo desenvolvimento urbano, social e comercial do centro da cidade.  Além de pedaços de terra e algumas mercadorias para vender ou trocar, o povo passo-fundense tinha, agora, um prédio onde abrigar a sua fé.  No mesmo ano foi construído, nas dependências da capela, o primeiro cemitério. Os dois, capela e cemitério, testemunharam o início e o fim da vida de homens e mulheres cujo os nomes estampam as placas das ruas da cidade.

No final do século XIX, tanto capela quanto cemitério, mudam de endereço. A pedra angular da primeira igreja de Passo Fundo é transferida para a atual Rua Uruguai, em frente à Praça Tamandaré. A Igreja Matriz passa a ser chamada de Igreja Nossa Senhora da Conceição. Na coxilha, local anterior de sua construção, é erguida a Catedral Nossa Senhora Aparecida. O cemitério é transferido para o Bairro Vera Cruz, mais afastado da nascente população. O desenvolvimento de Passo Fundo torna-se natural e irrepreensível e são as edificações, testemunhas silenciosas de um crescimento, que adaptaram-se à nova realidade como alguém que se acomoda para ouvir uma história.

Em 1835, no entanto, o desenvolvimento estanca. Ecos de uma revolução chegam aos ouvidos e bocas dos habitantes do povoado. Sim, era a Revolução Farroupilha que se achegava em solo passo-fundense e convidava homens e mulheres a tornarem-se maragatos ou ximangos. Como aconteceu em grande parte do estado gaúcho, Passo Fundo teve sua população dizimada. No povoado, que antes contava com quase 500 habitantes, ao fim da Revolução – em 1843 -, restavam 60 moradores.

Como foram as décadas que se seguiram?