Apreensão, medo, banca, monografia

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A maioria dos alunos entra na faculdade já pensando no grande dia da formatura. As meninas, que de um modo geral são mais preocupadas, desde cedo já começam a pensar na cerimônia, no vestido, nas fotos, na música de entrada e todos os outros detalhes que envolvem a magia do dia de receber o diploma.

Mas tem um detalhe, que também faz parte preparativos para a formatura e é muito mais importante do que qualquer outro: a monografia, ou trabalho de conclusão de curso. Muitas vezes os alunos deixam para pensar nela dias antes do prazo final para a entrega, e com isso surge o desespero, muito comum entre os formandos. È uma mistura de sentimentos que faz com que o aluno perca o controle da situação e não consiga produzir seu trabalho. Nessas horas, uma boa dose de calma e de foco são necessários, para que todo o esforço não seja em vão.

Existem também aquelas pessoas que são super preocupadas e que vêem a monografia como um bicho de sete cabeças. Também não é pra tanto. O professor Dr. Benami Bacaltchuk é responsável pela cadeira de Monografia do curso de Jornalismo da UPF. Ele afirma que, mesmo com todo o medo que gera, o trabalho de conclusão de curso deve ser encarado pelos alunos como uma pesquisa mais aprofundada, que com atenção especial para algumas áreas, é de fácil resolução. De acordo com ele, todos sobrevivem.

Conversamos com o professor Bacaltchuk e ele nos contou um pouco mais sobre quais devem ser os preparativos para fazer a monografia, como se organizar para aproveitar bem o tempo e como encarar a banca. Confira a entrevista.

Nexjor – Como deve ser a preparação para o TCC?

Benami Bacaltchuk – Bem primeiro, ele não é um bicho de sete cabeças. É difícil, e por isso os alunos têm que se conscientizar já nos semestres em que os conceitos teóricos começam a ser ministrado em sala de aula. Naturalmente neste  momento os alunos não tem certeza de que foco eles querem dar, não sabem ainda definir  objeto de pesquisa, assim como, não estão prontos para o conceito de perguntas de  pesquisa, variáveis, hipóteses, objetivos. Mas desde cedo devem tentar conhecer método de redação  acadêmica, tentar fazer tudo que produzirem para professores na formatação da  academia. Outro aspecto indispensável, e que tem que ser assumido é LEITURA. Alguns  dependem totalmente da internet, do Google, pois não tem noção do que os “LIVROS” falam. Lêem muito pouco. Um bom profissional de comunicação social tem que ler mais do que o seu  leitor, tem conhecer mais do que as técnicas de produzir informação, tem que saber mais sobre assuntos  que escreve.

Nexjor – O que deve ser levado em conta na hora de escolher o tema?

Professor Benami ministrando uma palestra na Pós-Graduação em Agronomia, da UPF. / Foto: Leonardo Andreoli - Assessoria de Imprensa, UPF.

Benami Bacaltchuk – Primeiro não descarte os sonhos, as ilusões. Permita-se! Depois olhe para a realidade e tente considerar que este, talvez seja o primeiro trabalho profissional de seu  portfólio e deve ser um referencial para que o mercado possa avaliar o seu potencial.  Desta forma, dentre os sonhos, escolha os significativos, realistas e acima de tudo  exeqüíveis. Também não te esqueças, se tens um professor que preferes, verifique o que ele  domina mais, o que ele esta fazendo em termo de pesquisa acadêmica e te associe a esta  linha. Pode te facilitar e criar uma identidade com recurso de credibilidade.

Nexjor – E se faltarem referências bibliográficas sobre o assunto, o que fazer?

Benami Bacaltchuk – Esta é uma questão que se repete. A maioria dos alunos questiona o fato de que não acharam  bibliografia suficiente sobre o assunto que escolheram. A primeira reação que me vem a  mente é de que não procuraram de forma adequada. Não existe assunto que se enquadra em uma “MONOGRAFIA” que  não seja contemplado com um volume muito grande de trabalhos acadêmicos disponíveis em  livros, inclusive da biblioteca da UPF, como na internet nos sites de grupos de estudo,  de escolas, de sites de publicações online assim como muito banco de teses, dissertações  do país e do exterior. Desta forma, se faltar, procure mais.

Nexjor – Qual é a melhor forma de se organizar para não perder tempo?

Benami Bacaltchuk – Coloque no papel o teu objeto de estudo e as tuas motivações. Vá à biblioteca e solicite que as bibliotecárias entrem no serviço de busca orientada. As primeiras fontes surgiram da academia, muitos trabalhos que estão sendo feitos, ou já foram feitos vão te orientar sobre a importância de fazer outro sobre os assuntos que queres estabelecer como objeto. Dai inicia a busca de bibliografia. O primeiro capítulo é o de revisão, e ele deve ser composto dos passos que tens que dar para responder a tua  pergunta de pesquisa, que é o teu objetivo geral. Na verdade os temas que deves revisar são os que compõem os conteúdos demandados pelos teus objetivos específicos. Nesta  revisão busque identificar que método outros pesquisadores usaram para responder  perguntas similares. O próximo passo é escrever o capítulo da metodologia do trabalho, onde podes também descrever o objeto de estudo em maior detalhamento. Caracterize as variáveis e as relações que antecipas entre elas, escolha uma hipótese plausível e aplique o método. Para facilitar os capítulos finais, que seriam o de resultados e discussão e o de conclusão, ao terminar cada sub capitulo e capitulo da revisão e da metodologia produza um resenha conclusiva para estes componentes. Isso te ajudará a montar a relação entre os dados que obtiveste no trabalho. É importante na revisão de literatura ter o cuidado de buscar fontes bibliográficas com mais de uma opinião sobre os temas que estas estudando, os que dizem a mesma coisa, os que discordam, os que acrescentam e promova um debate  moderado por ti, algo que eu chamo um seminário entre mortos e ausentes. Antes de tudo, formate a página do teu computador na formatação estabelecida pelas normas  de monografias da FAC e faça tudo dentro daquele padrão. As pessoas que às vezes alunos contratam para revisar  a ortografia, ou concordância vão interferir se baseando em normas que não, necessariamente, são as que definimos como nosso modelo.

Nexjor – Todo mundo fala que, por mais que haja uma preparação, o aluno sempre deixa tudo para a última hora. Com os seus anos de experiência como professor, você concorda com isso? Existe alguma receita para evitar que isso aconteça?

Benami Bacaltchuk – Isso é  uma realidade, e a receita não está somente no aluno, esta no processo didático. Talvez os professores tenham que ser mais impositivos. Já temos crédito para estabelecer linhas de pesquisa e de estudos para iniciar os alunos antes no processo, estabelecer algumas limitações, não em tamanho de texto, mas em variação de temas com relevância propositadamente estabelecida pelo conselho acadêmico da escola para que cumpríssemos um  papel maior do que provocar a construção da habilidade do aluno, mas, ao fazer, contribuir com áreas do conhecimento representativas do que queremos que nossa escola  seja. Não é uma tarefa fácil, por que muitos alunos querem se sentir livres, e acho que é um direito, mas poderíamos contribuir mais com a academia, com a universidade, com a comunidade e acima de tudo, dar relevância ao esforço intelectual do aluno.

Nexjor – Qual é o papel do orientador durante o processo de produção da monografia?

Benami Bacaltchuk – O orientador deve ter um papel de moderador entre o que o aluno quer, o que é exeqüível, o que é relevante. Naturalmente o orientador tem que ensinar ao aluno um processo que infelizmente nós não antecipamos no curso. O orientador tem que entender que ele é cúmplice, co-autor, portanto responsável e deve assumir os alunos. A banca deve ter uma função semelhante, não meramente castigadora ou avaliadora, mas moldadora de um novo perfil de profissional identificado com a academia que representa.

Nexjor – O que fazer quando o desespero toma conta do aluno?

Benami Bacaltchuk – Primeiro, é importante que o professor não se desespere junto. Ele deve orientar, ser um conselheiro proativo. Não é hora de edificar os culpados, mas as soluções. Acredito que a forma de agir desde o primeiro momento é ser estimulador. Na hora do desespero, sugiro que o orientador pegue o aluno o pela mão e vá ao centro de convivência da universidade ou ao Shopping da cidade e tomar um café, um sorvete para acalmar, e inicie uma conversa construtiva e comprometida.

Nexjor – Como encarar a tão temida banca?

Benami Bacaltchuk – A banca é composta por professores que todos já conhecem ou já ouviram falar. Ela não deve ser temida, ela não tem por objetivo te desclassificar. A banca sugere coisas que, certamente, enriquecerão a tua monografia, e, além disso, a decisão de adotar as sugestões das bancas é uma decisão entre você e teu orientador. É possível que alguns de nós, membros de bancas, tentemos valorizar o nosso “saber”. Provavelmente é a última oportunidade dos professores participarem da educação do aluno, desta forma, o aluno já sabe quem são os que falam demais, os que são enfáticos, e também deve saber que nem um membro de banca quer  reprovar nem um aluno.

Ler é fundamental para alcançar o sucesso./ Foto: Google Imagens

Nexjor – O aluno pode sugerir professores para estarem em sua banca ou não?

Benami Bacaltchuk – Poder até que podem, mas não necessariamente isso ajuda, pois cria uma expectativa não construtiva, primeiro nós não temos professores suficientes que tenham aulas ou horários disponíveis para fazerem bancas a qualquer hora. É impossível fazer uma combinação ideal.Este ano, em especial, será muito difícil fazer escolhas, pois temos 40 alunos apresentando monografias. Não creio que temos professores que devam ser evitados. Os que organizam as bancas buscam primeiramente colocar nelas os professores mais identificados com os temas de cada monografia e às vezes, alguns temas não tem muita opção. Não construam a ideia que algum professor é inimigo de algum aluno. Se houver alguém que se sente ameaçado por algum professor, tem todo o direito de denunciar, mas cuidado, a probabilidade de a ameaça ser real é menor do que haver alguém com intenção de prejudicar outro.

Nexjor – Para os alunos que desejam ingressar em um mestrado logo depois da faculdade: qual é a diferença entre a monografia e a tese de mestrado?

Benami Bacaltchuk – A monografia é um processo que busca provar que o aluno é capaz de identificar um tema relevante para aprofundamento, é capaz de construir uma pergunta de pesquisa adequada, uma revisão relevante estabelecer uma hipótese plausível e estabelecer uma consideração final com sugestões. O mestrado é um pouco mais profundo, está ligado a uma habilidade mais específica sobre diferentes assuntos, é mais acadêmica, e direcionada para uma vida acadêmica e não profissional da habilidade no mercado de trabalho convencional. Uma dissertação de Doutorado, já busca trazer um conceito novo, ou uma interpretação  diferente de um conceito existente, e assim como o mestrado prepara profissionais para níveis profissionais mais especializados na academia ou na pesquisa.