Muito além de pirâmides e faraós

Quando falamos em Egito, logo pensamos em pirâmides, múmias, ouro e faraós, mas o país é muito mais do que isso. Conhecido por sua antiga civilização, um dos mais populosos países da África é cheio de cultura e diversidade.

[stextbox id=”custom” caption=”Especial” float=”true” align=”right” width=”220″]Hoje começamos uma série sobre intercâmbios. O Nexjor vai conversar com jovens que viajaram pelo mundo em busca de novas experiências e conhecer um poucos mais sobre cada cultura. [/stextbox]

O Egito está longe de ser um dos destinos mais procurados por intercambistas. Apesar disso, foi o escolhido por Giovana Matté Daniel. A estudante de Engenharia Ambiental é membro da Aiesec – uma organização global, sem fins lucrativos, de jovens líderes – que promove intercâmbios sociais para o mundo todo. Em vez de estudar, os jovens passam um tempo fazendo trabalhos voluntários.

São experiências únicas e, geralmente, muito diferentes do que acontece em intercâmbios comuns, nas quais os jovens viajam somente para estudar. O contato mais intenso (e próximo) com a cultura e com as pessoas transforma a vida desses jovens.

Em uma conversa, Giovana lembra os 6 meses que passou lá: as primeiras impressões que teve do país, as diferenças culturais, o preconceito e até o namorado (agora ex) que arrumou por lá. Além da experiência e das amizades, na bagagem, a jovem trouxe o desejo de um dia poder voltar.

Como foi o processo de escolha do país e de preparação, por que o Egito?

Na Aiesec, as vagas variam de acordo com o conhecimento de inglês; diz se tem que ter um inglês bom ou intermediário, e eu estava procurando alguma coisa muito diferente, porque não me chamam muito a atenção a Europa ou a América do Norte. Eu tinha feito a inscrição para ir para a Rússia, só que o meu inglês não era muito bom quando eu fui e, nervosa, eu acabei não sendo aceita naquela vaga. Surgiu a oportunidade, eu achei uma vaga legal, que eu achava que ia gostar, no Egito, e eu fui. Não era bem o que eu queria, só queria alguma coisa diferente do normal que as pessoas costumam ir, mas não era uma preferência pelo Egito. Hoje eu não me arrependo.

O que aconteceu depois que você foi aceita para a vaga? Você começou a pesquisar, se informar mais sobre o país?

Logo que eu fui, antes de fazer a entrevista, eles mandaram um vídeo e me deixou bem interessada. Depois eu comecei a pesquisar, comprei um livro sobre o Egito Antigo. Eu cheguei lá e nem sabia muita coisa, era aquela coisa de turista, de primeira viagem mesmo, mas a minha sorte é que, quando eu cheguei lá, eu morava com outros intercambistas, aí eles tinham um pouco mais de noção. Nos lugares que eu visitei no início também foi bom que eles estavam comigo, porque eu estava meio perdida, mas eu comecei a procurar, ver mais ou menos como era o país. A minha mãe também estava bem louca procurando. Lá é muito comum: se você é turista, eles aumentam os preços das coisas, umas 10 vezes a mais do que é. A minha mãe estava lendo em um blog e disse pra eu ficar ligada nessas coisas. Eu procurava mais coisas sobre o país, não sobre a vivência lá, e eu acho que é bem importante, quando você vai viajar, pegar mais coisas, até com pessoas que já viveram lá, porque saber do país é bom, só que você precisa ter uma noção de como é viver lá.

Quando você chegou lá, qual foi a primeira impressão que teve do país?

Foi horrível. Primeiro porque eu estava bem apavorada, porque já fazia um tempo que eu tinha parado de fazer inglês. Aí eu cheguei lá e achava que não ia saber falar nadaem inglês. Segundo, porque era minha primeira viagem pra fora do país, eu cheguei lá e tinha pessoas com placas com nomes, logo no desembarque e não tinha ninguém com o meu nome. Cheguei na esteira, eu estava preocupada com a bagagem também, porque de São Paulo eu parei em Paris e eu não precisava pegar minha mala lá, eu estava bem preocupada. Os guardinhas vieram até mim, pediram se tinha alguém me esperando e me disseram que era muito perigoso fora, que era pra eu tentar ligar pra menina que ficou de me buscar. Eu tentei ligar, porque eu tinha anotado o número, mas não consegui, não sei se eu estava discando errado. Tinha outra saída, tentei ir pra lá e também não tinha ninguém me esperando, eu fiquei apavorada, comecei a chorar, tentei ligar meu computador pra ver se tinha internet para procurar o número dela e tentar falar com ela. Eu falei com uma mulher que estava no meu voo, só que eu cheguei de noite e a mulher me colocou em um táxi. Só que lá tem dois tipos de táxi: o preto e o branco. O preto não tem taxímetro e você tem que negociar o preço com o taxista e eu não sabia disso. O taxista também não sabia direito onde era o endereço, nem falava inglês muito bem. Quando eu saí do aeroporto, estava com uma blusa de manga comprida, só que, imagina, lá não tem pessoas de pele clara, cabelo loiro e todo mundo ficava me olhando. Eu achei muito estranho, pensei: “O que eu tenho de errado?” No início foi bem difícil, até com a roupa. Eu tinha levado roupas curtas, porque é calor lá e, quando cheguei, nem podia usar, só dentro de casa, porque na rua é bem diferente, tem mulheres que andam com o cabelo sem cobrir, mas uma pessoa de pele clara chama muito atenção. No início eu me senti um ET, porque todo mundo me olhava. Até eu arrumei um namorado lá e, em dezembro, já eram 4 meses que eu estava lá. Foi um guri do Brasil pra lá e nós saímos na rua, eu já estava acostumada com todo mundo me olhando, e ele ficou apavorado. Outra coisa estranha, até conversei com uma menina que falou que quer ir pra lá, é que alguns homens têm muita falta de respeito; eles tentam de tocar. No vagão do metrô é separado mulher e homens; até quando eu namorava tinha lugares onde eu não podia andar de mãos dadas com o meu namorado, porque é bem diferente. Foi um mês pra eu me acostumar, até com a comida; eu tinha medo, porque tem coisas que você vê e não tem coragem de comer. Eu tinha medo de ficar doente, aí eu tentava comer coisas do mercado. Aos poucos me acostumei, mas é bem diferente.

Quais foram os aspectos da cultura que você absorveu que lhe chamaram atenção?

Eu cheguei lá durante o Ramadã, as pessoas rezam 5 vezes por dia, é tanta gente rezando que eles chegam a rezar nas ruas e sempre tinha gente embaixo da minha sacada, na calçada rezando. Naquela época um guri da Tunísia, que também era muçulmano, morava comigo e eu não entendia muito, pensava que essas pessoas só reza. Eu achava bem estranho e hoje, quando eu ouço, é uma coisa que me arrepia, eu acho muito interessante, porque é uma coisa que todo mundo respeita. Deus é em primeiro lugar e todo mundo reza bastante, mas eu acho muito legal, acho que por causa disso é bem menos perigoso. Nunca alguém tentou me assaltar, que era um dos meus medos. Outra coisa legal é que eles são muito de ajudar outras pessoas. A mãe do meu ex-namorado sempre manda comprar remédio para doar para as pessoas pobres. Tem gente morando na rua, mas não é tanto como aqui. A comida também é súper barata; uma pessoa pobre lá consegue se alimentar bem com pouco dinheiro.

Você contou que teve um namorado lá. Como foi essa relação, foi muito diferente?

No meu caso foi “normal”. Eu conheci a mãe dele, mas acho que foi porque a família dele tinha uma cabeça mais aberta. Só que eu sei do caso de um amigo meu que também estava namorando uma brasileira e, quando os pais dele descobriram, começaram a controlar a vida dele e noivaram ele com uma guria de lá, era uma guria que ele conhecia, mas de quem ele não gostava. Há muito preconceito. Meu ex-namorado tomava muito cuidado comigo, porque em todos os prédios tem porteiros e, geralmente, são de famílias mais pobres e eles têm a ideia de que turista é prostituta, então, ele tomava esse cuidado de não mostrar que nós estávamos namorando, pelo menos para os porteiros, pra eles não ficarem pensando coisas. Teve uma vez em que uma amiga minha tentou falar com um porteiro e ele tentou tocar nela, apareceu no nosso apartamento de madrugada; então, esse era o principal cuidado. Tem pessoas com a cabeça muito fechada. Outra coisa bem diferente é que, aqui, as gurias saem à noite e lá não é assim, a maioria dos meus amigos são homens, porque de dia eu trabalhava e à noite eu saía, mas era só com os guris. Acho que os pais guardam mais as meninas.

E como é a vida noturna dos egípcios? Você comentou que as meninas não saem, como eles se divertem?

Durante o Ramadã, é proibido o consumo de bebida alcoólica. Então, durante essa época, não tinha nenhum bar que vendia bebida alcoólica, nada. Depois que passou o Ramadã tinha, mas era muito difícil de encontrar. Eles têm mais o costume de frequentar cafés, tomar chás, sucos; narguilé é quase um pra cada pessoa. Tem lugares pra fazer festa, mas é mais pra turistas. Nós costumávamos fazer em algum desses lugares ou na casa de intercambistas, aí nos reuníamos. É estranho não ir a festa, mas eu me acostumei. Eles têm o hábito de sair todas as noites, pra ir nos cafés. É uma coisa boa, eles saem com os amigos, ficam lá conversando.

Às vezes você acaba convivendo mais com intercambistas do que com as pessoas de lá?

É, por um lado é bom, porque você conhece várias culturas. Mas eu consegui conviver bastante com os egípcios, tive oportunidade de almoçar duas vezes na casa de famílias. As pessoas lá são bem receptivas, era bom isso.

 

É aquela coisa de fazer trabalho voluntário e você se sentir tão feliz de estar fazendo aquilo. Você se sente tão importante pra alguém! As crianças brigavam pra sentar do meu lado, uma coisa que eu nunca imaginava.

 

Como era sua rotina lá, você trabalhava, estudava?

No meu primeiro mês, eu trabalhava em um orfanato, dava aulas de inglês para as crianças. Durante o Ramadã, as pessoas ficam sem comer e sem beber água, não podem fumar até o pôr do sol; aí eles comem e ficam de novo sem comer, só que é muito quente. Pra mim foi um pouco difícil isso porque eu tinha que respeitar a cultura deles, mas era ruim quando eu chegava no orfanato, porque eu ia de metrô e depois tinha que caminhar uns 20 minutos e era muito quente, eu chegava lá morrendo de sede e tinha que ficar sem tomar água em respeito às crianças. Eu começava a trabalhar às 11 horas de manhã até a 1 hora e, como eu morava com mais 5 intercambistas que trabalhavam mais ou menos nos mesmos horários, a gente chegava em casa, via algum lugar que dava pra visitar, de noite saía pra algum café e, depois de um tempo, ainda durante o Ramadã, a gente ficava até umas 4 horas de manhã esperando os nossos amigos que estavam em jejum pra ir comer, ia pra casa dormir um pouco e ia trabalhar.

Como era a sua relação com as crianças no orfanato?

Era muito legal. Foi maravilhoso. Eu não sabia árabe, e elas não sabiam inglês. Na primeira semana, foi um guri de lá traduzir, só que depois ele não foi mais. Mas era incrível. As crianças eram muito inteligentes. Eu queria ensinar copo, eu tinha que desenhar o copo e escrever em inglês e elas se ligavam muito fácil, elas eram muito legais. É aquela coisa de fazer trabalho voluntário e você se sentir tão feliz de estar fazendo aquilo. Você se sente tão importante pra alguém! As crianças brigavam pra sentar do meu lado, uma coisa que eu nunca imaginava. Por mais que nós tivéssemos dificuldade de comunicação, foi muito bom, porque elas tentavam me ensinar.  Havia umas crianças que dava vontade de trazer pra casa.

Quando falamos em Egito, a primeira coisa que todos pensam é em pirâmides, faraós, múmias. O que tem no Egito além disso?

Tem muito lugar bonito. Lugares que eu não imaginava. No Cairo tem as pirâmides, tem o museu e tem muita coisa pra visitar. Acho que é a cidade que mais tem mesquitas e são muito bonitas. Tem outras cidades que tem o Monte Sinai, uma montanha que eu fui e não quero ir nunca mais, porque você sobe durante a madrugada, são7 km, 750 degraus, pra ver o nascer do sol. É muito frio. Tem uma cidade para onde eu acabei indo mais perto do Ano Novo, que era um outro projeto que eu fiz, e não parece o Egito; totalmente diferente, tem muito turista, só europeus. Quando eu cheguei, levei um choque, porque no Cairo as pessoas se cobrem e lá não. Era quase como se fosse o Brasil, e eu já estava acostumada com as pessoas cobertas. No sul tem templos. Tem muito lugar bonito pra visitar, tem bastante praias, com uma água azul, sem explicação. O deserto também é muito legal, à noite você pode ver todas as estrelas possíveis.

Foram 6 meses lá. Como foi na hora de ir embora, quando você percebeu que a experiência estava acabando?

Foi horrível. A minha mãe estava feliz porque eu estava voltando e pediu se eu também estava e eu disse: “desculpa, mãe, mas não.” Quando eu saí daqui eu estava triste, mas eu sabia que eu ia voltar; agora lá, você faz amizades com muita gente e você vai embora e talvez nunca mais vai vê-los. Você vai embora e fica sem saber se um dia vai voltar. Foi bem triste. Eu tinha meu ex-namorado, tenho amigas, tem uma que ainda está lá e é uma das minhas melhores amigas. Foi um lugar de que eu gostei muito e ainda quero voltar.

Qual foi a maior lição que você trouxe dessa viagem?

E fui fazer meu intercâmbio mais por causa dos meus pais, que queriam mais, não era eu quem estava super a fim de ir, mas hoje eu não me arrependo. Eu acho que eu me conheci muito, coisas que eu não fazia ideia de que eu era capaz. Eu já tinha saído de casa quando eu comecei o primeiro ano do ensino médio, só que é o seu país, você sabe como tudo funciona, mas lá foi muito bom. Eu nunca tive problemas pra morar com outras pessoas e lá eram pessoas do mundo inteiro com quem eu convivi. Eu pude aprender muitas culturas com as pessoas que moravam comigo. Eu aprendi muito.