Traço e expressão de Iberê Camargo

Quadros de Iberê Camargo

“Tenho sempre presente que a renovação é uma condição de vida. Nunca me satisfaz o que faço. Ainda sou um homem a caminho.” – Iberê Camargo

De excepcional habilidade com o pincel e extraordinária intimidade com as palavras, Iberê Camargo um dos mais importantes artistas brasileiros, natural de Restinga Seca, construiu uma trajetória no qual pintura e literatura quase se confundem. A mostra No Tempo de Iberê Camargo, organizada por Eduardo Haesbaert, responsável pelo acervo da Fundação Iberê Camargo e coordenador do Programa de Ateliê de Gravura, apresentará 49 obras de diferentes fases da vida de Iberê (1914 –1994). Eduardo conta que entre os anos 1990 e 1994, pôde participar dos anos finais da vida de Iberê e, assim, acompanhar sua trajetória sofrida e seus trabalhos repletos de emoção, saudade e solidão. “O ofício dele era pintura. Iberê era um homem pintor, então ele fez isso toda a vida. Ele produzia muito. Fazia uma correspondência com a Livete Banhado que é uma crítica de arte de São Paulo. Ela mandava perguntas e ele respondia via cartas. Ao mesmo tempo ele estava escrevendo as suas memórias, já sabia que estava com câncer; então, ele estava lutando, realmente, era contra o tempo”, comenta Eduardo.

Cilcista, 1991 - Iberê Camargo.

Iberê pintava durante a tarde, fazia gravuras antes das sessões de pintura, depois se voltava para a pintura e ficava até tarde da noite. Ele sabia que o tempo era curto. Então sempre era muito intenso, por isso não parava de trabalhar, “não chegava a ser uma convulsão, era esse negócio da arte mesmo, da necessidade de se expressar e fazer com que também você saia do normal, te mover para outro lugar,” revela Eduardo.

O catálogo traz obras de diversas fases da vida do artista, sempre retratando um pouco do que viu da sua juventude, do que viveu em sua terra natal, Restinga Seca, da estação ferroviária de Santa Maria, onde seu pai trabalhava. “Tem o primeiro álbum retrato de 1941.   Ele já estava no RJ, mas ainda aparecia em sua pinturas ao fundo o trem. Nessa exposição tem também, uma série, que são quatro desenhos sobre a estação de trem, quando ele visitava Santa Maria. Então, suas obras sempre fizeram um retorno ao passado. Sempre vendo o que aconteceu. E, já no final, os carretéis dele desabaram, a bicicleta foi soterrada, essa série se chama “Tudo que é falso e inútil”, diz Eduardo.

Iberê lançava seus quadros com desenho e o modelo na frente. Ele dizia “eu não tenho o quadro, mas tal quadro é esse”, diz Eduardo. Após desenhar, Iberê já começava a estrutura com cores. Os quadros eram muito coloridos no início. Depois ele começou a cobri-los, até chegar à paleta final, a que mais interessava a ele, a paleta escura. A figura, humana quando aparecia em suas obras, ele raspava, riscava a cabeça, a face, até chegar àquela descrição que ele queria realmente. Iberê não corrigia seus erros, ele buscava a forma final, mesmo que isso significasse pintar e despintar.

Para o professor da Faculdade de Artes e Comunicação UPF, Adilson Mesquita, o trabalho de Iberê é muito mais expressão do que traço. “O traço leva elegância, e, apesar de ele não mostrar o que está fazendo, ele mostra pelo traço e pela expressão. Um trabalho solto, e o interessante no Iberê é que ele tem muitos elementos vazios, que chamam muita atenção. Mas o trabalho dele tem muita criatividade, a técnica é muito boa. Acho que ele se destaca por isso. E essa exposição representa bem o desenvolvimento dele, sua trajetória.”

A vice-reitora de Extensão de Assuntos Comunitários, Bernadete Maria Dalmolin, compreende que a mostra de Iberê é de extrema importância para Passo Fundo. A exposição e os trabalhos do artista de Restinga Seca traduzem algo de inteligente, falam da vida do cotidiano, e que ajudam a despertar um olhar mais crítico.

Visitantes apreciam a obra de Iberê Camargo na abertura da exposição.

“Voltei para o Sul, porque a saudade estava grande demais. À medida que envelhecemos, parece que a infância fica mais perto. Sentimos vontade de reencontrar os primeiros amigos e tudo que foi nosso.”- Iberê Camargo.

Eduardo Haesbaert explica sobre a paixão que Iberê tinha pelos ciclistas, sempre velozes e muitas vezes sem metas, a não ser pedalar. Os ciclistas de Iberê Camargo mostram um ser que busca suas verdades e raízes.

 

[stextbox id=”info”]De 27 de setembro a 21 de outubro, com a proposta de mostrar Iberê através de uma inversão de suas obras na linha do tempo, a Fundação Iberê Camargo e Sistema Fecomércio-RS/Sesc, juntamente com a Universidade de Passo Fundo e o MAVRS, trazem á Passo Fundo a mostra No Tempo, de Iberê Camargo. O Museu de Artes Visuais Ruth Schneider localiza-se na Avenida Brasil Oeste, 758,em Passo Fundo. A mostra estará à disposição da comunidade de terça a sexta-feira, das 9h às 18h, e nos sábados e domingos, das 14h às 18h. [/stextbox]