Um sonho: Empreender

Ser seu próprio chefe é o desejo da maioria dos jovens de hoje. O empreendedorismo deixou de ser sonho para tornar-se realidade. Hoje, já são mais de 3 milhões de jovens empreendedores brasileiros. 

            O sonho de ter uma empresa própria e de trabalhar com aquilo que gosta é um desejo que acompanha os jovens desde pequenos, e ver esse sonho se tornando realidade já não está mais tão longe. Uma pesquisa realizada em 2008 e publicada em 2009 pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revelou que, do total de empreendedores brasileiros, 25% são jovens. Esses números colocam o Brasil em terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas do Irã (29%) e da Jamaica (28%). Os números mostram que os objetivos dos brasileiros estão mudando. Já não basta arrumar um bom emprego, ele pode ser inventado de acordo com os próprios anseios e nascer de uma simples vontade. A empresa pode vir de uma ideia surgida entre os amigos, a qual, depois de estruturada, pode se tornar algo sério. Foi o que aconteceu com Tiago Debona, 35 anos. Formado pela Universidade de Passo Fundo, hoje ele é um dos donos da NúcleoCom, uma agência de publicidade que trabalha com gerenciamento de marcas, por meio de assessoria de comunicação. E foi de um bate-papo com os amigos que a empresa surgiu. “Eu sempre comentava com meu irmão que, depois de me formar, podíamos abrir uma agência. Meu irmão e o colega, com uma visão diferente das agências em que trabalharam, também começaram a articular”, conta Tiago.

Mas empreender requer alguns cuidados e, principalmente, resiliência para enfrentar o início da carreira, que normalmente é o mais difícil. Inserir-se no mercado de trabalho não é uma tarefa fácil. Para Tiago, “conseguir mostrar o valor de um trabalho bem pensado, bem feito, e entrar em um mercado com vários concorrentes já consolidados” foram alguns dos obstáculos. Esse também foi um dos problemas encontrados por Victorio Venturini, 26 anos, sócio do Grupo Apta. “A primeira dificuldade é a falta de conhecimento de funcionamento de todos os setores de uma empresa. Tínhamos pouca experiência nesse sentido, éramos somente técnicos”, diz. Mas nem só de conhecimento de mercado de trabalho é que se faz uma empresa. Uma das coisas que mais pesam é o network. “Outra dificuldade encontrada foi a comercial. Nessa hora vemos a importância de um bom network”, salienta Venturini.

O Grupo Apta reúne diversos tipos de profissionais e é dividido em três áreas: aptabrands, proapta e aptainfo. Hoje, ele possui 6 pessoas envolvidas, entre sócios, estagiários e colaboradores. A ideia surgiu em 2010, quando Venturini e seu sócio, Diogo Gonçalves, trabalhavam na Coperves, a Comissão Permanente do Vestibular da UFSM. “Decidimos unir os conhecimentos com o intuito de evoluirmos a tecnologia que tínhamos desenvolvido dentro da Coperves e fundarmos uma organizadora de concurso público”, conta.

O papel da Universidade

Assim como Tiago e Victorio, não são poucos aqueles que começam a dar os primeiros passos como empreendedores dentro da universidade. Mas eles nem sempre obtêm a ajuda e o incentivo de que precisam. “Todos os cursos carecem de uma disciplina denominada empreendedorismo. Somos capacitados para sermos colaboradores, a universidade não instiga o espírito empreendedor”, diz Venturini. Essa falta de preparação acaba fazendo falta mais tarde, pois ir além da técnica e saber administrar a empresa requer conhecimentos específicos. “Sou formado pela UPF e, na época, não tinha muito incentivo. Eu tive uma disciplina de administração em Publicidade e Propaganda, para saber como funcionava uma empresa, como deveria ser, porém foi muito superficial”, explica Debona ressaltando que “incentivo para os graduandos se prepararem e saírem da Academia pensando no seu próprio negócio não havia”.

Para Cezar Gehm Filho, 30 anos, graduado em administração e sócio na ODIG Agência Digital, empresa que desenvolve websites que ajudam a gerar leads (contatos interessados em consumir os produtos e serviços das empresas), o problema das universidades está no perfil da maioria dos professores. “Dependendo da abordagem do curso, da universidade, quem dá aula são professores de carreira e não os empreendedores. Quando falo de professores de carreira, entendo como aqueles profissionais que se graduaram, fizeram especialização, mestrado, doutorado. São profissionais em dar aula, mas não empreenderam”. E ficar na teoria não é o melhor quando se quer empreender, é preciso testar, arriscar.

A empresa de Cezar existe desde 2007 e hoje está com 14 funcionários. Mas nem sempre foi assim: ele e o irmão começaram na sala de casa, contando com a ajuda da família e sem investimento. “Nosso principal desafio foi criar uma empresa sem nenhum investimento. Nossa lógica de negócio era prestar serviços, realizar os projetos para os clientes, e todo o lucro deveria ser reinvestido na empresa”, conta.

Trabalhar sem um chefe

“Nunca quis trabalhar a vida toda para outra pessoa.” Victor Schmitt, graduado em desenho industrial na UFSM, também é um empreendedor. Ele tem um estúdio de design gráfico em Santa Maria, o IWA, que existe há 6 meses. “Eu tinha bastante contato e comecei a fazer trabalhos como freelancer, mas foi tomando uma proporção maior, os clientes e os trabalhos aumentaram, bem como a responsabilidade”, diz. O plano para o futuro é expandir a empresa. “Já estamos pegando alguns trabalhos de fora, a ideia é deixar o escritório em Santa Maria e abrir um em São Paulo, já temos contatos e trabalhos pra isso”, conta ele.

Dicas para empreender

O Nexjor conversou com Mauricio Schneider, que deu algumas dicas para quem pensa em empreender.

Geração miojo – “Estamos na geração miojo, dos 3 minutos. As pessoas querem que tudo aconteça da noite para o dia e que tudo seja perfeito e maravilhoso. Existe uma expectativa muito grande do jovem empreendedor em obter resultados imediatos e achar que tudo é muito fácil e aí, quando eles vão para o mercado fazer as coisas acontecerem, começam a tomar vários choques. É bom ter essa euforia e essa ambição, mas ao mesmo tempo é preciso tentar buscar o que é possível fazer.”

Ter uma ideia original – “Tenha uma ideia original, para isso é preciso estar atualizado, ter uma rede de contatos, estar sempre pesquisando na internet, trocando ideias, cocriando. Mas como isso vira um negócio? Quais são os modelos de negócio que tu vais aplicar pra que tu ganhes dinheiro e isso sirva para alguém, porque eu vejo muita gente que vai montar um negócio, monta tudo, cria o site, cria uma marca, mas e o produto? Alguém já disse que compra o teu produto ou tu só acha isso?”

Testes – “Tente achar um modelo mínimo de entrega do teu produto pra poder testar e testa ele em modelos diferentes de negócio, pra que tu ajustes o teu produto e quando tu lançá-lo oficialmente tu já tenha testado, já tenha visto que tem demanda.”

Dinheiro $$ – “A partir daí, é preciso pensar em coisas como financiamento. Muitos pensam em pegar dinheiro no banco, capital de giro. Isso é uma armadilha. Pega dinheiro com teu amigo, com teu pai, com a tua mãe, alguém que financie. Tenta fugir do banco, porque o Brasil não tem uma estrutura de crédito para empreendedorismo. Não adianta montar um projeto e ir atrás de investidor, porque investidor não investe em papel. O investidor profissional investe em projeto atestado, prototipado. Qualquer negócio que tu montares hoje a regra é escalabilidade.”

Prática – Para Schneider, que tem vários trabalhos ligados ao empreendedorismo jovem, o que o ajudou a se preparar foi o trabalho na Aiesec. “Na Aiesec eu aprendi a importância de compartilhar, de construir com o conhecimento coletivo, de fazer planos para o futuro com o engajamento de todo mundo. Um ano e meio depois que eu entrei na Aiesec eu era presidente na Aiesec do Brasil. Qual é a organização que tu entras com uma estrutura que tem vice-presidente local, presidente local, vice-presidente nacional, presidente nacional que tu vais conseguir em um ano e meio fazer isso? E isso quer dizer que a hierarquia dela não importa, o que importa são as pessoas e as ideias. Tu tens a liberdade de criar, de acertar, de errar e isso tem feito da Aiesec uma das organizações mais vencedoras em 60 anos.”