Uma história vitoriosa da agroecologia no Rio Grande do Sul

A agroecologia pode parecer uma inovação mundial dos últimos cinco anos, menos para a região norte do Rio Grande do Sul, que trabalha com produção alternativa há mais de 20 anos.

Há aproximadamente 26 anos, na região de Erechim, uma família de produtores investia em pomares de laranjas. Com as melhores máquinas, fertilizantes e pesticidas da época, acreditavam que a produção seria lucrativa, mas não foi. Após muitas tentativas de produção tecnológica eles abandonaram o pomar. Descartado, o local transformou-se numa área de capim que, para surpresa dos agricultores, passou a produzir laranjas.

Essa é uma das diversas experiências que fizeram, com que no ano de 1996, agricultores de algumas regiões do sul do país, se reunissem durante três dias para formar uma instituição preocupada com a agricultura alternativa, a Cetap (Centro de tecnológias alternativas populares).

As plantas, o capim e o próprio “mato” são usados como fertilizantes, e protetores naturais  (Foto: Clarissa Battistella)

Com uma proposta na mão e auxílio primordial da Corporação Internacional, entidades da Alemanha e Estados Unidos, a Cetap encontrou os recursos necessários para existir como ONG. O contato com a corporação teve auxílio da Fase (Federação de órgãos de assistência social e educacional), um departamento de agricultura alternativa do órgão. Esse apoio fez com que a ONG passasse a auxiliar os agricultores na região e proporcionar experiências de produção.

Como a agricultura alternativa progrediu, o próximo passo era encontrar consumidores. E não foi tão difícil. Uma feira se instalou na Avenida Brasil Oeste, na frente da Escola Fagundes dos Reis, há 15 anos, para que as famílias, que praticavam essa nova agricultura, pudessem vender sua mercadoria. Boa parte da população passo-fundese aderiu à ideia de consumo verde e passou a se deslocar, cedo da manhã de sábado, para comprar verduras, legumes e frutas frescas.

 

Lucrar de forma saudável e sustentável

A família Cé, de São Domingos do Sul, RS, iniciou a produção alternativa há aproximadamente 16 anos.  Leandro José Cé, de 24 anos, conta que a opção de trabalhar com a agricultura alternativa foi um jeito encontrado pela família, de cinco pessoas, para oferecer um produto de qualidade e, principalmente, um produto que não agrida a saúde dos consumidores e dos próprios produtores. Leandro explica que “protegendo a natureza, a gente protege a nossa saúde”. Os cinco familiares trabalham juntos em todas as atividades da propriedade, ou seja, praticam a verdadeira agorecologia. Conforme Leandro, “Desde que me lembro, trabalhamos sempre dessa forma, usando insumos e sementes conseguidos de forma alternativa (biológicos)”, comenta.

Lauro Foschira se orgulha do serviço que a ONG vem prestando há anos e da nova sede conquistada.

Segundo o coordenador executivo da Cetap, Lauro Foschira, a venda não se restringe, apenas, à feira semanal, mas também, ao Projeto PAA Doação Simultânea, um programa do governo, que compra os alimentos desses produtores e doa para instituições ou entidades das localidades. Em Passo Fundo, algumas entidades responsáveis recebem essas doações e repassam para as famílias selecionadas. “É um programa que combate a fome e que ajuda a agricultura, as entidades e as pessoas carentes”, diz Lauro. Outra forma que os agricultores ecológicos encontraram de obter lucro é vender o alimento para servir de merenda escolar.

Essa história foi construída gradativamente e, hoje, a Cetap é uma ONG reconhecida mundialmente. Com o foco no auxílio da produção em Passo Fundo, Erechim, São Domingos do Sul, Sananduva e Santo Antônio do Palma, a agricultura orgânica – como também é conhecida – dessa região, foi exemplo na Rio+20. Segundo Foschira, “a propriedade de São Domingos do Sul, foi citada como uma das propriedades mais diversificadas. O MDA (Ministério de Desenvolvimento Agrário) tem divulgado como melhor propriedade nacional em diversidade alimentar”.

[stextbox id=”custom”]Os agricultores produzem os alimentos e recebem o pagamento da Conab (Companhia Nacional de abastecimento). Os alimentos são doados à entidades que entregam às famílias carentes.[/stextbox]

 

Uma sede agroecológica no meio urbano

Uma propriedade privada, de um antigo dentista que prezava pelo contato com a natureza, boa alimentação, saúde corporal e planetária, onde existem árvores frutíferas e plantas medicinais variadas, composteiras, um banhado e um sistema de captação da água da chuva que serve para irrigar os mais de 4 mil metros quadrados. Esse é o local onde a Cetap se instalou há aproximadamente dois anos.

Quando Lauro Foschira conheceu o local, o espanto em ver uma área tão rica em diversidade e conservação ambiental no meio urbano transpareceu em seu rosto. Foschira conta que o local estava abandonado há aproximadamente cinco anos, sem que eles, o grupo organizador da ONG, tivessem conhecimento da riqueza que não estava sendo aproveitada. “Esse espaço estava meio abandonado e a gente não sabia. E por um acidente de percurso, mas um acidente bom, ficamos sabendo”, explica.

O antigo dentista, pai da professora de Engenharia Rosa Kalil e dono da propriedade, tinha um projeto para o local, que conforme Foschira, será preservado. Em dois anos muito se fez, porém ainda falta muito para se fazer na sede da Cetap. A proposta da ONG é usar o local como referência: mostrar para as entidades urbanas como é possível produzir seu próprio alimento, qual são os benefícios do consumo de produtos agroecológicos e abrir para visitação, conversação e instrução para a população regional.

Uma parceria com faculdades de agronomia e biologia também é uma das propostas do grupo para um futuro próximo. Os acadêmicos poderão ir até o local e realizar estudos, fazer novas descobertas. Chamar escolas de jovens para inventar pratos gastronômicos a partir da produção frutífera local também é uma das finalidades, inclusive, Foschira explica, que o pessoal prepara alimentos para coquetéis, quando solicitados.

 

Eu quero saber o que estou comendo

O ideal do dentista visionário Locatelli, proprietário do espaço localizado na rua Luiz Feroldi, no Boqueirão, era saber o que estava comendo. E saber de onde vem o seu alimento e como ele é produzido é a intenção do Centro de tecnologias alternativas populares. “Nós continuamos o nosso trabalho com os produtores, no interior, mas a gente acha que uma agricultura diferente, um ambiente diferente, mais preservado, depende também do apoio da população urbana”, explica Foschira.

Mostrar aos cidadãos como é produzido o alimento diário, frutas, verduras e legumes, quais as propriedades agentes no organismo, como os pesticidas ou fertilizantes usados pela agricultura convencional são prejudiciais e chamar a população a participar desse modelo de vida mais sustentável é o propósito primordial.

Esse projeto começou a engrenar e agora inicia o período de incentivo à participação da comunidade, um momento muito importante, que define o futuro da nossa cidade, estado, país e, também, do mundo.
Vale a pena conhecer a sede e o alimento que você ingere. Pense nisso!