Vocação: cineasta!

Publicitário por formação e cineasta por vocação, ou diríamos com um empurrãozinho do pai Gilberto Spolidoro um  apaixonado por cinema. Gustavo Spolidoro estreou no cinema em 1998, com o filme  “Velinhas”. Logo de cara marcou presença no Festival de Gramado, abocanhando o Kikito de Melhor Direção e o Prêmio Especial do Júri Gaúcho. No mesmo ano foram mais cinco prêmios, incluindo Melhor Filme e Direçãoem Brasília. Eum incrível convite no ano de 1999, para o filme no formato de 16mm passar no Panorama do 49º Festival de Berlim. Esse foi o empurrão que precisava para o garoto publicitário que ainda não sabia qual rumo seguir, cair no mundo cinematográfico. A escolha na profissão não poderia ser diferente, depois disso não dava mais para fugir de fazer cinema. Hoje fazem parte do currículo de Spolidoro a roteirização e direção de 15 curtas e 3 longas.  Já participou de Festivais como Berlim, Rotterdam e Sundance. São mais de 70 prêmios no Brasil e exterior.

Confira a entrevista com o cineasta e professor de Cinema da PUC/RS, Gustavo Spolidoro.

Nexjor:Como surgiu seu  interesse pelo cinema?
Gustavo: Desde pequeno meu pai, Gilberto Spolidoro, um cinéfilo de carteirinha que na adolescência anotava os filmes que via em caderninhos, me levava ao cinema. Ele me ensinou a ver cinema, a detectar os “furos” em um filme, a decupar um filme de forma básica. Tipo, tal coisa foi mostrada por que daqui a pouco tal coisa vai acontecer, e por aí vai. Eu não entendia porque um conhecedor de cinema como ele não era crítico de cinema (depois descobri que ele tinha uma profissão, senão melhor, pelo menos mais rentável que a de crítico). Então comecei assistindo a filmes dos Trapalhões no Astor, Marrocos, Vitória, Coral, Imperial, depois passamos para Superman, Guerra nas Estrelas e daí por diante. Em casa, víamos muitos filmes do Woody Allen na TV (nos anos 70 ainda e inicio de 80), o cineasta preferido dele (e meu também, cada vez mais). Lembro que os filmes passavam muito tarde (tipo 22h) e eu ficava lavando o rosto para conseguir ficar acordado. Víamos muitos filmes de Guerra e faroestes também. Meu pai também me levava para assistir aos comerciais premiados em Cannes (tinham exibições em POA, promovidas por alguma agência), e daí eu resolvi que queria fazer publicidade (eu já tinha uns 12, 13 anos). Então fiz publicidade, mas no meio disto fiz dois cursos de cinema (93 e 94), onde conheci pessoas que até hoje me relaciono e com quem já fiz vários filmes e projetos, como Cristiano Trein, Fabiano de Souza, Cristiano Zanella dentre outros. Em 96 terminei a faculdade de Publicidade sem saber “para onde ir”. Tinha feito uma monografia sobre Cinema Brasileiro e Co-produções e tinha 2 roteiros de curta. Passei um ano sendo pressionado pela família para arranjar um emprego. Eu dizia “Calma, não sejam imediatistas. Eu tenho projetos…”. E rolou que, no final de 97 eu ganhei um prêmio da Prefeitura de POA (FUMPROARTE) para realizar o curta em 16mm “Velinhas”, meu segundo roteiro (o primeiro “Palhaçada”, nunca ganhou prêmio e nem foi possível realizá-lo com recursos próprios ou em outra bitola pois ele não é barato e é um filme para ser em 35mm). Quando ganhei o prêmio pensei: “e agora, vou ter que fazer um filme!?!”. Deu medo. Mas eu fiz, junto com um grupo que estava estreando no cinema (atores e técnicos) e que hoje são algumas das pessoas mais requisitadas da “nova geração”, como o ator Júlio Andrade, a Produtora Aline Rizzotto, o Técnico de Som Cristiano Scherer (hoje Desenhista de Som), o Assistente de Câmera Juliano Lopes Fortes (hoje Fotógrafo) e muitos outros. Quando terminei a edição do filme, não tinha noção do que tinha feito. Então fui para o Rio acompanhar a finalização e fiquei na casa de um cara que tinha conhecido um ano antes no Festival de Curitiba, o Eduardo Nunes (do curtas ´Terral`e ´Reminiscências` e do longa “Sudoeste’). Daí que ele e o Flávio Zettel (montador), assistiram o “Velinhas” em vídeo e gostaram muito. Eu achava que estavam só tentando me encorajar. Então o “Velinhas” ficou pronto e logo no primeiro festival, Gramado/98, ganhei o Kikito de Melhor Direção e o Prêmio Especial do Júri Gaúcho. Depois foram mais 5 prêmios, incluindo Melhor Filme e Direção em Brasília/98. Mas o mais incrível foi o convite para o filme (um 16mm) passar no PANORAMA do 49º Festival de Berlim/99, feito após o curador, WielandSpeck, assistir ao filme na Mostra Curta Cinema. Eu fui para Berlim, fiquei 10 dias, vi 40 longas e 20 curtas e conheci muita gente interessante. Depois disso não dava mais para fugir de fazer cinema. No mesmo ano fiz meu primeiro Super-8, TPD e depois vieram mais três super-8, um 16mm, três 35mm, muitos vídeos e três longas.

Nexjor:Como é o processo de criação do roteiro escreve imaginando algum ator para interpretar, se baseia em fatos cotidianos?

Foto: Divulgação


Gustavo: Cada projeto é diferente. Geralmente trabalho com idéias próprias e chamo alguém para desenvolver comigo. Tenho como grande colaborador o Gibran Dipp.
Já escrevi pensando em atores específicos. É o caso do personagem do Roberto Oliveira no “Ainda Orangotangos”. Mas também gosto de fazer testes e descobrir novos atores.

Nexjor:Na hora de escrever um roteiro você procura já ir decupando (plano a plano), fazendo indicações de câmeras?
Gustavo: Isso não se faz em roteiro pois roteirista não é diretor. No meu caso, mesmo sendo roteirista de muitos dos meus filmes e mesmo pensando na imagem e decupagen quando escrevo, não indico isso no roteiro pois pode tornar enfadonha a leitura e travar o fluxo. O roteiro tem que ser claro e objetivo, sem firulas narrativas ou descrições de câmeras e outras técnicas. Depois de aprovado num edital, por exemplo, aí sim passo para o roteiro técnico e depois decupagem.

Nexjor:Já foram três produções filmadas em um único plano, essa pode ser considerada uma marca  registrada de Gustavo Spolidoro? Tem algum significado especial nessas escolhas?
Gustavo: Além do “Velinhas”, “Outros” e “Ainda Orangotangos”, tenho outros filmes que foram filmados em PS (Plano Seqüência), mas não finalizados assim.  E sim, isso é uma das marcas do meu trabalho, mesmo que a maioria dos meus filmes tenha sido feito de outras maneiras e técnicas. As minhas escolhas, independente de ser um PS, são sempre baseadas em desafios, em fazer algo diferente, que possa gerar um crescimento pessoal, que possa fazer pensar sobre o próprio fazer cinema.

Nexjor:Suas duas primeiras produções foram gravadas somente em plano seqüência. Quais os cuidados fundamentais que devem ser tomados numa filmagem sem cortes?
Gustavo: O principal é ter uma decupagem detalhada e muitos, muitos ensaios.

Nexjor:Cenas gravados em plano seqüência  pode ser  confundido  com um plano longo, o que pode ser cansativo para quem assiste, quais os cuidados tomados para que isso não aconteça nas suas produções?
Gustavo: O principal é decupar o filme como um filme normal. Não é porque não tem cortes que eu vou ficar 10min com a câmera parada. Não, a câmera faz movimentos como faria nos cortes. A diferença é que há um espaço entre um plano e outro que não existe quando há corte. Ao mesmo tempo, o fascínio técnico-narrativo de uma ação contínua é muito mais prazeroso.

Nexjor:Quanto você considera de custo suficiente para realizar uma boa produção cinematográfica aqui no Sul?
Gustavo: É impossível responder. Temos longas de quase zero a muitos milhões de reais. No Brasil em geral há um pensamento antigo que tem um vicio hollywoodiano de equipes gigantescas. Não podemos mais seguir essa fórmula cara, que não tem retorno de bilheteria. Nossos exemplos deveriam ser outros. Felizmente os jovens realizadores estão trabalhando de outras formas, buscando novos mecanismos de financiamento, juntando-seem coletivos. Esse é o caminho para o melhor cinema no Brasil.

Nexjor:É possível hoje em dia fazer filmes com uma qualidade boa de forma independente?
Gustavo: partida resposta esta acima. Mas eu completaria dizendo que estes filmes são os que estão conquistando mais espaço em festivais e distribuição em outros países. Destaque para os cineastas Cão Guimarães (MG); Sérgio Borges (MG); Felipe Bragança e Marina Meliande (RJ) e para o Coletivo Alumbramentos (CE), dentre diversos outros que tem ganho e participado de festivais como Cannes, Veneza, Berlim, Rotterdam etc. Por outro lado, são filmes que não tem uma narrativa popular, aquela que leva milhões de pessoas ao cinema (o que também é uma enganação, pois são poucos filmes que conseguem isso anualmente).

Nexjor:Você pode falar um pouco sobre as dificuldades de conseguir patrocínio e apoio das leis de incentivo ao cinema?
Gustavo: O grande número de cineastas e projetos e o principal impeditivo. Mas estamos bem de editais e mecanismos. Falta uma atualização dos festivais que ainda são muito conservadores.

Nexjor: Tem trabalho novo vindo por aí?
Gustavo:  “Errante – um filme de encontros” é um longa que fiz sozinho e estou finalizando sozinho, a parte de idéias que foram se encadeando espontaneamente durante 5 dias do carnaval de 2011 (há um link no YouTube para uma versão teste de 7min que fiz para um seminário acadêmico). Esse longa é parte do meu Mestrado na PUC/RS. Há também um projeto para a Tv Camara, chamado provisoriamente “Questão de Ordem”. E tem também o Cine Esquema Novo, festival que faço desde 2003.