Autismo: por um mundo diferente…

… Ou a visita de uma repórter ao mundo de alguns pequenos. Mundo este que está sendo alcançado, aos poucos, com determinação de alguns profissionais que compreendem essas pessoas. 


“Diferente é o mundo que queremos”. Esse é o lema da Escola Municipal de Autistas Professora Olga Caetano Dias, que trabalha com 50 alunos, de cinco a 36 anos divididos entre os turnos da manhã e tarde.

Tempo fechado, nuvens cinza por todos os lados e a cor do céu apontando desânimo. Não para os 24 funcionários, divididos entre professores e colaboradores, que trabalham na escola. A casa antiga tem árvores ao seu redor; não poderia ser diferente, afinal, é localizada no bosque da Lucas Araújo, bairro cercado pelo verde das árvores.

Não sabendo o que viria pela frente, toco a campainha. Logo uma funcionária atende e pergunta do que se trata. Uma visita agendada, conhecer a escola, as atividades desenvolvidas nela e um pouco sobre a disfunção global do desenvolvimento: autismo.

Uma pedagoga, professora e futura diretora, Tanise Donadussi Silva, com especializações na área e que também atendia uma turma de alunos – quatro no total, entre sete e 11 anos –, me recebeu. Com a intenção de ficarmos mais à vontade, passamos à sala ao lado da recepção. Ali fiquei sabendo sobre o funcionamento da instituição e, em seguida, conheceria com meus cinco sentidos a rotina desses autistas. Falo dos sentidos, porque não seria possível apenas visualizar ou ouvir o local para conhecê-lo. Lá, é preciso sentir: tocar, cheirar, degustar.

O professor e coordenador do turno da tarde, Paulo Cezar Mello, foi quem apresentou o ambiente. A casa é adaptada às necessidades dos alunos. A sala de atividades físicas serve também para o desenvolvimento do projeto de música – inclusive, era o dia da música. Alguns alunos participavam da atividade sem resistir e até se divertiam, ao modo deles, com a sonoridade. Outros se remexiam em suas cadeiras, gritavam e se contorciam, procurando formas de escapar da atividade.

Em vão. Quando uma atividade é proposta, mesmo que o aluno resista, é necessário que pratique. Compreender que existem responsabilidades e que algumas coisas devem ser feitas mesmo sem gostar de fazer é indispensável para essas pessoas que carregam a disfunção.

Depois que entrei na sala para acompanhar um pouco do projeto musical, percebi que mesmo estando cheia de pedagogas e alunos, a minha presença os agitava. O melhor a fazer era sair e continuar a visita nos demais cômodos. Então prosseguimos.

Proposta pedagógica

Durante o turno da manhã, os alunos têm entre cinco e 12 anos tendo como enfoque principal a alfabetização. “O nosso objetivo é fazer com que esses alunos estejam incluídos em uma escola regular durante o outro turno. E boa parte deles já está. Assim, eles podem aprender com os colegas e imitar alguns hábitos diferentes dos que eles estão acostumados, que são as estereotipias e gritos”, explica a pedagoga Donadussi.

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O autismo é uma disfunção global do desenvolvimento.

É uma alteração que afeta a capacidade de comunicação do indivíduo, de socialização (estabelecer relacionamentos) e de comportamento – responder apropriadamente ao ambiente segundo normas que regulam essas respostas.

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A escola deve ser um local de passagem. Aprender a socializar com o ambiente e com as demais pessoas é o objetivo de um projeto desenvolvido pelos profissionais que trabalham na escola, o qual envolve passeios pela cidade e participação nas atividades oferecidas pelo município, como ocorreu naquela semana, na Feira do Livro. “Os alunos passeiam, conhecem o ambiente. Fomos também ao shopping e muitos deles ainda não conheciam escada rolante. Aquela novidade deve ser apresentada para que em uma próxima situação eles saibam reagir”, diz Mello.

Comprar o próprio sorvete e entregar a passagem ao cobrador do ônibus são maneiras encontradas para o desenvolvimento da socialização e são essas atividades que o grupo de funcionários oferece periodicamente aos pequenos e grandes alunos. Ao contar sobre essas atividades, percebo os olhos do professor brilharem. O trabalho é árduo, mas gratificante. Ao contrário dos educandos que, segundo Mello, não estabelecem uma relação emotiva em relação aos educadores, os funcionários passam a sentir os alunos como parte importante do seu dia a dia. E isso ninguém precisa dizer, basta conhecer para ter a constatação.

Em adaptação

Para que um novo aluno seja inserido na escola de autistas, é imprescindível a apresentação de um diagnóstico prescrito, geralmente, por um neurologista ou psiquiatra. Também é importante uma descrição pedagógica e psicológica. E só entram alunos enquanto crianças – depois dos 14 anos não são mais aceitos, pois existem um regulamente e uma proposta pedagógica que só funcionam se seguidos.

Como em uma escola de educação infantil, existe adaptação. As crianças precisam se acostumar com a rotina – autistas precisam mais do que ninguém dessa rotina. Quando apresentado à escola, é elaborado um plano específico para o aluno: o que deve ser trabalhado com ele, dificuldades e capacidades. Em seguida, ele começa a frequentar a escola, gradativamente, conforme a evolução. “Na primeira semana vem um dia, na segunda vem outro dia, e depois vai aumentando”, orienta Donadussi. As crianças passam pela ambientação, sendo trabalhadas, primeiramente, de forma individual para, depois, serem inseridas em uma turma.

Aprendizagem – para saber se virar

Continuamos a conhecer a escola. No primeiro banheiro, deparei-me com a parede tomada por fotografias. Era o passo a passo da escovação dentária. Ao lado, sobre o vaso sanitário, duas mãos simbolizando a posição que o menino ou homem deve urinar. O professor que me acompanha, mostra como eles fazem. Explica que os alunos são instruídos a chegar até o local, se posicionar com a mão sobre os símbolos e fazer “xixi”. “Acontece por tabela: o xixi bate na tampa e cai no vaso. Mas, ao menos, não fazem sentados, afinal são do sexo masculino e vão se deparar, na rua, com vasos que não dá para sentar”, comenta Mello.

Em seguida, fui conduzida em direção ao cheiro de comida: ao refeitório. Uma mesa grande, com cadeiras ao seu redor, para que eles interajam, também, durante as refeições. Lá são colocados “descansa pratos”: retângulos com desenhos de um círculo grande, centralizado – onde deve ser colocado o prato – , um círculo menor, para o copo, e o local para os talheres – desenhos de garfo, faca e até colher, do tamanho dos próprios talheres.

O professor explica que cada aluno é diferente. “Uns comem certinho, sentam, pegam os talheres, sempre com uma faquinha de madeira. Outros precisam de auxílio para levar o alimento até a boca”, declara Mello. E esclarece que os símbolos são trabalhados em boa parte das atividades, como ponto de referência para eles.

Na primeira sala em que entramos, estavam dois alunos. Vitor Gabriel, quatro anos e Carina, 12 anos – que não é da turma, mas, estava ali no dia. Vitor não tem oralidade, mas tem simpatia. Sorri quando entramos na sala, mas quando me abaixo para cumprimentá-lo, ele esconde o rosto envergonhado. Tímido, mas sorridente.

Na sala vemos uma tabela com as atividades. Cartões que simbolizam a tarefa que virá pela frente. Quando a ação acaba, o cartão é retirado do painel. Como aconteceu quando Vitor e Carina terminaram o trabalho com oralidade – com músicas e diálogo. Mesmo que não respondam com palavras, os objetos e os cartões fazem essa ponte, para que haja retorno, que nem sempre acontece. Quando Vitor tem o tempo livre, a professora indica o lugar, com um símbolo, que foi determinado para tal.

Para não dispersá-los demais, agradeço e saímos da sala, a fim de conhecer o restante do ambiente. Uma escada nos aguarda. Mello justifica a instalação da maioria das salas no andar superior. “Alguns alunos têm dificuldade de locomoção e precisam superar. Então, propositalmente, fazemos com que subam e desçam as escadas. Afinal, precisam aprender a se virar, para que os pais, que já têm uma rotina diferenciada em função dos filhos, não dependam se dispor integralmente a eles”, diz.

Diferenças notáveis

Sem saber o que encontraria no andar superior, acompanhei o meu guia. De sala em sala, passamos observando os cômodos, a distribuição das ilustrações e os brinquedos utilizados para as atividades lúdicas, até chegar à última, que, para minha surpresa, tinha alunos desenvolvidos. Bem desenvolvidos. Aquela turma é a da professora Tanise, que nos atendeu na chegada à escola. Geralmente são duas pedagogas por turma, porque, autistas sofrem com histerias e, quando isso acontece, precisam ser retirados da companhia dos demais, para se acalmarem e não propagarem a agitação entre os demais. Com aquela turma não é diferente: duas profissionais.

Paixão foi o que senti. Uma vontade quase incontrolável de ficar ali, batendo um papo com os pequenos e não sair mais. Quando posicionei a câmera para fotografá-los, mais uma surpresa: fizeram pose! Não consigo imaginar um daqueles pequenos agitados. Eles já estão em processo de alfabetização e escreviam no caderno quando entramos na sala. Tranquilos, se apresentaram: Gabriel, Arthur, Felipe e Cristian. Eles não se perturbam, ao contrário, dialogam – claro, com auxílio. Eles sabem dizer quais são os dois colegas que estão faltando na sala: o Bruno e o Jorge. Felipe anuncia: “Eu já tenho oito anos e hoje é oito de novembro”, compara. Eu só consigo permanecer boquiaberta.

Gabriel conta que foram na Feira do Livro e Felipe diz que esqueceu de entregar a passagem ao cobrador do ônibus, achando graça. Os alunos mais evoluídos da turma da manhã sabem dizer, também, qual escola frequentam no turno inverso. Saí da sala satisfeita e esperançosa no futuro daqueles pequenos. Mas, na sala ao lado, encontrei dois alunos bem diferentes.

Com a mesma faixa etária, a outra turma é composta por crianças mais agitadas, apesar de desenvolvidas. Um dos alunos não estava na sala. Precisou sair após uma crise de agressividade. Quando entramos, um deles prontamente se levantou e veio em direção ao gravador. Curiosidade também faz parte do universo dos autistas. Depois que viu o gravador e suas funções, solicitou ao professor que me acompanhava que ligasse o computador. Foi atendido.

Ao terminar a visita e compreender as diferenças entre cada criança, tomei um café com Mello, que contou, de maneira apelativa, como são formados os profissionais aptos a trabalhar com os autistas. A exigência é por professores que tenham realizado alguns cursos, por conta própria, de especialização em autismo. “O problema é que, geralmente, esses cursos ocorrem longe daqui e precisamos nos deslocar, fica difícil”, explica.

Mas nem por isso deixam de “lutar por uma escola alegre, onde se misturam sonhos, sorrisos e esperanças”, como Mello faz questão de frisar. Despedi-me da escola, sabendo um pouco mais sobre o universo que cerca essas pessoas e levando como exemplo a determinação e a vontade, tanto dos profissionais, quanto dos pais de cada aluno, e com uma única certeza: o mundo diferente desejado por esses pequenos é nada mais que o mesmo mundo em que vivemos.

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