Câmeras, drama, luz, terror e ação

Cena do filme Guerra ao terror, ganhador do Oscar de 2010 (melhor filme, direção, roteiro original, montagem, edição de som e mixagem de som).

 

11 de setembro de 2001. Você lembra desse dia? A data é lembrada por muitos como o dia em que o mundo parou para acompanhar as notícias sobre o atentado que matou 2966 pessoa sem Nova Iorque.

Os sete edifícios que compunham o World Trade Center, considerados então os mais altos do mundo, superando o Empire State Building, viraram pó. Os ataques terroristas comandados pela Al-Qaeda marcaram a história de muitas pessoas, ditaram novos costumes, influenciaram posturas,  e como todo acontecimento de impacto, se tornaram pano de fundo para alguns filmes.

Bastou um ano após o ataque às Torres Gêmeas para a indústria cinematográfica explorar a tragédia. Os Heróis, com a direção de Jim Simpson, foi o pioneiro e abriu caminho para Reine sobre mim, Tão forte e tão perto, Voo United 93 e o premiado Guerra ao terror. Esses são apenas alguns títulos de produtos visuais com a mesma temática. O que eles têm em comum? O drama das perdas causadas. O herói americano, o povo injustiçado pelo terrorismo, famílias com lacunas, a guerra…

Para Gizele Zanotto, professora do curso de História da UPF, a data vem influenciando nas atitudes humanas e sociais: “O cotidiano, após os atentados, e as reações estadunidenses na busca pela Al-Qaeda no Afeganistão geraram também um acirramento de uma visão maniqueísta de compreensão de mundo: os certos/bons X os errados/maus”. A batalha entre o bem e o mal já lotou muitas salas de cinema e continua atraindo o público, por isso que a fórmula é repetida há anos. “Este dualismo simplista maquia uma série de eventos realizados por ambos os lados (EUA e grupos radicais), desistoriciza o processo de constituição e conformação dos grupos ditos terroristas e, sobretudo, sombreia o próprio terrorismo de Estado por legar ao termo terror somente ações de grupos radicais.” Essa guerra entre mocinhos e vilões é antiga, os muçulmanos são os vilões, desde 2001, mas, antes deles, os vietcongues foram a nação inimiga retratada no cinema. A parte mais irônica da história é que os vilões de 2001 já foram aliados da América em Rambo 3.

Douglas Kellner afirma em seu livro A Cultura da mídia que “numa cultura da imagem dos meios de comunicação de massa, são as representações que ajudam a constituir a visão de mundo do indivíduo”, mas que visão de mundo o individuo construirá cercado pelo drama criado em torno da destruição das Torres Gêmeas ou da caça a Al-Qaeda? Algumas coisas não mudam, e não estamos falando sobre a temática dos filmes mencionados acima, mas sobre o significado da palavra terror, que, em qualquer dicionário, estará relacionada à coação, atos de violência ou domínio.

Mas o público não vive apenas para ver o drama das famílias que perderam alguém querido, dos envolvidos na reconstrução da nação que pede para Deus abençoar a América. Há também o contraponto proposto por Michael Moore em Fahreinheit 9/11, no qual o cineasta critica duramente o governo de George Bush, afirmando que o fato mudou a história do mundo.

Gizele lembra de uma análise de Eric Hobsbawn na qual o autor apresenta tentativa dos Estados Unidos em reafirmar sua hegemonia unilateral perante os demais países defendendo um “imperialismo dos direitos humanos”. “Todavia, apesar dessas interessantes considerações de Hobsbawn (mobilizadas quando de interesse dos EUA, reforçamos), acredito que em termos históricos ainda é cedo para deixar o evento e sua repercussão como marcos a médio e longo prazos. Certamente que a curto prazo o atentado foi utilizado politicamente para legitimar atuações dos estadunidenses no que chamaram de “guerra ao terror”, frente a grupos radicais integrados por fiéis islâmicos no Afeganistão, país que abrigou a organização Al-Qaeda e então governado pelos talibãs. Também é fato que medidas denominadas antiterror foram implementadas por países de todos os continentes após o 11 de setembro de 2001, ou seja, há repercussões expressivas, mas que ainda são muito próximas para uma avaliação mais ponderada, correta e analítica sobre os fatos”, reforça a professora.