Os caminhos do câncer – parte II

A mãe de Wagner ainda mantém a foto do filho na sala

Uma batalha perdida

Por Ângela Prestes, Camila Guedes e Clarissa Battistella

Enquanto os tratamentos para o câncer não evoluem significativamente a ponto de descobrirmos a cura, ele continua levando vidas e, com elas, sonhos. Estes são como combustíveis que fazem as pessoas andar quando já não têm mais forças. Porém, acreditar nos sonhos nem sempre é o suficiente para concretizá-los. Às vezes, as circunstâncias podem ser mais fortes e a vida pode pregar algumas peças inesperadas. Wagner tinha apenas 15 anos quando o câncer tirou todos os seus sonhos. Menino esperto, falante, ativo, Wagner tinha o sonho de ser advogado, mas nem chegou perto de vivê-lo. Aos 14 anos, um tumor maligno na próstata invadiu seu futuro como uma sombra.

Foi a dificuldade de urinar que levou Wagner a procurar ajuda, mas o estágio da doença já estava avançado demais. Para a mãe, Izolde Farias dos Santos, 42 anos, não foi fácil acreditar no diagnóstico. “O médico não descobriu nos primeiros exames que foram feitos. Passado cerca de um mês, foi realizada uma ultrassonografia, que constatou o tumor. Depois fomos fazer outro exame em Passo Fundo e aí se confirmou que era câncer, só que nós não acreditávamos. Fomos para Porto Alegre, onde foram feitos todos os exames de novo”, conta ela, emocionando-se ao lembrar-se da esperança que o filho sempre teve em se curar, desde o primeiro diagnóstico.

A primeira alternativa foi a cirurgia. “Foi tirado tudo, estava tudo certo para fazer a radioterapia, quando o câncer avançou, foi muito rápido”, lembra Izolde. A partir daí, Wagner começou as sessões de quimioterapia em Porto Alegre. Sempre acompanhado por um familiar, ele aguentou firme o tratamento. “A quimioterapia é muito difícil de aguentar, tanto para quem está fazendo, como para quem está acompanhando”, diz.

No Brasil, o câncer de próstata que vitimou Wagner em 2007 é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). Só no país, foram 12.778 casos de mortes registrados em 2010, segundo o Instituto Nacional do Câncer. O caso de Wagner – o primeiro no Rio Grande do Sul a acometer um menino da sua idade – foi raro, já que o câncer de próstata é mais comum na terceira idade, cerca de três quartos dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos.

          Hoje, 4 anos depois, a ferida de sua morte ainda não cicatrizou. Seus pais sofrem com a perda e guardam tudo aquilo que pode gerar uma mínima lembrança do filho. Roupas, cadernos, perfumes, tudo o que Wagner gostava está preservado em seu quarto. “No começo, eu ia todos os dias no quarto dele e chorava. Ele me pediu para guardar as coisas dele. Ele gostava muito delas”, diz Izolde, enquanto pega cada uma das coisas do filho de dentro do guarda-roupa e lembra-se de como ele gostava delas. “Esse chapéu do Grêmio ele adorava”, diz. Mas as lembranças, que aos poucos vão se tornando mais brandas e menos difíceis de suportar, ainda deixam marcas pesadas. “Nós colocamos o quadro com a foto dele na sala nos primeiros meses que ele faleceu, e eu acho que não nos faz bem deixar aí, mas não tenho coragem de mexer nela”, conta, ao olhar para o quadro com o sorriso de Wagner.

Um novo motivo para sorrir

Faz seis meses que Artur nasceu, motivo para esquecer a tristeza e começar uma vida nova. Um menino bonito, com os olhos do irmão que nunca vai conhecer. Mas a chegada de Artur não foi sempre feliz, pois Izolde teve problemas psicológicos com o nascimento do filho. “Foi boa a vinda do Artur, mas no momento em que eu vi que era outro, que eu senti que não era ele, eu o rejeitei, foi muito difícil. Mas, agora, nós vemos que ele é muito querido, que é bem parecido com o Wagner. Nós sabemos que nunca vai ser ele, mas ajuda bastante. Mas recuperar, nós nunca vamos.”

A luta de Izolde e seu marido, que se iguala a inúmeras outras pelo mundo todo, não teve um final feliz. Mas ela lembra que é preciso ter forças: “O que eu tenho para dizer para as pessoas que estão lutando é: nunca desistam”, diz ela, com as lágrimas nos olhos de uma mãe que perdeu alguém que não era apenas um filho, “era um amigo, um companheiro, uma pessoa muito querida para todos”.

Onde nascem as mudanças

A doença que interrompeu os sonhos de Wagner e colocou lágrimas nos olhos de Izolde mudou a vida de L.C.A. Em vez de passar por mudanças comuns como comprar um carro ou mudar de emprego, como acontece com a maioria das pessoas em um determinado momento da vida, o que mudou a de L.C.A. foi fortes dores no abdômen. Ele lembra exatamente do dia em que as dores o levaram ao médico: 31 de março de 2009. Para ele, parecia ser indício de pedras nos rins, mas o primeiro exame mostrou um aumento no baço. No mesmo dia, exames mais aprofundados revelaram: ele estava com leucemia. E as notícias ruins não pararam: “No decorrer da semana, descobri que era uma leucemia muito grave, muito severa e somente um transplante de medula óssea poderia curar. Não havia medicação para resolver,” conta.

Ainda no fim de 2009 descobriu que a doença havia evoluído. Precisou ficar três meses internado. Passou Natal, Ano Novo e aniversário em um quarto de hospital. Longe de festas, de fogos de artifício, longe de tudo, só ele e sua fé. Os momentos de espera e solidão serviram para uma conversa íntima com Deus: “Pedi que me desse mais essa chance”. E ele deu. Depois de 15 dias de quimioterapia e radioterapia intensivas para controlar o avanço da doença, no dia 06 de janeiro de 2011, L.C.A. passou por um transplante de medula óssea no Hospital das Clínicas em Porto Alegre – Passo Fundo não realiza esse tipo de transplante. O doador estava perto. Entre os cinco irmãos, a irmã caçula era 100% compatível.

Sua fé em Deus e em Nossa Senhora Aparecida o fez acreditar que poderia sair dessa: “Não era o meu momento, sempre tive fé nisso,” conta. Aos poucos, foi melhorando. Tomou um ano de remédios para evitar a rejeição do organismo. Depois de dois anos afastado do trabalho, em março de 2011, retornou. L. garante que não é mais a mesma coisa: “Eu sinto que estou mais velho, um pouco mais cansado”. Talvez seja por isso que ele se sinta melhor em não tirar fotos para ilustrar esta reportagem. Ninguém gosta de se sentir velho. L. ainda faz exames anuais em Porto Alegre para monitorar o comportamento do organismo, mas não toma mais a medicação. Parece que Deus atendeu mesmo ao seu pedido. Hoje, ele diz com alegria: “Da doença, graças a Deus, eu estou curado”.

Clique para ampliar

 

Confira também Os Caminhos do Câncer parte I 

Confira também Os Caminhos do Câncer parte III