Os caminhos do câncer – parte III

O que há por trás da Quimioterapia

Por Ângela Prestes, Camila Guedes e Clarissa Battistella

 Diferentemente do que muitos imaginam, salas de tratamento específicas para quimioterapia não são, necessariamente, um lugar triste, de atmosfera pesada. Ao menos na clínica localizada no edifício Colúmbia. Origamis e bolinhas de natal suspensas compõem o ambiente onde o paciente que está em tratamento passará algumas horas do dia recebendo medicamento. Isso porque estamos em período de festas natalinas. Assim, cada data comemorativa, uma nova decoração.

Essa foi a explicação recebida a respeito da sala de quimioterapia, um ambiente agradável de atmosfera leve e todo enfeitado por elas, enfermeiras. Nenhum paciente havia chegado ainda, mas logo estariam ali.

Enquanto os instrumentos são esterilizados – em uma máquina barulhenta – a enfermeira Josiane Tomé, que trabalha juntamente com a enfermeira Pâmela Mendes no Centro de Oncologia e Hematologia do Planalto, começa a explicar os procedimentos. Cada paciente tem o seu protocolo e, para cada câncer e estágio, uma quimioterapia específica.

Existem tratamentos rápidos com duração de duas horas; outros duram até seis horas. Ainda há tratamentos que podem levar de dois a quatro dias em casa, além do tempo passado naquela sala, como explica Josiane: “O câncer de pâncreas é o mais complicado. A quimio dura sete horas aqui e, depois disso, o paciente ainda sai com uma bolsa para continuar em casa”, diz pegando a bolsa e demonstrando o funcionamento. Nesse caso, os cuidados são redobrados.

Os medicamentos são preparados no momento em que o paciente chega à clínica, explica a farmacêutica Surieh Ferri. Quem está em tratamento geralmente sofre oscilações em relação à massa corporal – os medicamentos fazem, na maioria das vezes, que eles percam alguns quilos – e, por isso, a dosagem pode ser diferente.

A estabilidade do medicamento também conta na hora do preparo: ele tem um tempo determinado para ser aplicado, afinal, alguns protocolos não podem ficar mais que um dia em desuso. “Quem está em tratamento, às vezes, não se sente bem e não consegue vir no dia agendando. O atraso implica a estabilidade do medicamento”, justifica Surieh, que conhece a maioria deles pelas dosagens que manipula ou por telefone, já que o trabalho dela acontece em uma sala fechada e isolada do restante da clínica.

Não é por acaso que a sala é isolada. Nela, Surieh lida com dosagens fortes que podem contaminar a saúde de quem não está doente. Fica no andar superior, mas só pode ser vista pelo vidro da porta. Para entrar na sala, é preciso um macacão especial e um treinamento, que a repórter não tinha. Na salinha estão distribuídos lixos específicos para descarte correto, tubulação que filtra o ar, tanto para entrar, quanto para sair do ambiente.  Além dos cuidados físicos, a farmacêutica passa por exames periódicos, uma vez que sua vida também precisa de cuidados.

Perdendo o medo do desconhecido

A primeira pergunta é se os pacientes chegam ansiosos ou com medo do tratamento. Sim, eles têm medo do desconhecido. Não é do tratamento em si, que, apesar de implicar cuidados especiais, é fácil de se acostumar – quem diz isso são os pacientes, conformados – mas é o medo do que pode acontecer, se sentirão dor e como será a sua vida dali para frente.

A enfermeira, que não esconde o amor por suas atribuições e o empenho que dedica à profissão, instrui sobre o andamento: quando eles chegam para o primeiro ciclo, é explicado o passo a passo; nesse momento eles podem tirar as primeiras dúvidas, que serão respondidas sem receio. Em seguida, os sinais vitais são averiguados – batimentos cardíacos, pressão e temperatura – para, em seguida, se acomodarem em um dos acentos onde continuará o procedimento.

Nesse momento, uma paciente de 42 anos que luta contra o câncer de mama chegou à clínica, animada com seus familiares. A conversa foi interrompida, por pouco tempo. Já sentada ao lado da máquina que realiza a quimioterapia, a paciente sorri para os familiares. A troca de olhares revela a ansiedade e a expectativa da paciente para que o processo inicie logo.

O cateter, que estava posicionado um pouco acima do seio direito, foi limpo cuidadosamente pela profissional uma, duas e três vezes antes de pressionando para a introdução da agulha. A limpeza é essencial para evitar qualquer tipo de contaminação. Em seguida, momentos de tensão por quem assistia e um instante de dor para a paciente, como ela mesma descreve: “É um beliscãozinho, dá uma ardida, mas já passa”, comenta.

O processo não para por aí, pelo contrário, ainda é longo. A enfermeira, que já havia lavado as mãos incontáveis vezes, repete o comportamento – a assepsia ocorre antes e depois das aplicações do remédio. É hora de testar o fluxo e refluxo do cateter: se está entupido, se poderá vazar ou se está tudo bem. A enfermeira faz a punção com a agulha e soro fisiológico, para dentro e para fora. No primeiro momento, o soro entrou, em seguida o sangue saiu, estava tudo certo para continuar.

O método é igual para todos, mas o medicamento diverge. Antes das quimioterapias iniciarem, é aplicada uma quantidade de antialérgico, misturada com soro fisiológico. A quimioterapia tem disso, reações alérgicas aparecem durante e após a aplicação do medicamento. Segundo Josiane, os pacientes podem sentir dores fortes nas costas, no estômago e até nas articulações enquanto estão na clínica; podem sentir também frio intenso, rapidamente amenizado pelas mesmas enfermeiras. Nos dias que se seguem à quimioterapia, os pacientes podem ficar bastante cansados, com sonolência, ter náuseas e diarréia, nada de anormal para quem está em tratamento.

Quando o soro termina, o medicamento, preparado recentemente, começa a ser aplicado. A máquina é programada para que determinada quantidade entre no corpo conforme o tempo estipulado. Depois é só esperar.

A quimioterapia é um tratamento que utiliza substâncias químicas que afetam o funcionamento celular, isso porque o crescimento das células cancerosas é diferente do crescimento das células normais. As células cancerosas, ao invés de morrerem, continuam crescendo incontrolavelmente, formando outras novas células anormais. O câncer se caracteriza pela perda do controle da divisão celular e pela capacidade de invadir outras estruturas orgânicas.

A prescrição da quimioterapia, feita por um médico especialista, acontece quando o tumor atinge grandes dimensões, sendo recomendada como tratamento que antecede a cirurgia – momento em que o nódulo, o quadrante ou, até mesmo, o órgão inteiro será removido. Algumas vezes, junto da quimioterapia é recomendada a radioterapia, que age em local específico. Ambos os tratamentos podem diminuir o tamanho do câncer e até servirem como bloqueador, ou seja, deter o desenvolvimento dessas células, de forma a trazer uma sobrevida ao paciente – geralmente quando o câncer não pode ser removido.

Como é o caso de um senhor tranquilo e sorridente que chegou à sala como quem não quer nada, acomodou-se na poltrona e aguardou a sua vez para ser atendido. Seu tratamento é diferente: uma vez por mês ele vai até a clínica para receber a injeção, nem um pouco confortável, aparentemente, nas proximidades do umbigo. “Essa injeção introduz dentro do organismo uma cápsula que age como bloqueadora durante o mês inteiro. Claro, antes de receber a injeção, passa pelo mesmo processo de higienização e também aguarda a pomada anestésica fazer efeito”, explica Josiane. O que essas pessoas menos precisam no momento é sentir dor. Essa medicação traz como reação apenas ondas de calor, sintomas de menopausa.

A quimioterapia não atinge somente as células cancerosas, mas também as células boas, estas que nos dão disposição, que nos permitem caminhar ao sol, que nos deixam com vontade de comer determinado alimento. É por isso que, na grande maioria, as pessoas em tratamento perdem o apetite, ficam sonolentas e precisam evitar o sol.

Como explica o oncologista Dr. Pedro Braghini, “a quimioterapia tende a ser um tratamento cada vez menos usado. Ela não é um tratamento inteligente, porque ela afeta as células do câncer, mas afeta também todo o organismo. O futuro da oncologia é a biologia molecular e a prevenção também vai caminhar por isso aí”, diz.

Porém, apesar das limitações que vêm com a quimioterapia, muitas vezes vem também a cura do câncer. “As pessoas ainda acham que o câncer não tem cura, e isso não é verdade, ele tem. Esse tabu já está sendo quebrado”, conclui a enfermeira.

“Passamos a dar mais valor às coisas importantes e deixar outras de lado”

Com certo nervosismo, mas orgulhosa de sua força de vontade e da família que a ampara, Lisangel Pianezzola Campetti, a paciente de Lagoa Vermelha que chegou enquanto a conversa estava em andamento, não se importou em contar a sua história. Ela relata que há mais de um ano sentiu um caroço do seio, durante o banho, e agendou uma consulta com um oncologista de Carazinho. O médico realizou ultrassom e constatou, no momento, que era apenas uma glândula, orientando a paciente que ficasse tranquila. “Eu até pedi a mamografia, porque eu já fazia o exame de rotina e ele me informou que não seria necessário, pois, com o ultrassom, nós já tínhamos visto tudo”, acrescenta.

Com a avaliação do oncologista e da médica que realizou o exame de ultrassom, foram somadas duas constatações, suficientes para tranquilizar Lisangel. O ano foi passando e a paciente percebeu uma mudança no formato da mama, há quatro meses, quando voltou a se preocupar e a procurar outro médico. Dessa vez a pesquisa foi pela internet, conta olhando para a filha, Isadora, que acompanha o relato e confirma com um aceno de cabeça a história.

Os exames anteriores foram apresentados ao novo oncologista que verificou a anormalidade instantaneamente. Muitos exames foram realizados em um período muito curto: “No primeiro dia já fiz ultrassom e mamografia. No dia seguinte, já fiz a biopsia que constatou o tumor maligno na mama. Em 15 dias eu já estava com todos os exames prontos, de ressonância, cintilografia óssea, laboratoriais, enfim, todos os exames necessários”, conta.

Lisangel ainda acredita que houve erro médico na constatação, bem no início, e admite ter se assustado com o resultado e com as medidas tomadas rapidamente para iniciar o tratamento. “No início é um baque, tu perdes o chão”, desabafa e se emociona. Com os olhos cheios de lágrima, engole o choro. Dessa vez seus olhos não procuram os olhares da família, afinal, conter a emoção é mais difícil quando vê que os demais sofrem junto.

A mãe da paciente, que até então não havia tirado a atenção do crochê, transparecendo força, também desaba e não contém as lágrimas. A família tem muita fé, acredita em Deus: “A gente para e pensa que talvez eu precisasse passar por isso, ter essa lição e deixa de ver a vida de forma pequena. Para de dar atenção para coisinhas bobas, deixar de se estressar com qualquer coisa e dar valor para coisas maiores, para os amigos, para a família”, expõe.

Ela conta ainda que procura manter a vida que tinha, dentro de suas limitações, claro, mas ressalta que essa etapa tem mudado todos os planos familiares e profissionais, até mesmo da filha, que planejava estudar fora e agora optou por ficar ao lado da mãe. “O apoio é fundamental, principalmente da família”, afirma.

Quando começou a cair o cabelo, 14 dias após o início do tratamento – não são todos os tratamentos que têm como reação a perda de cabelo – Lisangel decidiu cortar. Outra mudança em sua vida, mas não passou por esse momento sozinha. “Fomos para o salão de beleza e fizemos um movimento para descontrair. Estavam minhas colegas, minha família, levaram salgadinho e me maquiaram. Sai pronta para a festa”, relata com um sorriso no rosto. Depois dos momentos de emoção, Lisangel conclui confiante: “A gente vai tirando de letra, logo opero, vamos ver.”

Enquanto Lisangel conta sobre a sua luta, o outro paciente, aquele senhor que faz apenas a injeção, admite com um sorriso travesso no rosto para a enfermeira que ainda não procurou o cardiologista, necessário para o momento e recomendado por elas. “A gente já encaminhou, mas é teimoso, fazer o quê?”, se conforma.

O câncer não escolhe suas vítimas. Não decide por idade, nome, sexo ou cultura. E quando chega, não atinge somente um, deixa marcas em dois, três, em famílias inteiras. Porém, é preciso lembrar que nem todos os casos terminam como o de Wagner, citado no início da reportagem, alguns, como o L.C.A., de alguma forma, têm uma segunda chance. A cura ainda é uma dúvida, mas lentamente estamos caminhando para a esperança.

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