Um novo olhar sobre a terra do tio Sam

Não é difícil encontrar referências da cultura americana espalhadas pelo mundo: fast foods, cinema, aparelhos eletrônicos. Muitos países adotaram algo parecido com o que julgam ser o modo de vida norte-americano, o que nem sempre corresponde ao real. Quem encara o desafio de visitar os Estados Unidos conta que a terra do tio Sam é bem diferente do que imaginamos. Nada de pessoas obesas e estudantes que vivem fazendo festa. Lá o estudo é coisa séria. Outro mito que se quebra logo na chegada é em relação à indiferença dos norte-americanos, que são descritos como gentis e simpáticos.

Quem embarcou nessa aventura e contou suas impressões foi o estudante de engenharia civil Leonardo dos Santos. Leonardo vai passar um ano na cidade de Amherst, Massachusetts, nos Estados Unidos, estudando através do programa Ciência Sem Fronteiras, um programa do governo brasileiro que concede bolsas de estudos para jovens brasileiros. Em uma entrevista direto dos “states”, o jovem conta como um pouco mais sobre o país e sobre como está sendo a experiência.

Como você tomou a decisão de fazer intercâmbio e por que os EUA?

Leonardo – Eu sempre senti vontade de fazer intercâmbio, conhecer novas culturas, lugares. Eu acho que o que mais me motivou é a minha vontade de enfrentar novos desafios e me adaptar. Durante uma conversa com um amigo, fiquei sabendo sobre o Ciência sem Fronteiras, isto foi no começo do mês de dezembro de 2011. Eu curso Engenharia Civil e sempre gostei da área de rodovias. Então, como eu já pesquisava sobre esse tema, decidi que nos Estados Unidos eu  teria muito que aprender.

Como foi o processo de preparação pra viagem? É muito difícil conseguir visto e os outros papéis?

Leonardo – Para concorrer a essa bolsa de estudos, muita coisa teve que ser feita e muitas horas de sono foram perdidas, pois o processo é longo! Para obter o visto, já sabendo que a bolsa de estudos está garantida, é mais fácil. Há documentos que comprovam que estou sendo financiado e que todas as despesas serão pagas; então, o processo no consulado é bem tranquilo.

Qual foi sua primeira impressão quando desembarcou lá?

Leonardo – Quando desembarquei em Chicago, foi o momento em que caiu a ficha: estou aqui! Eu já estava viajando há mais de 1 dia (Passo Fundo – Porto Alegre – São Paulo – Chicago – Nova York – Amherst), estava cansado e pouco tinha dormido. Todo o tempo de preparação, toda a festa de despedida com os amigos, os abraços da família e da namorada, agora tudo fazia sentido. Mas o que mais me deixou boquiaberto foram os preconceitos que eu quebrei logo de chegada: o povo norte-americano é muito gentil e prestativo. Acho que a visão que criamos sobre eles é falha em muitos pontos! Só estando aqui para ver como realmente é.

A visão que a gente tem dos americanos aqui no Brasil corresponde com a realidade?

Leonardo – Pelo menos aqui, na universidade, todos têm uma vida muito ativa, quase não se vê obeso, como temos esta imagem. Grande parte das pessoas corre, pedala, vai pra academia, pratica esporte; é muito interessante e sinto falta disso no Brasil. O campus é projetado para que todos possam ir a pé ou de bicicleta para a aula, mas também há transporte gratuito(muitas linhas). Então, aquela imagem do americano sedentário, gordo, pelo menos aqui não dá pra acreditar que é real. Daqui a duas semanas farei uma viagem e posso te contar se nos outros lugares também é assim! (risos)

E como eles veem os estrangeiros, existe mesmo um certo preconceito?

Leonardo – Eu não acho que exista preconceito contra estrangeiros;  aqui existe muito, muito, muito estrangeiro! Em geral, eu não vejo discriminação, muito pelo contrário, eles tentam te ajudar, pois sabem que você está num ambiente diferente e estranho a você. Logo que cheguei aqui, eu tinha pegado o ônibus pra cidade errada (comprei passagem para uma cidade anterior de onde eu deveria parar). Falei com o motorista e não dava tempo de trocar a passagem, ele me indicou o que fazer e me trouxe até o final da linha, que era mais próximo de onde eu deveria ficar. Desci do ônibus, eram 2h da madrugada (segundo dia de viagem já) e uma moça ofereceu para dividirmos o taxi até a minha cidade (entre gastar com hotel e conseguir chegar à cidade…, o que eu tinha a perder?). Chegando aqui, tudo estava fechado e então ela chamou o patrulhamento da faculdade, que chamou alguém que tinha as chaves do apartamento… Aí era só alegria! Durante uma aula de Fundações, o professor disse que os alunos deveriam aprender a língua portuguesa, pois o Brasil está crescendo muito, juntamente com a Índia.

O que de mais importante você está aprendendo nessa viagem?

Leonardo – Acho que não tem algo que eu estava aprendendo que seja mais importante que as outras coisas, tudo nesta experiência é importante!

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Como é a rotina aí? Como é a vida na universidade, é muito diferente o ensino e tudo mais?

Leonardo – A vida acadêmica e muito diferente! Aqui e impossível trabalhar 40 horas semanais e estudar, como muitas pessoas fazem no Brasil. A carga de trabalhos e grande, toma muito tempo durante a semana, sem contar que as aulas são em horários aleatórios, tem aulas das 8h até as 18h em qualquer horário; então, para ter uma rotina de trabalho com horários fixos fica bem difícil. Eu não acho que o sistema seja melhor nem pior, cada um tem suas vantagens.  Uma coisa legal e que aqui, com o tanto de trabalhos, você é obrigado a aprender por rotina. No Brasil muitas pessoas apenas estudam para a prova e esquecem logo em seguida. Mas também a parte ruim: quase ninguém tem experiência de trabalho na área, a maioria das pessoas tem apenas a experiência de trabalho de inverno/verão, quando trabalham durante as ferias.
O campus onde eu moro/estudo é bem estruturado, tem duas academias, muitos restaurantes, opções de lazer e palestras praticamente todos os dias, o diferencial e que a maioria das pessoas mora no campus, e isso faz você mais ativo na sua universidade. Quase todos os prédios são abertos 24 horas/dia e isso ajuda muito quando está precisando estudar(a biblioteca fica aberta 24 horas/dia durante a semana e fecha durante algumas horas no domingo).

E festas? Os americanos são como nós, que adoramos uma festa, ou são mais reservados?

Leonardo – Em questão de festas, pelo menos aqui na minha cidade, é muito diferente. Eles gostam de festas, sim, elas começam as 22h e tudo acaba a 1h ou 2h, ligam as luzes dos bares/boates e todos vão embora. Pelo menos assim, se você trabalha ou tem aulas, você estará inteiro no outro dia… (risos)

Você teve alguma dificuldade com idioma?

Leonardo – Quando eu cheguei aqui, eu achei que iria ser pior, as pessoas notam que você é de fora e falam mais calmo. Assistir ao noticiário nos primeiros dias foi difícil, mas dentro de duas semanas me acostumei.

Você vai ficar um ano, não é?

Leonardo – Vou ficar um ano sim, mas te confesso que 6 meses já era bom tamanho. Eu tinha uma expectativa muito maior, achava que era muito mais prático, mas você fica muito tempo em função de trabalhinhos, temas de casa e, além do mais,  não pode procurar algum estágio fora do tempo estipulado (férias de verão)… Nem tudo são flores…(risos)

Mas dá pra conhecer a cidade e viajar?

Leonardo – Viajar só em finais de semana com feriados, senão não vale a pena. E nas férias. Vou cruzar o país de carro com meus amigos começando semana que vem! (risos)

E o custo de vida é muito alto?

Leonardo – É caro. Comer é caro. Roupas, eletrônicos e afins não são tão caros, mas comer em restaurantes é fora de questão ( a não ser que queira comer Mc Donald’s todo dia e virar uma versão brasileira do filme Supersize me.

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A série sobre intercâmbio segue trazendo entrevistas com estudantes que colocaram o pé na estrada e foram conhecer o mundo.

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