Chimarrão passou a ser coisa de gaúcho

Historicamente o Rio Grande do Sul incorporou o hábito dos indígenas, e ficava atrás no ranking da produção de erva-mate, comparado ao Paraná. Dados da última safra registram o dobro de diferença na produtividade em praticamente a mesma área plantada, fazendo o estado gaúcho superar o paranaense

O período é de entressafra de forma geral, mas, sob um manejo adequado, pode ser extraída durante todo o ano; isso garante a cor e as características que o mercado interno do chá tostado exige. No Rio Grande do Sul a poda de ervais acontece principalmente entre os meses em que as invernias começam a cessar, até o final da primavera; a planta que foi mantida em 20 a 30% e se regenerou durante seis meses a dois anos tem então galhos e folhas cortados para a produção da erva, não se abalando com as baixas temperaturas. Rústica com o clima e culturalmente concebida como forte, de gosto e simbologia, a Ilex Paraguariensis, espécie mais conhecida da planta, é nativa de clima mais frios e produzida desde uma pequena parte no sul do estado do Mato Grosso do Sul até a região central do Rio Grande Sul, ainda, até o norte da Argentina, rareando no Paraguai e Uruguai, segundo dados da Emater Floresta, responsável pela pesquisa de arbóreas, estabelecida estrategicamente no estado do Paraná.

A afinidade entre pesquisa e produto não é à toa. Historicamente o estado paranaense manteve a erva-mate como principal gerador de divisas da metade do século XVI até 1632 na então Província Del Guairá. Este território abrangia praticamente quase todo o Paraná, segundo dados do Parque Histórico do Mate, e guaranis da região faziam o uso do chimarrão como se conhece hoje em aparatos rudimentares, história contada através do livro “A História do Chimarrão”, do gaúcho Barbosa Lessa. Erva que sustentou a base de uma economia e que caracteriza uma bandeira, em conjunto com outro símbolo forte do estado, a araucária. Foi lá que houve o primeiro processo de industrialização e coleta do exemplar em Curitiba (pertencente ainda a São Paulo) pelo botânico francês Augusto de Saint-Hilaire em 1822, após, a publicação do nome científico em 1825 da conhecida erva do Paraguai; naturalmente o estado conservava a maior produção de erva-mate até pouco tempo. Segundo dados de 2010 do IBGE, apresentados no Mercomate, espécie de fórum itinerante do Mercosul que reúne representantes do setor ervateiro de países produtores, a produção em toneladas de erva- mate preparada no Paraná superava em quatro vezes a produção de 24.764 toneladas do Rio Grande do Sul; a vizinha Santa Catarina também estava à frente de nós, gaúchos.

Hoje os dados gaúchos de produção aumentaram. Das 425.641 toneladas produzidas nos estados sulistas, 43,6%, são provenientes dos cinco polos de erva-mate do Rio Grande do Sul, seguidos dos 43,3% provenientes do estado do Paraná, 12,7% de Santa Catarina e 0,4% do Mato Grosso do Sul, segundo o engenheiro-agrônomo da Emater, Ilvandro Barreto Melo.

O chimarrão era dos vizinhos, mas continua sendo dos hermanos. Se comparadas à produção dos estados brasileiros, Argentina e Paraguai dominam em mais da metade o mercado da erva-mate processada e consumida e também em área plantada, inclusive exportando para o Brasil.

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Entrevista

Atualmente 33 mil toneladas de erva-mate saem do Brasil para o mundo, quase 17 mil são daqui, contabilizado em média 60% do produto exportado. Ex-gerente de projetos da Associação Brasileira de Erva-Mate (Abimate) e hoje trade de uma ervateira em Cascavel/PR, Heroldo Secco Júnior acompanhou de perto as inovações do produto e a conquista do mercado exterior pela erva-mate.

Erval nativo, cultivado no meio da vegetação típica da região sul. O sombreamento garante a alta produtividade da erva-mate

Nexjor: Como foi a experiência de montar uma associação que organiza a exportação de erva-mate?

Secco:  Excelente. Com a criação primeiro da Apimate (Associação das empresas do interior do Paraná) e posteriormente da Abimate, foi possível a realização de inúmeras ações no exterior e no Brasil para divulgar as propriedades da erva-mate e também diferenciá-la do principal concorrente, a Argentina. Com este projeto, inúmeras empresas dos três estados do Sul profissionalizaram alguns setores internos para alcançar as exigências do mercado internacional e com isto melhoraram a atuação no mercado interno, desenvolveram embalagens melhores e implantaram melhorias nas gestões comerciais e de marketing.

Nexjor: Qual é a demanda e o destino do produto produzido no Paraná e de onde vem a matéria-prima?

Secco: Os destinos são Europa (Alemanha/França, principalmente), USA e Japão, além do Chile e Uruguai. Utilizamos matéria-prima de produtores de pequeno e médio porte, do Paraná ao Rio Grande do Sul; locais de regiões mais elevadas e clima frio. Há produção em locais mais baixos e plenos de sol, mas a qualidade é inferior para outros fins que não o chimarrão.

Nexjor: Com que possibilidades da erva-mate vocês trabalham? E quais os potenciais do produto?

Secco: A erva-mate era conhecida no Brasil apenas na versão chimarrão e no exterior basicamente a amarela, de origem Argentina. Com a realização de simpósios, ações de marketing em feiras e revistas de alcance mundial, foi possível mostrar ao mercado processador e consumidor que a erva-mate é superior ao chá de origem asiática, podendo ser consumida como chá (em saquinhos), infusão granel, para obtenção de extratos e conservantes naturais para refrigerantes. Suas propriedades cosméticas já se encontram em inúmeros produtos de renomadas marcas e até mesmo como saborizante em arroz, macarrão e sorvetes na Coreia. Recentemente refrigerante à base de erva-mate foi lançado no Japão, com grande sucesso.

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Novidade

Está em fase de aprovação o estatuto que oficializa o Instituto Brasileiro do Mate, o Ibramate. O instituto será estabelecido em Ilópolis/RS, um dos cinco polos gaúchos de erva-mate. Os outros congregados ficam em Palmeira das Missões, Machadinho, Erechim e Venâncio Aires.

Segundo dados da Abimate, o mercado de exportações brasileiras da erva-mate registrou crescimento de 180% nos últimos cinco anos