Coluna Prestes: o avesso da lenda

Dois anos, três meses e seis dias. Tempo digno de respeito em se tratando de uma revolução. Esse foi o tempo que 1.500 homens, liderados por Luiz Carlos Prestes, levaram para percorrer o Brasil, carregando uma utopia: a bandeira da liberdade. Construída pelos próprios revolucionários, ao longo de 70 anos, se não é desmentida, ao menos a história é contraposta por Eliane Brum, jornalista autora do livro: Coluna Prestes: o avesso da lenda, que percorreu os 25 mil quilômetros da Coluna Prestes arrecadando depoimentos de quem vivenciou os tempos da rebeldia desse grupo.

Assim como acontece com muitos repórteres ao explorar uma pauta, Brum deparou-se com uma história diferente do que esperava. Os relatos, um por um, foram desmitificando a lenda da Coluna Prestes e, ao invés de narrações de coragem e honra, revelam um mundo miserável de invasões, abusos e mortes. Hermogêneo Dias Messa, de Santo Ângelo, combatente das forças revoltosas de Prestes, que seguiu por 15 estados do país, fuzilando friamente quem tentasse impedir a caminhada, foi quem anunciou: “Eu só vou lhe dizer que se tivesse uma toca, eu enfiava a minha mulher e todas as minhas filhas dentro e ficava só com a cabecinha de fora. E aí terminava pra mim a Coluna Prestes”.

A autora do polêmico livro-reportagem trouxe para o cenário da imprensa brasileira algumas facetas ainda não conhecidas – afinal, se o contador da história for o próprio protagonista, ela costuma ser parcial. Com a narrativa da Coluna não seria diferente: fala quem tem boca, mas, nesse caso, não basta ter boca, é preciso ser encontrado. E, até então, os encontrados da narrativa eram os guerreiros revoltosos, não os pobres miseráveis, moradores de algum canto perdido do país.

Em Coluna Prestes: o avesso da lenda, Brum insere o leitor na guerrilha – essa sim a verdadeira protagonista – , e faz com que sintamos a miséria e a dor que ficaram para trás. Nada mais óbvio, em se tratando de rebeldes, porém inesperado, por saber que os mesmos rebeldes esperavam apoio dos moradores. Quem espera por algum apoio, afinal, não destrói física e moralmente o apoiador. “Do outro lado da Bahia, mantinham a eterna esperança de obter apoio e armas para realizar o, a estas alturas embolorado, sonho de marchar sobre o Rio de Janeiro”.

Esse é o momento em que o leitor questiona a inteligência do líder do grupo: Prestes. Tão esperto em suas táticas de ataque, mais esperto em se tratando da fuga, que, por mais de uma vez, se configurou impossível – frisado pela autora no livro – porém, não se dando conta de que, com os ataques, o apoio se tornaria inviável. Dessa vez Brum não se posiciona. Apenas narra e insere os depoimentos. A guerrilha que foi formatada com o pretexto de derrubar o governante, dessa vez, trouxe os dois lados, ou mais que dois: o de Prestes e sua alusão ao heroísmo, o de registros guardados por familiares de militares, que perseguiram, incansavelmente, o inimigo, e o dos moradores que, se não bastassem as necessidades que já passavam, sentiram, naquela época, o medo.

De forma a aproximar ainda mais o leitor da tropa de revoltosos, a  maioria gaúchos, e tornar a história mais fidedigna, Brum narra o enredo com uma linguagem gaudéria, mas, quando chega ao sertão, é a linguagem de lá que se encontra. Diante das informações adquiridas, adjetiva os locais e tanto as pessoas que encontrou, como as que não encontrou, mas que conheceu depois das leituras e histórias que lhe foram contadas.

Essa leitura nos transporta para 70 anos do passado, inserindo-nos nas fazendas e cidades da época, de forma a compreender a miséria que já existia. Ao mesmo tempo, são descritos os dias atuais, deixando claro que, apesar de muitos anos se passarem, a miséria perdurou e irá perdurar em boa parte do sertão. Tanto é verdade que, apesar de existir circulação de jornais e até mesmo sinal de rádio, muitos desconhecem o que foi, e que já se foi a época dos revoltosos, por aqueles arredores: “Eu não sei o que era porque eu não compreendia e até hoje não compreendo por que foi essa revolta”, diz Manoel Lopes, 90 anos, morador de Rio de Contas.

Eliane Brum é perita em inserir o leitor na história e fazer com que ele se sinta parte do livro. Com sua sensibilidade nas descrições escreveu outras duas obras: A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago, 2006) e O Olho da Rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real (Editora Globo, 2008). Acreditando que nenhuma matéria vale mais que uma vida, deixa transparecer durante sua narração que uma ideologia não vale mais que uma vida, principalmente quando essa ideologia torna as próprias vítimas, inocentes. Ao invés de um final feliz, o que se encontra na obra é uma irreversível carnificina, que, depois de publicada, não se apagará com tempo.