Cultura, tradição e arte

Muitas pessoas, quando ouvem falar em intercâmbio, pensam em países europeus ou da América do Norte. Mas os países vizinhos, como a Argentina, também têm muito a ensinar. O gosto pela arte é um exemplo. Com uma grande diversidade de programas culturais, que incluem passeios, bibliotecas, cafés, conversas na praça regadas a mate – tudo isso com incentivo do governo – o país pode se tornar um encantador destino para intercambistas.

Nathielli Zart, estudante de relações internacionais de Santa Maria (que antes disso viajou para o México) também passou um tempo convivendo com os hermanos, respirando cultura. A estudante contou que a experiência foi intensa e que, apesar das semelhanças com o Brasil, a Argentina tem muito a ensinar.

Assim como para o México, o que te motivou a passar um tempo na Argentina?

Quando voltei do México, comecei a trabalhar na Aiesec, organização que gera intercâmbios sociais e corporativos. Quando vi a experiência de intercambistas que vinham a Santa Maria e mudavam a realidade de várias entidades de forma positiva através do trabalho voluntário, me inspirei a fazer o mesmo por outra comunidade fora do Brasil.
Muitos perguntam “tá, mas porque fora”?
Eu escolhi fazer um trabalho voluntário fora primeiramente porque lá eu estaria mais sob pressão, com meus medos à flor da pele, com desafios diários a serem enfrentados, e nesse ambiente acreditava que poderia desenvolver um trabalho muito melhor e mais impactante.
Escolhi a Argentina como destino, pois, no momento, eu não tinha muitos recursos financeiros para arcar com as passagens para um destino mais longo. Além disso, esse país sempre me atraiu muito, pela cultura mais ativa politicamente, pela história, principalmente que envolve o Brasil, e também porque lá eu encontrei uma vaga para trabalhar com algo relacionado ao meu curso, que é Relações Internacionais. Meu trabalho foi organizar uma simulação da ONU com estudantes de9 a11 anos, ensinando história, política e economia e atualidades gerais sobre assuntos globais.

Qual foi a primeira impressão que você teve do país?

Eu fiquei na cidade de Córdoba, uma cidade universitária; então, não tive muitos choques culturais, praticamente nenhum. A primeira impressão que tive foi de ser um país receptivo também, um tanto parecido com o Brasil (o RS mais precisamente) pelas culturas do mate, por ter um clima frio também, etc.

A cultura deles é mesmo parecida com a nossa ou chegando lá é diferente?

A questão da cultura é algo engraçado, pois, mesmo lá no país, elas divergem. Córdoba é uma cidade totalmente diferente de Buenos Aires, por exemplo. Mas, me baseando por Córdoba mesmo, acredito que a cultura não é tão diferente não. O que percebi é que lá eles são mais concentrados e preocupados com o futuro profissional, tem um pouco mais de foco no que decidir para a carreira, parecem mais orientados quanto a isso.
Acredito que seja pela questão familiar, as famílias argentinas normalmente são bem tradicionais e unidas. Acredito que esse apoio e abertura influencie bastante no crescimento do indivíduo. Outro papel fundamental é exercido pela formação educacional e política. Lá as pessoas são estimuladas a estudar, a conhecer e serem mais cultas, acredito que isso é algo forte também entre os argentinos. Várias vezes fazíamos reuniões em padarias, bibliotecas, onde era comum encontrar esses ambientes cheios de outras pessoas fazendo o mesmo.

A rivalidade entre Brasil e Argentina é recíproca ou só coisa da cabeça de alguns brasileiros?

Em minha opinião ela não existe fora do futebol. Sem dúvidas, no futebol isso é verdade, mas permeando outros assuntos ela é praticamente inexistente (não afirmo com total certeza, pois não presenciei, mas talvez haja né, sei lá).
Eu senti que era ao contrário, muitos argentinos levam o Brasil como exemplo em vários aspectos como economia e políticas públicas. Contudo, eles criticam algumas atitudes sim, como qualquer outro país. Um exemplo é a educação (a questão da taxa de anafalbetismo brasileira e também a educação fundamental).

E a rotina? Custo de vida, culinária…

Lá eu trabalhava durante a manhã e parte da tarde, então utilizava o restante da tarde para fazer passeios, conhecer pessoas, etc. Como fiquei apenas seis semanas, tentei aproveitar ao máximo, então nunca ficava parada em casa.
O custo de vida também se equipara ao Brasil. Córdoba é uma cidade um pouco maior, então algumas coisas eram mais caras, como transporte e comida, mas esses custos eram compensados pelo baixo investimento que tinha em passeios e acesso a teatros, museus, etc. (lá eles têm desconto para estudantes e em algumas ocasiões fazem programações especiais grátis).
A culinária argentina tem muitos pratos com pães, arroz, carnes e massas. É uma culinária um tanto parecida com a do sul do Brasil, por ser uma região também de clima subtropical.
O que gostei mais de lá foram das empanadas e das tortas salgadas (que eram de verdura, carne de gado, frango ou peixe). Na casa onde eu morava, com duas meninas argentinas, costumávamos cozinhar sempre, então deu para aprender a fazer algumas especiarias.

 

Nessa viagem aprendi que horas podem virar dias, dias podem virar semanas e semanas, meses.

 

Deu para aprender a dançar tango?

Pior que não. Eu fiquei bem pouco tempo, deu pra frequentar algumas aulas na academia, só para não perder o ritmo, mas o tango eu não aprendi.

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A capital é conhecida por seus inúmeros passeios culturais, museus, teatros, o resto do país também é assim? Como é o incentivo cultural por lá?

Sim, sem dúvidas. A Argentina é reconhecida mundialmente por Buenos Aires, mas essa cultura (de passeios, livrarias, bibliotecas, cafés e teatros) também se estende ao restante do país, pelo menos nas regiões que eu frequentei.
Existe um incentivo, pelo governo, mas também pela própria comunidade, pois eles têm certo orgulho de sua história, suas cidades e cultura.
Em Córdoba era comum as pessoas irem a um parque, sentar e ler um livro, ou apenas ir com um grupo de amigos para tomar mate. Mas a sociabilidade é uma questão bem importante lá, o ciclo de amigos, o sucesso na carreira (independentemente de qual seja).

Como foi a experiência? O que você aprendeu com os vizinhos argentinos?

Foi uma experiência muito intensa. Antes de ir, não imaginava o quanto seis semanas apenas poderiam fazer de diferença na minha vida e no meu aprendizado.
Depois de coordenar um projeto com mais 4 intercambistas (um peruano, uma venezuelana, uma brasileira e uma filipina), ver que o resultado foi um sucesso para a escola e uma satisfação para os alunos, vi que, se temos um sonho e acreditamos nele, precisamos dar aquele passo a mais, que é ter a atitude de fazer acontecer. Nessa viagem aprendi que horas podem virar dias, dias podem virar semanas e semanas, meses. Realmente senti que esse tempo passou rápido, mas que as experiências adquiridas são marcas que vão ficar pra sempre.

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