Aprendendo a trotar

O trote é uma tradição universitária muito antiga, aplicada aos calouros como rito de passagem. Quem ensina? Os veteranos. Como ensinam? Com brincadeiras, maneiradas, para não prejudicar os estudantes, física e psicologicamente

Que tal aprender a trotar? Mesmo que de forma inconsciente, essa é a mensagem que os veteranos passam aos seus bixos no momento, ao mesmo tempo preocupante e satisfatório, conhecido como trote. As sensações no primeiro dia de aula acadêmica oscilam entre expectativa, ansiedade e uma pitada de medo do desconhecido, já que o que está por vir é atípico para esses jovens, que, há pouco tempo, traçaram um objetivo, prestes a se materializar.
Sem conhecidos, referências e com uma nova trajetória para seguir, os novos alunos são recebidos por veteranos, que, com dicas, piadas e até mesmo sarcasmo, orientam sobre a vida acadêmica – que é a finalidade do trote: ensinar os alunos a trotar em direção a um novo universo. A presença dos antigos acadêmicos na sala dos calouros funciona como um veredito: preparem-se! Afinal, são eles quem organizam o tão esperado rito de passagem dos calouros, que os determinará, finalmente, como acadêmicos.
A controversa tradição medieval, no sentido temporal da palavra, de aplicar o trote, é uma forma de inserir os calouros na nova fase – que os antropólogos costumam chamar de rito de passagem. Conforme o autor, Antonio Zuin, do livro O Trote na Universidade: Passagens de um Rito de Iniciação, durante a Idade Média era comum que os calouros raspassem a cabeça e tivessem todas suas roupas queimadas, afinal, eram necessárias medidas contra a propagação de doenças. Até pouco tempo, esse trote era aplicado em universidades brasileiras, mas deixou de ser praticado, já que antes valiam como uma forma de evitar a propagação de doenças, hoje obsoletas.
Ainda de acordo com Zuin, os novatos dos cursos das primeiras universidades europeias não podiam frequentar as mesmas salas que os veteranos; portanto, assistiam às aulas nos “vestíbulos” – local onde eram guardadas as vestimentas dos alunos.
Porém, mais intrigante do que a heterogenia entre os alunos é a gênese do termo “trote”: uma alusão à forma pela qual os cavalos se movimentam entre a marcha lenta e o galope.
Para o educador e autor, a aplicação da palavra “trotar” no meio universitário tem uma significado claramente negativo. “A palavra deixa claro que o calouro deve ser ‘domesticado’ pelo veterano, por meio de práticas vexatórias e dolorosas, que têm a função de esclarecer quais são as características das respectivas identidades”, pontua.

Aplicando o trote

_DSC0022Durante os primeiros dias de aula, é comum ouvir apitos, gritos e canções. Também é comum ver caras pintadas, cabelos desajeitados e roupas sujas. Por vezes, até mesmo o cheiro do ambiente é diferente – inclusive, enjoativo. Não poderia ser diferente, já que são nesses dias que os alunos mais antigos aplicam os trotes com tinta, perfumes e canções.
Normalmente a prática acontece dentro das universidades, mas isso não é regra, afinal, quem escolhe o tipo de trote e local são os veteranos. Nada impede, também, que os alunos, durante o trote, saiam das salas para um passeio, uma maneira de mostrar que estão passando pelo ritual. É o caso do trote aplicado à turma de jornalismo/2013 da Universidade de Passo Fundo, o qual iniciou dentro da sala de aula e terminou com um passeio, pelo campus pedindo esmola.
Segundo a veterana Eduarda Ricci, de 18 anos, as ideias surgiram em cima da hora, mas o trote foi aplicado durante a semana inteira. Primeiramente, um questionário com perguntas aleatórias foi passado para os calouros. No segundo momento, perguntas e respostas verbais ocorreram e, por fim, a turma recebeu placas, foi pintada e dançou. “Baseado nas respostas deles, escrevemos as plaquinhas e encontramos as músicas. Chamamos um de cada vez e lemos as respostas, que costumam deixá-los eles envergonhados”, diz Eduarda.

Conforme outra veterana, Lauren Portella, 19 anos, os bixos pagam o jantar para os alunos mais antigos e o dinheiro é adquirido durante o trote. “Eles vão sair descalços pela UPF pedindo esmolas; só quando juntarem um valor definido, recuperarão os sapatos”, afirma. O aluno de jornalismo que passou pelo trote, Cristiano Biachini, de 17 anos, diz não gostar dessa prática, mas sentiu-se ansioso à espera do grande dia. “Eu ‘tava’ na expectativa do que iria acontecer, foi divertido, ao contrário do que eu pensava”, esclarece.
Já o curso de Medicina da UPF preparou um trote com duração de 15 dias. Os novatos também receberam plaquinhas, com alguma definição específica e adereços, um tanto peculiaes. Capas de chuva plásticas, bolas plásticas grandes e toucas de higiene fazem parte do dia-a-dia dos calouros, que são vistos circulando pelas ruas da cidade, a caráter, durante o tempo estipulado.
Os novatos do curso de Fisioterapia/2013 da Universidade de Passo Fundo encaram 20 dias com novos acessórios enquanto estão na instituição. Segundo o bixo de fisioterapia, Marcelo Pelicioli, uma boia foi pendurada no pescoço dele e de seus colegas e deve permanecer enquanto estudam, fazem o intervalo ou praticam outra atividade. Além disso, os veteranos prepararam uma capa para o facebook com a frase “amamos nossos veteranos”. Caso os calouros não cumpram o que foi estabelecido, devem pagar multa e os valores são convertidos para o tradicional jantar de início de semestre.
“Acho bem divertido o trote, claro que nem todos concordam, mas é uma maneira de interagir com nossos veteranos”, opina contrapondo a visão de Zuin.

Pânico

_DSC0039Houve uma época em que os trotes não eram educativos, tampouco divertidos. A violência, durante a atividade, repercutia nos primeiros dias de aula dos anos 1980 até 1999, durante a atividade. Quem não obedecesse era submetido à pancadaria ou repressão. Casos de morte ocorreram durante esse período, como o de 1980, quando Carlos Alberto de Souza da Universidade de Mogi das Cruzes, São Paulo, se recusou a praticar o que foi ordenado e apanhou até morrer.
Casos do mesmo gênero continuaram acontecendo, até que, em 1992 alunos passaram a ser expulsos da faculdade, comissões foram organizadas para banir trotes violentos e, até mesmo, as práticas foram proibidas em instituições. Mesmo assim, os trotes continuaram junto com a violência, até o limite, em 1999, quando um calouro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Edison Hsueh, foi encontrado morto na piscina da associação atlética dos alunos.
Posteriormente ao ocorrido, a Justiça tomou providências e as universidades estabeleceram novas normas.

Solidariedade

Em 2000, após muitos trotes terminarem em tragédia, foram criados os trotes solidário e educativo, como proposta para que a tradição continuasse a existir e os alunos continuassem vivos e saudáveis – física e psicologicamente. Em algumas universidades, os calouros devem palestrar sobre um tema, escolhido pelos veteranos. Outras aderem a doações de sangue ou arrecadações de alimentos e roupas.
Uma nova ideia – recém saída do forno –, é o trote ecológico, no qual, os novatos devem plantar árvores em

DSCF7175espaços reservados para elas e participar de campanhas de preservação do meio ambiente. Trabalhar em comunidades carentes durante um dia determinado pelos alunos mais velhos, visitar hospitais, asilos ou creches também são formas de trotar. Dessa forma, os alunos não deixam o rito de lado e colaboram social, educativo e ecologicamente com a sociedade.

A maioria das instituições assume a postura oficial referente aos trotes: não interferir nas relações entre calouros e veteranos, desde que não haja violência. O que resta para os novatos, portanto, é encarar como uma brincadeira e manter o espírito esportivo, já que não há escapatória.