Enquanto o trono de Pedro estiver vazio

Caroline Domingos

A renúncia do papa repercutiu no mundo inteiro e, hoje, começa o conclave, um dos ritos mais importantes da religião católica. O trono de Pedro, ou o cargo de papa, aguarda um substituto.

A decisão foi inesperada não só para os católicos, mas a renúncia do papa Bento XVI, ocorrida no dia 28 de fevereiro, despertou a imprensa do mundo. O ato de Bento XVI não era esperado ou conhecido sequer pelos cardeais mais próximo e foi justificado pela incapacidade de continuar liderando a Igreja católica em razão da idade avançada e dos seus problemas de saúde.

O conclave que começa hoje, dia 12 de março e é um dos ritos mais importantes da religião e muitos fiéis esperam pela fumaça branca que saíra da chaminé, mas, entre uma renúncia e o “Habemus Papam”, muitos questionaram os motivos da saída de Bento XVI, agora, um papa emérito.

Quando o assunto é religião, há quem pense que seja uma questão de escolha, outros dizem que é uma imposição. Para Davi Rodrigues da Silva, a vida na Igreja começou antes dele nascer, como ele gosta de contar sua trajetória. O jovem de 21 anos começou  a envolver-se há quatro anos nas atividades dos grupos de jovens na comunidade de Nossa Senhora do Horto, na Vila Jardim. Hoje, ele é o secretário diocesano da Pastoral da Juventude e contou que recebeu a notícia sobre da renúncia do papa com surpresa. “O interessante é que eu fiquei sabendo da renúncia do papa por uma mensagem de celular, mas um amigo meu mandou uma mensagem dizendo ‘você viu que o papa renunciou?’ aí eu disse ‘será que morreu? O que será que aconteceu?’, mas como uma questão de curiosidade. Liguei a TV e entendi um pouco do que estava acontecendo”, contou Davi.

Caroline Domingos

“Para mim, a atitude de Bento XVI foi um exemplo de alguém corajoso que soube servir e teve uma humildade extrema.” Padre Ladir Casagrande, coordenador de pastoral da arquidiocese de Passo Fundo.

Ladir Casagrande acompanhou muitas mudanças na Igreja durante os 25 anos dedicados ao sacerdócio, mas nunca uma renúncia papal. “Faz parte da história, esse não é um caso único. Já tivemos casos em que um papa renunciou, mas a renúncia de Bento XVI não estava sendo esperada por ninguém. Isso gerou uma certa apreeensão, gerou uma dúvida, o que isso significa e pode implicar.”. Para o padre, o processo de renúncia o resultado de muita reflexão e conduzido de forma tranquila, sem grandes problemas. “Para mim, a atitude de Bento XVI foi um exemplo de alguém corajoso que soube servir e teve uma humildade extrema. Ele mesmo disse quando renunciou que seria como um peregrino. De fato,  isso abre portas para possibilidades  muito grandes dentro da própria Igreja de revermos muita coisa para nos adequarmos aos tempos atuais(…) Com certeza é um marco na história da Igreja nos últimos 600 anos e acredito que será como um divisor de águas: o antes e depois de Bento XVI. E, queria ou não, trouxe à tona  muitos problemas dentro da Igreja, como outras instituições e famílias, porque a igreja católica também é feita de seres humanos. Trouxe à tona o rosto humano da igreja”.

Davi acompanhou a repercussão do ato e das notícias que voltaram a circular na imprensa mundial, como o escândalo VatiLeaks. Bento XVI deixou o cargo de papa com um relatório secreto sobre o vazamento de documentos no Vaticano. O secretário da Pastoral da Juventude acredita que o foco dos fiéis precisa ser mantido no exemplo de Cristo, não do homem, que está suscetível ao erro. “Milhares de especulações dessa saída, que talvez não tenha sido só por isso, e outras questões tenham provocado, estão aí na mídia. Eu não tenho condições de dizer o que de fato motivou, mas por outro lado, penso que os católicos e o clero são pessoas, são humanos. Acho que precisamos ter essa dimensão para não cair em um moralismo, acho que não é por aí, porque todos somos humanos e estamos propensos a erros e pecado. Acho que isso tem que estar presente, porque a Igreja é santa, mas é também pecadora”.

“Essa questão toda de vazamento de documentos. Qualquer instituição tem documentos mais reservados, que são coisas mais internas e até mesmo para ter um pouco mais de controle e organização. Não sei até que ponto tudo isso que a imprensa explora e gosta de explorar, acho que pode ter contribuído, sim. Talvez tenha contribuído, mas o que ele disse não foi isso. Ele (o papa) disse que as forças dele estavam se esgotando. O papa colocou com toda clareza o motivo que o fez abandonar o cargo.

Criticado pela imprensa, pressionado sob acusações de acobertar as denúncias de pedofilia, Bento XVI teve uma passagem curta e intensa. Para o padre Ladir, bento XvI não acobertou fatos, mas agiu como um pai: “É muito difícil. Acho que qualquer pai diante de uma denúncia de seu filho, não o expulsaria de casa, não iria bater no seu filho. Iria tentar entender o que está acontecendo, tentar orientar, ajudar e corrigir. Acho que o papa nesse sentido foi um pai, porque papa quer dizer pai com relação aos padres que, por ventura, tenham tido esse tipo de problema. Mas, às vezes, se generaliza.”. Sobre as denúncias de pedofilia na Igreja, Ladir afirma que o papa soube orientar bem: “Não acho que o papa tenha acobertado, pelo contrário, ele foi muito prudente em entender e orientar os bispos responsáveis pelas dioceses que tiverem esses casos, para que pudessem fazer todo um trabalho de esclarecimento para descobrir a verdade. Porque por trás tem interesses, tem interesse de pessoas que querem ganhar dinheiro em cima disso, tirar vantagem. Sem dúvida, essas acusações são infundadas. Porque, pelo que a gente conhece de Bento XVI, sabemos o rigor que ele tem, ele não teria feito isso.”

Questionado sobre as questões que ainda precisam ser estudadas, padre Ladir falou sobre a ordenação de mulheres, estrutura e organização da Igreja: “Sobre a ordenação de mulheres. Mulheres poderiam assumir o sacerdócio, e por que não? Talvez tenha chegado a hora, é uma possibilidade, uma questão que se discute há muito tempo, assim como a Igreja ser mais missionária, não estar tão atrelada a estruturas pesadas que desgastam as forças e energias de tantas pessoas, para ser uma igreja mais livre e ligada à realidade da comunidade. São questões que a gente acha que ajudariam a Igreja a ser mais coerente”.

Um dos candidatos a papa é Dom Odilo Scherer. O padre Alcides Guareschi, 82 anos, é ex-reitor da Universidade de Passo Fundo e começou um trabalho de pesquisa nos arquivos da instituição para relembrar o passado do cardeal, enquanto ainda era um estudante.