Eureka, de novo: Uma outra roupagem

*A partir de hoje você confere, aqui no portal, uma nova série. Chamada Eureka, de novo!, ela vai trazer o mundo das reinvenções das histórias. De contos de fadas à vampiros, todos renasceram e assumiram uma nova identidade.

Era uma vez…

Clássicos inflexíveis. Heróis, vilões e um final previsível. A princesa, presa na torre, aguarda ansiosa a chegada de um príncipe que, montado em seu cavalo branco, derrota bruxas, madrastas ou rainhas más para, enfim, chegar ao altar e conquistar um “felizes para sempre”em poucas páginas. Um vampiro assassino, sem sentimentos ou qualquer resquício de humanidade. Um deus acima do bem e do mal e distante do homem.

Esse cenário, era uma vez. O que se vê, hoje, por todos os lados – das páginas dos livros aos intervalos das séries na TV – são personagens reinventados que assumiram uma nova identidade, ainda que a sua essência permaneça a mesma.

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Rapunzel é um exemplo clássico de transformação. Antes, presa em sua torre, apenas esperava a vinda do príncipe. Na sua última versão, no filme Enrolados, é uma princesa muito mais decidida e impulsiva.

Essa mudança se deve ao ser humano, que assume características diferentes para cada época em que está inserido. Doutor em Filosofia e professor da Universidade, Francisco Fianco destaca que há necessidade de mudança e que esta é evidente: “Os personagens da literatura são mais vivos do que os da história. Estão sempre sendo reinventados, pois, ao fazerem parte de um sistema mitológico, participam de um esquema simbólico aberto e mutável, que acompanha as transformações da psique humana conforme suas necessidades”.

Essas necessidades caminham juntamente com a transformação social e, justamente por isso, o produto consumido pelo homem – seja ele de ordem intelectual ou não -, se quiser sobreviver, deve adaptar-se. “Estamos, inegavelmente, vivendo uma época de transformação, uma transição social e psicológica que alcança todos os aspectos da existência humana. E isso se reflete, obviamente, na criação literária”, explica Fianco.

Eládio Weschenfelder, mestre em Literatura, concorda. Para ele, há pelo menos duas razões para que as transformações nos clássicos aconteçam. A primeira atinge a ideologia. “Se busca o ‘politicamente correto’, simplesmente. Devido ao caráter marcadamente negativo dos textos tradicionais – já que estes apresentam personagens repletos de vícios e maldades – alguns autores da modernidade buscam inverter o caráter e a conduta dos personagens antagônicas”, explica Weschenfelder, que continua destacando que são os vilões que sofrem as principais mudanças: “Textos com personagens antigos tomados de vícios e maldades, agora, se apresentam com nova face, nova roupagem, repletas de virtualidades”, conclui.

A outra razão, segundo Eládio, atinge o aspecto literário: “Do ponto de vista literário, artístico, há um desvio intertextual denominado paródia, em que se mantém os personagens do texto-base, a trama do texto antigo, invertendo-lhe o sentido, a significação”, comenta. Para ele, as reinvenções, de qualquer criatura ou texto, podem ser consideradas paródias que estão em acordo com a primeira razão, já que satisfazem a moral e a ética.

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Antes condenados à fogueira, hoje idealizados. Com Harry Potter, milhares de adolescentes sonharam, ainda que por um momento, com a magia que a história apresenta.

É o caso dos bruxos. De Blair à Harry Potter, quase tudo mudou. Humanizado, o portador da varinha ganhou o público e a crítica. Aqueles que antes eram condenados a fogueiras são, hoje, motivo de saudade e nostalgia dos fãs que cresceram ao lado do bruxo. “De maneira geral, estas transformações recuperam, em muitos aspectos, características originais das lendas no seu momento de surgimento”, destaca Fianco.

Harry não está sozinho: os contos de fadas que nasceram da mente dos Grimm também optaram por mudar o seu final. Princesas fogem das pompas de um vestido e do concreto de um castelo para se encontrarem em meio a uma batalha entre espadas e armaduras. O ideal não é mais tão bem visto assim: “Desconfiamos imediatamente das promessas maravilhosas do ideal, o que nos permite eleger um ogro simpático como protagonista e colocar o já destronado príncipe encantado como vilão da história. Nós, ogros, agradecemos”, brinca Fianco.

O professor comenta, ainda, que nem sempre o antagonismo se torna virtude, como citado por Eládio. “Existem, por vezes, contos de fadas, que recuperam a obscuridade e a seriedade de suas primeiras versões, sem o filtro de amenização que as tornaram mais suaves para poderem ser apresentados às crianças sem tanto choque”, comenta. Vide A Garota da Capa Vermelha, uma releitura de Chapéuzinho Vermelho.

Talvez a principal mudança esteja nos sedentos por sangue. De Drácula a Edward, os vampiros assumiram características peculiares e, ainda que brilhem, a sua nova versão – com uma dose a mais de escrúpulos – caiu no gosto popular. Mas nem só de Edward o mundo dos vampiros vive. Entre séries, livros e filmes, talvez sejam a criatura mais presente da cultura contemporânea.

Cultura essa que insiste em explorar o herói: entre Homem Aranha e Super-Homem há uma infinidade de personagens que DC Comics e Marvel deram à luz. E, ainda que nascidos em uma outra época, voltam à tona em versões que contam aspectos da sua vida que os quadrinhos preferiram esconder. Heróis se tornaram muito mais humanos. “Nossa subjetividade contemporânea, por uma série inumerável de fatores, não lida bem com idealizações, ou seja, estamos começando a entender a vida e as pessoas como passíveis de imperfeição”, comenta Fianco.

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Com Percy Jackson o “ser deus” ficou muito mais próximo. A vontade inata do ser humano de assumir o controle da própria vida e das situações ao seu redor são o mote principal da história.

Os mitos não ficaram de fora. Do alto da sua incapacidade de falha, deuses foram reconfigurados e assumiram aspectos muito mais próximos da humanidade. Atena, Hermes e Poseidon viraram pais de pré-adolescentes. Esses, por sua vez, à certa idade se descobrem semi-deuses. E, mais uma vez, a necessidade humana de ser melhor ou de ter poder se sobressai sobre a realidade do mito.

E, fechando a lista dos que preferiram adotar uma nova roupagem, estão “eles”. Nos últimos tempos outra criatura anda tomando o feed de qualquer rede social. Eles continuam andando por aí, sem rumo, à procura de um cérebro para comer. Sim, os zumbis estão em evidência. E não é de hoje, Michael Jackson que o diga.

A literatura, por fim, vive. “Essa reinvenção toda é a literatura alimentando-se da própria literatura, garantindo, de certa forma, a sobrevivência da arte literário”, conclui Eládio. Então, que seja “era uma vez” de novo.