O gênero dos sentimentos

“A Poesia
é o esconderijo
do açúcar e da pólvora.
Um doce
uma bomba
depende de quem devora”.
(Sérgio Vaz)

Felicidade, tristeza, dor, medo, esperança, amor. Assim é a poesia: um poço de sentimentos e sensações; o mais antigo e mais incompreendido gênero da literatura.

Tudo começou na época medieval quando trovadores saíam às ruas declamando textos rimados em forma de versos, embalados por instrumentos musicais.  O poder da palavra espalhou a tradição, os textos povoaram o imaginário, viraram histórias passadas de um a um, foram para os teatros e, hoje, habitam livrarias, bibliotecas e até a rede.

Hoje, longe dos tempos de ouro, a poesia é um gênero um pouco discriminado. “Quando você conversa com as pessoas, dificilmente tem alguém lendo um livro de poesia”, comenta a professora de Literatura, Nara Marley Aléssio Rubert.  A poesia que, por dizer tanto com poucas palavras, deveria encantar, para a professora, é o gênero que mais abre espaço para a imaginação, assusta e pode causar uma sensação de desconforto em quem lê.

Nada disso impediu, entretanto, que surgissem poetas célebres ao longo dos anos. Entre eles, Antônio Frederico de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, que marcou o dia 14 de março, seu nascimento, como o Dia da Poesia. Quintana foi outro desses grandes homens. Segundo Nara, foi ele quem conseguiu trazer a simplicidade que faltava à poesia, que resgatou o encantamento com o gênero. Foi tão bem-sucedido em tornar a poesia compreensível que escreveu até para crianças. “Talvez a gente tenha perdido um pouco disso. Se a gente lembrar, o que a gente gostava mesmo de ler quando era criança era a poesia, porque a rima atraía muito. Inclusive, ela fazia com que você memorizasse alguns poemas”, comenta a professora. Quem parar e analisar perceberá que a poesia faz parte do seu dia a dia: a cantiga de roda, por exemplo, é uma poesia. As músicas que cantarolamos e que ficam na memória têm seu “corpo” formado pelo texto poético. “Eu acho que talvez esteja faltando um resgate desse gênero, porque ele é o mais democrático, o que deixa com que você participe mais do texto”, afirma Nara.

Foto: Camila Guedes

O resgate dos versos

O maior desafio da poesia, hoje, talvez seja conquistar os mais jovens para se inserir em meio a tantas narrativas. Para a professora Nara, existem várias maneiras de incentivar a leitura e até mesmo a produção do gênero. Um deles é promover o contato do leitor com o escritor, para que se perca a ideia de intocável, de inacessível. Eventos como a Jornada Nacional de Literatura estão aí para isso.  “E eu acho que a gente também deve fazer circular mais, porque, na verdade, a poesia parece um mundo obscuro. A partir do momento que você desvendá-la, você vai ver que ela tem uma mensagem”, afirma Nara.

Os meios para isso são inúmeros: vão desde o verso, a roda de poesia e o sarau literário até a contação de histórias, que pode ser feita em forma de texto poético. A poesia tem que ir para a praça. Hoje, a praça é a rede. E é lá que, segundo a professora, a poesia deve ser consumida a conta-gotas, em pequenas doses, o que não demanda muito tempo. “Você pode ler um poema aqui outro acolá, o poema pode ser seu companheiro. Acho que, talvez, o importante seja desmistificar um pouco. Deixar chegar mais perto das pessoas”, conclui. E assim, de gota em gota, dose em dose, os sentimentos voltam a fluir. As emoções transbordam e a poesia ganha vida. A sua vida.

Mas se a vida é tão curta como dizes por que é que me estás lendo até agora?”  (Mário Quintana)