As cadeiras do plenário um dia já foram um palco

Marlon Brando em Júlio César, como Marco Antônio.

Marlon Brando em Júlio César, como Marco Antônio.

A história tem nos mostrado os meandros da política, que se inseriu no cotidiano das relações de hierarquia, comandando e gerindo os processos de desenvolvimento da sociedade sob inúmeras formas de governo.

            No Brasil – uma República presidencialista há 124 anos – e em mais 44 países, é o cidadão que escolhe quem será o seu representante no governo assim como escolhe também quem será o responsável pela elaboração das leis do país, no chamado sistema legislativo.

Assim como, também a arte aparece como forma de manifestação humana de ordem social que tenta mostrar o que o homem pensa, sente e entende seu mundo através da expressão e da comunicação.

Esses dois elementos, a política e a arte, que o homem entendeu como importantes e, posteriormente, inerentes ao seu convívio em sociedade, acabaram se cruzando nas urnas eleitorais, ou seja, quando um artista conquista e cativa o povo com seu trabalho de expressão e acaba parando nos postos de poder, comandando e decidindo o melhor para todos nós.

Nos últimos anos assistimos a inúmeros artistas e esportistas subirem ao poder por serem reconhecidos como capazes de entender as demandas da sociedade. No entanto, na maioria das vezes, quem acaba usando do voto para promover os “políticos-artistas” acaba sendo a mesma pessoa que observa suas atitudes igualmente caricatas e cômicas no poder.

Na rua, Uhu!

Gleison Conssalter como Palhaço Uhu

Gleison Conssalter como Palhaço Uhu

Em Passo Fundo, uma figura chama atenção no centro da cidade. Para os que passam pela Avenida Brasil, andando distraidamente pelas calçadas, podem topar com um personagem lhes fazendo piadas, brincando e tirando as pessoas para dançar.

Depois de anos trabalhando nas ruas e vendo as necessidades da população que passa pela avenida, o Palhaço Uhu saiu da frente da loja onde trabalhava como recreador e foi tentar nas urnas o cargo de vereador em Passo Fundo. Gleison Túlio Consalter, 29 anos, formado em educação física e professor de escolas infantis, foi eleito nas eleições municipais com quase 3 mil votos.

“Eu sempre fui questionado para mudar essa fase da minha vida profissional. Eu já queria ter concorrido nas eleições de 2008, mas ainda não estava amadurecido o suficiente para concorrer. As pessoas vinham até mim para me questionar e saber por que eu não concorria. Diziam que com a minha graduação em educação física eu teria condições de exercer um mandato. E eu fiquei pensando nisso”, conta Gleison.

Mesmo hoje depois de eleito e com o salário de vereador, Gleison ainda exerce suas outras duas profissões: a de professor e a de recreador. “Eu completei os quatro anos da faculdade e até hoje exerço essa atividade em três escolhinhas particulares de Passo Fundo. Sempre deixei claro que ia continuar a exercer os meus trabalhos paralelos”.

Depois de ficar conhecido, a ida para a câmara de vereadores viria como uma forma de realmente dar atenção e destino às demandas dos que lhe param nas ruas, ou àqueles que ele mesmo parava para brincar. “Aqui, na Câmara Municipal, eu estendi aquele contato que eu tinha trabalhando na rua. Eu acredito que as pessoas terem votado em mim, foi por um voto de confiança e uma vontade de pôr caras novas no poder. Sempre tratei bem as pessoas nas ruas e acho que isso foi reflexo da minha eleição”, relata o vereador.

Quando está nas ruas trabalhando como palhaço, é o momento de, ás vezes, parar e dar um olhar de político e de gestor ao que o povo diz. As ruas estão lotadas de demandas, e quem teve de ouvi-las e leva-las ao plenário foi o Palhaço Uhu. “Sempre digo que eu fui eleito pelo meu trabalho como palhaço Uhu e que o Gleison, professor de educação física, talvez não fosse leito”.

As leis do pleito

Cristinha Bohrer, da 138ª zona eleitoral de Passo Fundo é quem rece e encaminha os processos de candidatura para os juízes eleitorais da comarca

Cristinha Bohrer, da 138ª zona eleitoral de Passo Fundo é quem rece e encaminha os processos de candidatura para os juízes eleitorais da comarca

Para estar apto a ser votado, um candidato tem que responder à uma série de requisitos julgados pelo TRE, o Tribunal Regional Eleitoral. Tudo o que rege uma eleição está regulamentado na lei 9504/97. E, eleição à eleição, o TSE  (Tribunal Superior Eleitoral) define resoluções que acabam estreitando mais as regras de cada eleição.

Segundo assessor de imprensa do TRE de Porto Alegre, Renato Sagrera, depois de os partidos definirem quem mandarão para concorrer no Estado, são os juízes do TRE que julgarão a validade dos processos de candidatura. “Em uma eleição estadual, o registro de candidatura é feito no Tribunal Regional Eleitoral. O partido político faz uma convenção e encaminha a relação de candidatos de deputados, senador e governador para o tribunal que vai julgar a validade da candidatura. Aí, quem analisa e julga o processo de candidatura é um colegiado de magistrados”, explica.

[stextbox id=”custom” caption=”DiculgaCand” float=”true”]Todos os candidatos que concorrem no Brasil, têm as seu perfil no DivulgaCandi. Lá, estão disponíveis todas as informações que os candidatos declararam ao se candidatar à eleição.[/stextbox]

Tudo que rege uma eleição municipal é julgado no município pela zona responsável. Em Passo Fundo são duas: a 33 e a 138. Cristina Bohrer, chefe do cartório da 138ª zona eleitoral de Passo Fundo, diz que depois das definições e resoluções da lei, cada partido tem suas próprias regras para incluir um candidato na sua lista a concorrer. “Devido à fidelidade partidária, cada partido define o que requisito para o filiado se candidatar. O vai do tempo de filiação até a história dentro do partido. O partido ou a coligação envia um DRAP (Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários) que mostra os candidatos escolhidos para concorrer. No DRAP estão todas as especificações uma ata feita em convenção no partido”, explica Cristina, apontando para as responsabilidades do candidato que não estão ao alcance do partido, como por exemplo: “ada candidato tem que apresentar o seu RRC (Requerimento de Registro de Candidatura) que é um processo onde aparecem vária informações daquele candidato, que são coisas que tem que estar bem definidas para não tornar a candidatura inelegível. Coisas como apresentar declaração atual de bens; certidões criminais; fotografia recente, comprovante de escolaridade”.

As anàlises dos processos de candidatura também são avaliados pelo Ministério Público que examina cada protocolo em busca de variáveis que podem impossibilitar a candidatura, e onde até propostas de governo fantasiosas podem impugnar todo a campanha.