Bruxos? Talvez heróis

Eles foram dispensados das fogueiras. Seus rituais, antes condenados à obscuridade, estão agora abertos às possibilidades da luz. Suas varinhas, antes escondidas, são objetos de desejo. Bruxos? Não no sentido que a palavra remete. Não mais. Outrora destinados aos amantes do terror, os bruxos invadiram a cultura contemporânea e trocaram de papel: são heróis.

Da câmera na mão de Blair aos efeitos visuais de Harry Potter, um grande caminho foi percorrido. Caminho esse que teve início muito antes. O bruxo no cinema não é novidade. Em 1966, por exemplo, um dos filmes que fez com que homens e mulheres se encolhessem foi Bruxa – A Face do Demônio ou The Witches. Na época, a migração de grandes atores para o terror deu crédito ao gênero e o longa, estrelado por Joan Fontaine e que marca o fim de sua carreira, se consagrou como um dos mais importantes da época.

Cena do filme Viy, um dos clássicos que coloca a bruxa como personagem de terror

A história envolve uma professora, uma cidade pequena, um casal adolescente e estranhos acontecimentos que impedem uma rotina normal. Rituais de magia negra movem a trama que é carregada de suspense. Um ano depois do lançamento de A Face do Demônio, Viy – O Espírito do Mal traz, segundo a crítica, o horror de verdade para a cena. Depois de se perder, o personagem central pede abrigo a uma senhora que, na verdade, é uma bruxa. A história se desenrola de uma forma que, por vezes, parece confusa, mas, ainda assim, a bruxa em questão é o retrato do que se imagina: má.

A maldade, no entanto, se perde no meio do caminho e com a chegada de Sabrina às telas, a bruxaria se torna ingênua e passa longe de qualquer menção ao terror. Na série – exibida entre 1996 e 2000 nos EUA – e no filme, também de 96, Sabrina é uma adolescente que, ao se deparar com poderes, não sabe bem como usá-los. A bruxa, enquanto figura do imaginário humano, adentra na comédia. Ao lado de Sabrina, As Bruxas de Eastwick ajudam a representar a nova fase.

Harry e Voldemort, herói e vilão, são os responsáveis pela transformação que a história propõe.

Harry e Voldemort, herói e vilão, são os responsáveis pela transformação que a história propõe.

Eis que em 1997 chega às bancas inglesas o primeiro exemplar de uma série que modificaria qualquer estereótipo que o cinema ou que a literatura tenham imposto para o bruxo. Último representante da classe, Harry Potter, transformou um cenário construído através dos anos com poucas páginas. Tornou-se herói. Não assumiu a característica horripilante dos primeiros bruxos e não deixou que a comédia invadisse a narrativa. Talvez tenha unido ingredientes: um bruxo que não sabe como usar seus poderes, um vilão capaz de atrocidades inimagináveis em um filme cuja classificação é livre, um herói – ou anti-herói – cheio de defeitos e que, apesar de qualquer erro – é o único capaz de solucionar grande parte das problemáticas que o enredo apresenta.

Harry Potter nunca foi um filme infantil. É, sim, uma história que cresceu com o seu público. E, além da mudança do cenário, apresenta – metaforicamente – uma mudança social. O professor e doutor em Filosofia, Francico Fianco, explica que a história de Potter pode ser compreendida como a própria mudança no contexto social. Gerações mais antigas estavam acostumadas com histórias cujos personagens desenvolviam suas aventuras de forma prática e braçal utilizando, para isso, força física. Ele comenta, ainda, que “os heróis eram guerreiros, mesmo que tivessem poderes especiais, suas peripécias eram de combate físico e geralmente espelhavam as relações de forças políticas mundiais”.

A pós-modernidade, no entanto, contribuiu para que a transformação social atingisse, também, a cultura: “Conforme esses conflitos foram ficando mais amenizados no imaginário social, outras questões foram surgindo”, inicia. “A presença marcante da tecnologia – que não deixa de ser, aos olhos leigos, uma espécie de magia – é uma constante na nossa vivência cotidiana. Logo, as habilidades puramente físicas de antes, são substituídas por habilidades cognitivas de operação de instrumentos”, conclui.

Ele compara, ainda, as varinhas e os encantamentos com o controle remoto ou o teclado de um computador: “as novas gerações manipulam com maestria”, acrescenta. De fato, a mudança que o garoto da cicatriz carrega, vai além da proposta narrativa: Potter e Voldemort, em seu conflito que dura sete livros, modificaram uma geração inteira. E, para Fianco, foi uma transformação democrática “pois abre espaço àqueles que eram até então menosprezados numa sociedade que valorizava demasiadamente a força física e refletem, também, um equilíbrio de gênero, já que muitas vezes o herói é salvo pela sua colega, Hermione.”

Além disso, Harry Potter modificou a forma do jovem ver a literatura. A professora Tania Rösing, no lançamento da 13º Jornada Nacional de Literatura, destacou que a juventude, hoje, ao contrário do que se pensa, lê. “O  jovem lê Harry Potter, lê Senhor dos Anéis, lê livros enormes. Por que ele gosta disso? É preciso entender o porquê disso para que possamos entender o jovem e trabalhar com ele”, comentou a coordenadora das Jornadas, na época. Eládio Weschenfelder, Mestre em Literatura, acrescenta que essa transformação acontece porque “a literatura moderna se apropria de temas literários da tradição, mas opera a inversão de sentido” e isso, de forma inconsciente ou não, proporciona novidade. E o que se quer é isso: novidade.