Eureka, de novo: Era uma vez…

Depois de ver a reinvenção dos bruxos, chegou a hora dos contos de fadas. Não era uma vez… ou era, mas de um jeito diferente!

Os castelos foram destruídos. Os príncipes não são mais esperados. As princesas assumiram as rédeas das próprias carruagens. Os Contos de Fadas se reinventaram – conquistaram novamente, espaços midiáticos, mas ficaram diferentes: os finais não são mais felizes, o início não é tão inocente e as amarras das histórias são mais fundamentadas na ação.

Nos contos originais, que surgiram como uma ramificação das fábulas, o herói ou heroína, geralmente, enfrenta grandes obstáculos antes de triunfar, de fato, sobre o mal. Ainda, o amor é uma espécie de fio que percorre a narrativa inteira – por vezes, o fio se confunde entre obstáculos, mas, jamais, se perde. Caracterizados, basicamente, por uma busca pessoal por parte do herói – seja ela de realização pessoal ou amorosa.

Foto João Vicente Mello da Cruz

Mas onde, nisso tudo, entram as fadas?

Na maioria das tradições, as fadas como símbolo do amor. Sempre ligadas ao sentimento eram retratadas, inicialmente, como sendo elas próprias as amadas. A cristianização do mundo, como destaca Nelly Novaes Coelho em seu livro, Os Contos de Fadas, trouxe um novo sentido para as criaturas: tornaram-se então, mediadoras do amor. Nas páginas que se seguiram, tornaram-se uma espécie de madrinha dos apaixonados. Cinderela é o principal exemplar da situação.

A Nova Cinderela retrata o conto de fada de uma forma mais moderna, com o acréscimo de elementos que são essenciais na realidade 2.0

A Nova Cinderela retrata o conto de fada de uma forma mais moderna, com o acréscimo de elementos que são essenciais na realidade 2.0

A jovem que tem duas irmãs e uma madrasta realiza o sonho de princesa com ajuda de uma varinha mágica. A história não é nova, mas continua a ser repetida. Cinderela perde seu sapatinho de cristal e, com ele, encontra o seu príncipe. Inocente, ingênuo e tradicional, é bem diferente de A Nova Cinderela. No filme, de 2004, a Cinderela gosta de hambúrguer e seu sapatinho é, na verdade, um allstar. O que perde é o celular. A mudança, apesar de pequena, é, segundo o doutor em Filosofia e professor da Universidade, Francisco Fianco, a recuperação de uma tradição antiga: “de maneira geral, estas transformações recuperam, em muitos aspectos, características originais das lendas no seu momento de surgimento”, explica.

Ainda no hall de princesas, Rapunzel é, talvez, a que apresente maiores modificações. Na história original, dos irmãos Grimm, publicada em 1812, Rapunzel vive com uma bruxa que a tranca em uma torre. A única ação da princesa é cantar. Assim, atrai o príncipe. A descoberta dos encontros pela bruxa acaba com Rapunzel, grávida, vivendo em um deserto e o príncipe cego.

Enrolados é o retrato de uma princesa que se transformou

Enrolados é o retrato de uma princesa que se transformou

Na última adaptação, Enrolados, o potencial da história ruma para os homens. A mudança no título, por exemplo, deixa de lado o estereótipo  de “filme de princesa” para se centrar em ser simplesmente um longa animado com um casal protagonista. A história acompanha a modificação: a primeira  metade se centra em um ladrão que rouba as tiaras de uma princesa; na sua fuga, encontra a torre onde Rapunzel está presa e tenta se esconder por lá. Rapunzel, no entanto, não é uma princesa comum: com uma frigideira em punho e utilizando de seu cabelo consegue se defender, nocautear o ladrão e esconder a tiara que ele roubou. A princesa, aqui, tem atitude e não passa despercebida.

Assim como nas últimas adaptações de Branca de Neve. Em Branca de Neve e o caçador, por exemplo, a princesa ganha armadura – assim como em Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Ambas lutam pelo que desejam – seja reconquistar um reino ou destruir um ogro. Os príncipes – quase sempre sem nome – ficam em segundo plano, assim como o amor – ainda que os dois sejam elementos essenciais para o desenvolvimento da trama.

Uma das produções que mergulhou fundo nas adaptações é a série da ABC Once Upon a Time. Em duas temporadas retrata a reunião de todos os contos de fadas em um mesmo mundo. Centrada em Snow White e Charming, a série é um apanhado de histórias transportadas para o mundo real. Na tela, Cinderela é amiga de Chapéuzinho Vermelho que é, na verdade, o Lobo Mau. As mudanças deram certo. Once Upon a Time é uma das séries de maior audiência do canal.

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As transformações, como destaca Eládio Weschenfelder, mestre em Literatura, é o que mantém as histórias vivas.