Grafite em Passo Fundo: Paredes que falam, traços que colorem

Os bons observadores já sabem: as ruas de Passo Fundo não são as mesmas. A mudança não está no trânsito, na violência ou na ultima tendência lançada. Está nas cores distribuídas pelos muros através do grafite

Arte? Sim, grafite é arte. Ao menos, é o que a professora de ensino fundamental e médio Mirian Giareta Goellner afirma: “O grafite é uma arte mais pública, diferente das demais, que são artes mais elitizadas, de museus ou galerias que as legitimam.” Ligado ao movimento hip-hop, as paredes são tomadas por um estilo hibrido, que usa uma linguagem solta, mistura técnicas e traços. “O grafite não é legitimado pelas pessoas, mas pela rua. É uma linguagem que está por aí, vemos muito e cada vez mais, com melhor qualidade, inclusive aqui em Passo Fundo.”

Foto: Caroline DomingosApesar da preocupação estética ser uma das marcas do grafite, ele ainda é confundido com a pichação. O que fez muitas pessoas mudarem seu conceito sobre street art em 2007, quando os paulistas Otávio e Gustavo Pandolfo criaram seu estilo e gastaram mais de 1,5 mil em latas de tinta spray para decorar o O Castelo de Kelburn, uma construção do século 13. A distância que separam Passo Fundo de São Paulo e da Escócia não impõe barreiras, como conta a professora, ao afirmar que “o pessoal está pensando mais no espaço urbano, estamos em pé de igualdade como qualquer outro país. A arte brasileira estava sempre atrás, sempre sendo puxada pelas vanguardas, mas no grafite não.”

Foi pensando assim que Mirian resolveu incluir o grafite e o muralismo no seu plano de aula. As duas intervenções foram feitas com propostas diferentes nas escolas em que Mirian trabalha. A Escola Jardim América cedeu áreas externas para os alunos treinarem a técnica mural com pinturas inspiradas em grandes nomes da arte. Cada grupo recebeu a proposta de um artista brasileiro moderno, trabalhou a questão da linguagem e usaram referências de várias obras. No Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis os alunos também puderam colorir as paredes. Ambientes externos foram dedicados às mensagens de diversidade cultural e os internos formam paredões que misturam diversas influências, dentre elas, está o grafite.

Após decidirem o que iria para parede, além da experiência de discutir obras, linguagens e influências, os alunos precisaram pôr a mão na massa e… pintar. “Foi perguntado se eles preferiam usar o spray, mas optaram por não usar pelo custo e as escolas têm uma verba para o material. Eu trouxe a diferença e os elementos do grafite e o muralismo e eles acharam melhor manter a técnica mural para dar o efeito que queriam e, também, pelo domínio que eles tinham dos materiais,” conta a professora. Bernardo Schwaab De Olivera foi um dos alunos que insistiram em usar spray nos muros do Colégio Fagundes dos Reis.

A afinidade de Bernardo com as latinhas de tinta ultrapassaram os muros da escola e, assim, os letreiros dele acabaram em alguns muros. “Grafito desde os 13 anos, já fiz muito grafite nesses cinco anos. Sempre desenhei bastante e achava legal quando passava na rua, desde pequeno, e via algumas coisas desenhadas. Tinha curiosidade em descobrir como faziam aquilo,” lembra o ex-aluno. Foi assim que o ex-aluno de Mirian conheceu um grupo de grafiteiros na cidade, a TagVilleCrew.

Foto: Caroline DomingosO grupo já contou com mais de 20 membros, que se dividiram entre os muros, a música e a dança dentro do movimento hip-hop. De 2005 até agora, apenas cinco membros ainda atuam e, dentre eles, há uma aprendiz de grafiteira. Bernardo foi convidado por Iuri Flores para integrar a Tag, seguido por Francisco Galina, Eduardo Carbonera, Tiago Bacin e Maiara dos Santos. Esses são os nomes que constam na carteira de identidade de cada um deles, mas para os olhares lançados nos grafites passo fundenses, as assinaturas usadas identificam Dime, Iuri Iugue, Code, Tiago e Mai. Cada um começou a grafitar por um motivo.

Estava no sangue de Iuri, que foi influenciado pelo irmão, era a diversão e curiosidade de Bernardo e Eduardo que se aventuravam pelas folhas de papel, a imaginação de Francisco e Tiago, e a parceria de Maiara com o namorado. Não é só a amizade e a TagVille que mantém o grupo ligado, mas também as histórias que já construíram juntos. Grafite e pichação vivem em duelo porque um é arte e o outro é considerado crime. Os grafiteiros, mesmo com essa distinção na lei e as diferenças sociais e estéticas entre grafite e pichação, já foram denunciados para as autoridades algumas vezes às autoridades.

Arte legitimada pelas ruas
Criados para interferir na paisagem urbana através da estética, não restam dúvidas de que o grafite é arte. Maiara, a aprendiz de grafiteira e estudante de direito, defende a sua escolha: “Eu acho que o grafite acaba sendo um trabalho a mais pra sociedade, porque ameniza um pouco a situação do lugar, porque você tem para onde olhar com cor, é uma arte, um trabalho do artista passando uma mensagem boa para a sociedade.”

As manifestações urbanas de Passo Fundo passaram por um processo de transformação e conquista de espaço, que ainda é considerado pouco para quem precisa desse espaço para mostrar o seu trabalho. Os integrantes da TagVilleCrew conseguiram autorização para se expressar nos muros da Rodoviária e na quadra de esportes da Praça Professor Ernesto Tochetto.

Apesar do ‘karma’ de ter a maioria dos trabalhos pichados, os membros do grupo respeitam as manifestações urbanas, conscientes que a street art exige mais recursos financeiros para comprar materiais de qualidade e tempo para desenvolvê-la. Iuri lembra que, às vezes, a crítica começava em casa: “Antigamente, falava que fazia grafite e ninguém dava bola, os pais eram os primeiros a criticar, dizer pra parar com isso porque era coisa de marginal.” Para Bernardo, uma das coisas que impedem o crescimento e retorno do trabalho que desenvolvem é a generalização sobre o conceito de grafite e pichação: “Tem muita gente dizendo que grafita, mas na verdade só picha e é isso o que ‘queima’ o trabalho”.

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