Eles ainda mordem?

A série “Eureka! De novo!” conta, nesse post, a reinvenção dos vampiros. De predadores assassinos à príncipes encantados. Como assim?

 Terror. Medo. Desconfiança. Um cenário escuro. Noite e névoa. De repente, ele aparece. E, logo, não está mais ali. Restam, apenas, os rastros de um assassinato – uma mordida na jugular. Romance. Desejo. Curiosidade. O cenário é uma escola. Não há sol, mas é dia. Quando ele aparece, camuflado entre os alunos, o olhar de 100% do público feminino – na escola, nas salas de cinema, nas páginas de um livro – se voltam para ele.  Mas ele não pode ficar por muito tempo. O desejo por sangue humano não o consome, mas o incomoda. Ele prefere salvar vidas caçando animais.

De Drácula à Edward Cullen: Em que momento as transformações de gênero, linguagem e narrativa romperam com a própria essência do vampiro? Drácula, o romance de 1897, é uma espécie de diário com cartas de diferentes personagens. Há diferentes contextos, mas um fato se assemelha: por onde passa, conde Drácula deixa um rastro de morte e destruição. Foi adaptado ao passar dos anos e é considerado um dos grandes responsáveis pela caracterização do vampiro enquanto pertencente ao terror.

Edward e Bella são os protagonistas de uma série que coloca o vampiro como príncipe encantado.

Edward e Bella são os protagonistas de uma série que coloca o vampiro como príncipe encantado.

Mais de um século foi capazes de criar Os Cullen. O Vampiro deixa de ser um monstro, para tornar-se o par ideal. Ele deixa de andar somente a noite, pois consegue, desde que não tenha sol, se adaptar a claridade. E quando há sol… Bem, ao invés de pegar fogo, explodir e morrer, eles brilham. E, ainda, por optarem pelo “vegetarianismo vampiresco” tem os olhos cor de mel. E, para finalizar, se relacionam com lobisomens e, ao lado deles, são personagens centrais de uma disputa pelo coração de uma humana. Stephenie Meyer, autora da saga Twilight, é, hoje, uma das mulheres mais ricas do mundo. Sua história, ainda que contraditória, foi capaz de render rios de dinheiro. Por quê?

Para o professor da Universidade de Passo Fundo, Francisco Fianco, os motivos vão de encontro a uma nova proposta de sexualidade e romance. Ele explica: “Os vampiros passaram de opositores dos lobisomens – naquilo que poderíamos chamar de uma narrativa simbólica da luta de classes dentro de um sistema feudal; sendo os lobisomens a caracterização exacerbada dos camponeses aos olhos dos aristocratas e os vampiros a personificação do parasitismo dos nobres na sociedade do Antigo Regime – para pares românticos ideais”.

Ele cita, ainda, o caráter sedutor e lascivo dos vampiros que vai, também, de encontro à aristocracia feudal. Sedução essa que permite a quebra de regras religiosas impostas na Idade Média, mas que, ainda hoje, exercem certa influência sobre sociedades cristãs. “Percebermos que essas regras de castidade, por exemplo, eram frequentemente seguidas à risca pelos plebeus e raramente observadas pelos nobres e pelo clero. A transformação do vampiro permite a inserção desta sexualidade latente em um contexto puritano como o dos Estados Unidos, no qual a problemática da relação sexual adolescente é muito mais neurótica do que no nosso contexto católico-tropical do ‘depois eu me arrependo’”, continua.

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Ainda que latente, a sexualidade permanece um tabu. Enquanto Drácula usa da sedução para conquistar vítimas, Edward se casa com Bella antes de qualquer aproximação sexual. É a prova, para Fianco, de que a transformação permitiu, apenas, que se falasse sobre sexualidade de uma forma mais liberal, ainda que na prática a vivência permaneça sob regras religiosas. “Simultaneamente ao surgimento e desenvolvimento do que poderíamos chamar de “vampiro beijoqueiro”, aquele que beija, mas não morde, percebeu-se um aumento crescente das alianças de “pureza”, como se pureza e castidade tivessem alguma relação intrínseca”, destaca.

Ainda há esperança!

Em The Diarie Vampire, a narrativa se centra em romance, mas também em morte e destruição.

Em The Diarie Vampire, a narrativa se centra em romance, mas também em morte e destruição.

Mas Crepúsculo não é a última palavra sobre vampiros. Gradativamente, as transformações do gênero estão tomando o caminho de volta para casa. A série The Vampire Diarie, ainda que semelhante à Twilight no quesito “vampiros bonzinhos”, apresenta um elemento essencial na volta ao terror: os vampiros matam. Ainda que possam parecer bonzinhos, no decorrer de quatro temporadas os personagens mudam trocam de lado e enfrentam vilões que, sem qualquer pena, causam destruição. E, por fim, o romance, em TVD, deixa de lado questões de pureza ou castidade.

Ainda assim, falta algo. Algo que André Vianco é capaz de suprir. Quando Edward Cullen brilhou, pela primeira vez, quando exposto ao sol, Vianco riu. Não por menosprezar a obra de Stephenie Meyer, mas por falar desse universo há 5 anos. “Quando comecei a publicar, Bella ainda estava no jardim de infância”, ele se diverte. Ainda assim, ele é consciente de que o sucesso de Crepúsculo impulsionou a sua história: Não sou oportunista, mas o sucesso de “Crepúsculo” deu força ao gênero vampiresco e eu vendi muito ano passado. “Depois que ficam órfãs de Stephenie, as pessoas acabam correndo para os meus vampiros”, conta.

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A migração, no entanto, exigiu adaptação. Os vampiros de André não brilham e não são bonzinhos: “não gosto de vampiro light e politicamente correto”. Se precisassem ser definidas em uma palavra, as obras de André seriam caracterizadas por sangue. Assassinato e morte carregam os enredos desde a primeira página – e é assim que ganham o público. Hoje ele é um dos nomes mais importantes do terror nacional.

Seria a gênese de um novo Drácula?