Eureka, de novo! Os mortos vivos chegaram!

Os zumbis dominaram a cultura pop. Sem qualquer hesitação, abandonaram a característica típica do terror. Tornaram-se ícones de uma geração cujas definições fogem de qualquer tipificação. O momento cultural representa uma grande quebra de tabus, ainda que de forma lenta.

Como retratado, desde o início da série, os zumbis não são os únicos: tudo começou com os bruxos que, quando humanizados, se aproximaram do leitor/expectador e ganharam sua preferência. Depois o “era uma vez” se reinventou: princesas que fugiram do patriarcalismo imposto e tornaram-se as heroínas da própria história. Os vampiros foram os últimos a invadirem livros, séries e filmes – e não, Twilight não foi o primeiro e nem o único a fazer isso. Agora, desde que The Walking Dead migrou dos quadrinhos, produzidos desde 2003, por Robert Kirkman e se tornou uma série de televisão desenvolvida por Frank Darabont que quebra recordes de audiência a cada episódio, é a vez do zumbi.

A chegada “deles” na literatura, no cinema, na TV ou nos quadrinhos não representaria qualquer coisa: eles sempre estiveram ali. A essência da mudança está no status que a criatura atinge: eles não são odiados ou temidos, mas pelo contrário, assim como os bruxos, foram humanizados e aproximaram-se do público. Quando a humanização não acontece, ainda assim, eles ganham a torcida de quem os assiste ou lê.

As mudanças são graduais, indiscutíveis e reflexos das transformações da sociedade: “Estamos, inegavelmente, vivendo uma época de transformação, uma transição social e psicológica que alcança todos os aspectos da existência humana. E isso se reflete, obviamente, na criação literária”, destaca o professor da Universidade de Passo Fundo, Francisco Fianco.

Com os zumbis, no entanto, as mudanças são um pouco diferentes. Fianco explica: “Todos os monstros tem uma história, uma identidade, menos eles. Os zumbis são originalmente lerdos, pouco inteligentes, anônimos e alvejáveis sem culpa alguma, alimentam-se de carne humana e, mais especificamente, de cérebros humanos”. Ele comenta, também, os mortos vivos podem ser considerados uma analogia do próprio ser-humano inserido num universo fluído e pós-moderno: “Massificados, somos, como eles, apenas um rosto a mais na multidão; alimentamo-nos dos demais na medida em que estamos inseridos em um modelo de produção capitalista baseado no lucro a qualquer custo”.

The Walking Dead não foi pioneira, mas foi o ápice da criação zumbi. Na série, o medo e a busca por sobrevivência acabam sendo piores inimigos do que os próprios zumbis. Ainda que a série retrate o desastre de um mundo pós-apocalíptico aborda, também, a esperança – o que induz a torcida por um ou dois personagens.

Outra produção recente, Meu Namorado é Um Zumbi, adaptação de Marion, fala da nostalgia que as criaturas sentem. No filme, ambientado em um pós-apocalipse zumbi – óbvio! -, onde humanos se escondem e zumbis não acham que são uma ameaça. Mais uma vez, o cinema humaniza um monstro. A história é, basicamente, um romance: um dos zumbis – segundo a crítica uma mistura de Romeu, Edward e Wall-E – se apaixona pela namorada de uma vítima.

Por fim, são inúmeros os filmes que retratam o pós-apocalipse zumbi e a busca por sobrevivência. Guerra Mundial Z, com Brad Pitt, Planeta Terror, com Rose McGowan, Zumbilândia, Madrugada dos Mortos e Resident Evil são exemplos de filmes onde o zumbi conquista o público – sem, necessariamente, ser assustador.

Talvez, o professor destaca, a inserção dessas criaturas nas produções mais recentes sirva para uma reflexão: “Enquanto eles comem miolos, nós nos alimentamos das ideias alheias sem perceber porque somos educados para a incapacidade do pensar autônomo. A única diferença é que a nossa agonia é a da vida, e não a da morte”, comenta. O fato é que os zumbis foram humanizados – ainda que de forma irônica ou infantil – o que indica certa esperança. “A representação dos mortos vivos como reumanizáveis a partir da capacidade de amar nos dá certa esperança de que algo em nós ainda possa ser recuperado, o que é maravilhoso, ainda que não passe de auto ilusão”, conclui.