Cidade de contrapontos com a falta de infraestrutura em comum

Passo Fundo está crescendo, porém a qualidade de vida, sustentabilidade e preservação ambiental não acompanham esse compasso

 

Esgoto escoado à céu aberto na Vila Donária.

Imagine que de 200.000 mil habitantes, só o esgoto de menos da metade destes fosse tratado. Essa relação de 20% se transforma em realidade ao sair do centro da maior cidade do norte gaúcho e visitar as periferias, que são mais expressivas senão em população, em território ocupado. Elas crescem no compasso da cidade que vê dia por dia sua população aumentar seja em busca de saúde, educação ou moradia, invadindo áreas verdes, encostas de rios e terrenos públicos. População que se vira como pode, em ambos os casos, e que começa a procurar lugares mais afastados do centro por serem mais acessíveis financeiramente; quem não tem opção vai pra mais longe ainda, como é o caso da Vila Donária ou Bairro José Alexandre Zacchia, ambos separados da cidade por rodovias, BR 285 e RS 153. O demarcador físico construído pelo homem parece limitar a infraestrutura básica e interferir também na natureza. Esse sentimento de não-pertencimento está no olhar, nas montanhas de lixo acumuladas, no esgoto que corre à céu aberto até encontrar um riacho, tornar turva a água e a sina dos moradores de hoje e próximos que virão. “Tenho 74 anos” afirma a aposentada Olívia Lino de Jesus; “sou a moradora mais velha aqui da Vila Donária. Desde que vim morar aqui só vejo chegar mais gente, como uma desova, e pouca coisa melhorar na vida dessas pessoas”. A desova que Olívia se refere diz respeito aos conjuntos habitacionais instalados ali. Moradia às pessoas, mas que estão longe de ser uma habitação ideal. “Quando construíram os conjuntos habitacionais, esqueceram de instruir a população sobre como utilizar adequadamente. Hoje o sistema de esgoto está entupido, vaza, e vai seguindo o curso da ladeira. Também não há infraestrutura escolar no bairro, de lazer e de saúde”, explica a professora do mestrado em Engenharia, Rosa Maria Locatelli Kalil. Afirmação que a voluntária Maria Isabel Teixeira da Silva conhece bem. Ela realiza atividades com a comunidade e conta das dificuldades que a população dali enfrenta. “O nosso trabalho é muito importante porque traz instrução às pessoas, muito mais que simplesmente jogar todo mundo no lugar sem assistencialismo. Outro problema grande é o deslocamento. A maioria das crianças daqui estuda na Escola Aberta, que fica do outro lado da cidade, no bairro São José.” Quando questionada sobre o que a população que reside na área central conhece das periferias dispara: “Ah, eles não tem ideia do que é a nossa situação de cada dia aqui.”

Dona Olívia, uma das moradoras mais antigas da Vila.

Mas a vida também não é tão fácil segundo quem circula na região central de Passo Fundo. Do bairro para o centro outras questões e reclamações ganham espaço. O que sobre de área verde nas periferias está escasso no aglomerado central; as queixas dos gastos, seja de tempo ou dinheiro no deslocamento estão latentes, além do trânsito caótico. “A gente vem pro centro e é um caos”, afirma a auxiliar de serviços gerais Teresa Luza. “A cidade não dá a contrapartida em relação aos valores que se gasta pelo custo de vida”, é a opinião de Cristiam Borges, que mora no bairro São Cristóvão e se trabalha no centro da cidade.

Reflexos de um crescimento e desenvolvimento econômico conforme o curso de mestrado em Engenharia. Segundo a professora Adriana Gelpi, “se corrermos atrás do tempo perdido as perspectivas são as melhores possíveis”. Nem tudo está ruim, do contrário, não atrairia tantas pessoas, há uma oferta razoável de empregos, o distrito industrial da cidade está crescendo consideravelmente; mas o que se pode dizer hoje é que a cidade não está sabendo se organizar de forma adequada a fim de não afetar a população e o meio em que vivemos, dizem os especialistas.

 

Imagem sob as águas poluídas pelo esgoto em um córrego de Passo Fundo.

Imagem sob as águas poluídas pelo esgoto em um córrego de Passo Fundo.