E você aí, reclamando?

“… Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei…”. Nem passava pela cabeça do “poeta” Renato Russo que sua música ajudaria a contar uma história tão bela

Iaçanã Andrei Ávila Baptista, 19 anos, nasceu em Condor, pequeno município do interior do estado. Desde cedo o jovem convive com um problema de visão, mas o sonho de ser jornalista falou mais alto e, hoje, o estudante é um dos futuros profissionais que serão formados pela Universidade de Passo Fundo.

Deficiências Visuais

“Para ser jornalista é preciso estar atento a tudo e é necessário informar as pessoas com a maior seriedade possível”. Iaçanã já demonstra desde o primeiro semestre que a ética imposta na profissão deve ser seguida e que ele a considera de extrema importância para o trabalho de qualidade. Além disso, o jovem admite que nunca pensou em seguir outra carreira, pois o jornalismo é um sonho antigo e um amor incondicional. Iaçanã passou por muitas dificuldades e preconceitos, mas resolveu seguir e enfrentá-los de cabeça erguida, já dizia Renato Russo: “Nunca deixe que lhe digam que você nunca vai ser alguém”.

Por mais que a força de vontade seja enorme, o estudante se depara com algumas limitações técnicas para participar das disciplinas práticas, como planejamento gráfico e editoração, pois envolvem imagens e cores. A coordenadora do curso de jornalismo, Bibiana de Paula Friderichs, afirmou que o colegiado do curso está empenhado em encontrar alternativas que permitam ao aluno construir esses conhecimentos técnicos específicos: “algumas adaptações são necessárias e estamos tentando descobrir qual é o melhor caminho de fazê-las. Todos nós aprendemos com isso”. Iaçanã também conta com a colaboração do SAES que, por meio de tecnologia assistiva, dá suporte, ampliando o tamanhos das letras no material impresso necessário para acompanhar as aulas.

Além de todo o apoio recebido pela coordenação do curso e também pela universidade, Iaçanã tem, dentro da sala de aula, pessoas que acreditam e confiam em seus esforços. O professor Lutecildo Fanticelli diz que a diferença de aprendizado se limita a questões técnicas, mas o interesse do aluno o deixa otimista. “Ele parece bastante interessado e da minha parte não noto dificuldades, ele é um aluno que senta na frente, pergunta bastante e ver o interesse do aluno é bom para o professor”. A garra de Iaçanã surpreendeu colegas que afirmam ter um exemplo de superação em sala de aula. Bruna Focking diz que o jovem é muito especial. “A gente não tendo nenhum problema fica reclamando da vida e ele está sempre feliz, chega dando “oi” pra todo mundo e isso é gratificante pra nós”. Julia Possa diz que os laços de afeto se estenderam e agora Iaçanã já é um grande amigo. “Ele é um excelente amigo que não enxerga, literalmente, pelos teus bens e sim pelo que você é”.

Iaçanã superou o preconceito e a dúvida, acreditou que era capaz e mostra que quando se quer algo, é necessário lutar e acreditar. A mensagem da bela canção de Renato Russo “… Quem acredita sempre alcança…” foi bem interpretada por Iaçanã e agora ele pode cantá-la em alto e bom som. É como o jovem mesmo fala “não desistam, sigam em frente, a vontade supera tudo, nós quando estamos com vontade, ninguém para”. E a baixa visão, o preconceito e as incertezas ficaram aonde? Bem, elas nunca foram as protagonistas principais.