Francisco na vigília e na missa de encerramento #JMJ

Acordar cedo se tornou rotina. Sair do saco de dormir, ir ao banheiro e descer para alguns minutos com a família que nos hospedava. A vida de carioca dormia tarde e madrugava cedo, para amanhecer já na estação Bangu, em direção à Central do Brasil. O sábado não foi diferente, a única surpresa seria que, ao atender o pedido do Papa Francisco, a juventude permaneceria dormindo nas areias de Copacabana. O que não seria novidade seriam as filas, que só podiam ser vividas em sentido de sacrifício e peregrinação. Mas dessa vez ultrapassava todas as experiências de espera vividas até então: eu subiria no palco e me encontraria a 10 metros daquele que veste branco e calça o par de sapatos surrados.

996868_548061218590214_1427585834_n

Metro na ida para Copacabana.

Se a vida é feita de desafios, o dia a dia daquele que vive (ou esteve no Rio por uma semana) não é diferente. A cidade maravilhosa convida para  sua beleza, mas morar nela exige. Para aquele trabalhador que acorda cedo, exige horas de metrô e trem para chegar ao centro, muitos minutos em filas e demasiada paciência. Esperar teve que ser uma das experiências de Jornada Mundial da Juventude, e a melhor maneira de vive-la era na alegria de quem estava embalado pela simplicidade e humildade do argentino

As primeiras  8 horas do sábado – das 7 às 15 – foi de caminhada, já que era dia de peregrinação e por isso os metros não estavam funcionando. O Papa estava em seus compromissos, e a juventude do papa esperaria ansiosa sua chegada. No palco, muitos shows e o  flashmob, com a participação de padres e bispos (foi um dos momentos mais surpreendentes da primeira da tarde). Atrás do palco, um grupo com cerca de 100 jovens de todas as nacionalidades que ali estavam. Fui convidado e me propus com alegria a esperar embaixo do sol  a organização dar sinal verde  para que pudêssemos olhar nos olhos de Francisco e nos alegrar com sua simpática mais de perto. Foi dali que pude notar melhor a humanidade em suas palavras, melhor entender a sensibilidade daquele que pede que a Igreja seja mãe que acolhe no contato, e não por cartaz e documentos. Ao denominar a Igreja como mãe, diz ser necessário “a presença dos jovens e de seu entusiasmo, criatividade e alegria.

Já anoitecendo, é subido ao palco. Não demorando mais que 20 minutos, Papa Chico começa a atravessar a praia com seu papa móvel que já não é uma caixa de vidro. Ao chegar diante do palco e perto de onde nós estávamos, decidiu subir a rampa a pé – até por que quebrar protocolo é com ele mesmo. A noite quente carioca adentrou sob apresentações que contaram com nomes como Toni Ramos e Luam Santana. A partilha de experiência e situações difíceis partilhadas por 4 jovens mostraram como encontraram razões para viverem na fé. É aí que Francisco pede que façamos de nosso coração um terreno sensível para as debilidades humanas, para aqueles que não tem um prato de comida ou escola para estudar.

 A sensibilidade ao falar com nós jovens me chamou a atenção. Com mais de 3 milhões de peregrinos o ouvindo, o Bispo de Roma usou a metáfora do futebol para mostrar que até mesmo os profissionais do esporte precisam de treinamento. É preciso que nós jovens sejamos revolucionários, que busquemos as projeções de melhores realidades e que não sejamos cristãos de fachada, só pela metade.

 

Papa Francisco assiste apresentações na noite em que os jovens dormiriam nas areias de Copacabana.

Papa Francisco assiste apresentações na noite em que os jovens dormiriam nas areias de Copacabana.

O Domingo: fim de JMJ

O domingo amanheceu no calor, que já não era só humano. O Rio de Janeiro voltou aos seus típicos 30 graus. Esse seria o último dia de JMJ, mas o primeiro do mandato de ir aos porões da humanidade, proposto por Francisco na noite passada – no sábado de vigília. Se for obedecido o Papa, a juventude promoverá a revolução como início da missão de ser chamado a promoção da vida digna, como aquele que diz não a violência. Essa foi a mensagem daquele que veio de Roma, como quem traz esperança aos jovens. Sua homilia de domingo trouxe a necessidade de nos fazermos discípulos e missionários – essência da Igreja que é Missionária -, para que todos sejam receptores da Boa Nova que deve ser libertação. Na metáfora da criança que passa fome e não tem escola, Francisco provou que a utopia pode sim – e deve –  projetar a libertação daqueles que sofrem. A JMJ se encaminhava ao fim como a mesa onde 3 milhos e 700 mil jovens comungavam o amor na transformação.

Papa Francisco na vigília de Sábado.

Papa Francisco na vigília de Sábado.

Todos os quilômetros caminhados tiveram como resultado algumas bolhas. As horas de filas. A chuva. A fome. Quando nos capacitarmos para compreender todas as dificuldades sob o exemplo da compaixão para aqueles que sofrem, conseguiremos entender a verdadeira mensagem do caminho percorrido até então. A doação é necessária para que a cultura da paz se perpetue. A alteridade, o por-se no lugar do outro como quem constroem um infinito diálogo de infinitas possibilidades, é a conservação da vida, caso contrário surgirá a alienação pela fé.  O projeto condoreiro de quem luta pela justiça – a exemplo de Jesus Cristo – sobrevoa a humanidade e faz todos discípulos missionário quando comprometidos à restabelecer a dignidade daqueles que sofrem. A JMJ deve ser constituível para a revolução que pede paz e amor. A Jornada Mundial da Juventude foi um insistente convite para sermos discípulos missionários da mensagem profética do Evangelho que busca vida plena.