Manifestantes, vereadores e a falta de diálogo

Passo Fundo vive a ágora – praça –  Grega ao recordar a lógica da política antiga que trazia as decisões para a praça, como exemplo de democracia participativa. Manifestantes fazem da Câmara Municipal de Passo Fundo sua casa desde segunda-feira, dia 8, quando um grupo com cerca de 20 pessoas ocupou a sede do Poder Legislativo após a sessão do dia. Como sequência dos 12 atos realizados na cidade desde as primeiras manifestações, a ocupação do espaço público vem relatar as inquietações dos movimentos sociais quanto à falta de negociação entre poder legislativo e população.

Tendo como principais revindicações a revogação imediata do aumento das passagens, a licitação para a contratação do transporte público e a alteração do horário da sessão da câmara das 15 para as 18 horas, os manifestantes fazem desses direitos o porquê de ocuparem o local.

Márcio Patussi fala aos manifestantes as decisões dos vereadores

Márcio Patussi fala aos manifestantes as decisões dos vereadores

Sobre as reivindicações, o vereador Márcio Patussi, atual representante do Poder Legislativo, posiciona a câmara como quem já se propôs a realizar uma audiência pública através da Comissão de Bem Estar Social – Cebes. Sobre a segunda reivindicação, a instauração de uma comissão parlamentar para que se levante a necessidade de licitações para o transporte público, o vereador lembra que a mesma já foi proposta em sessão, porém não obteve as assinaturas necessárias para a organização do parlamento – assinaturas que não chegaram a sete. Quando o assunto é à mudança do horário das sessões, Patussi ressalta a economia de se permanecer com as sessões durante a tarde. “O que nos podemos ofertar, e assim o faremos, é o agendamento dessa audiência pública que é uma das pautas de reivindicação” comenta o vereador.

Diante a mudança de horário das sessões para a 15 horas,  o jovem que encontra-se a 3 dias na Câmara, Guido Lucero, diz que o corte de custo pode acontecer através da diminuição dos salários dos vereadores e dos cargos de confianças que esses sustentam. “Se a gente vive em uma democracia, ela faz com que todos estejam presentes, e todo mundo decida. Como o povo vai se fazer presente em horário de trabalho? Quando o comércio está aberto? Quando as escolas ainda estão funcionando? Sinceramente se é para haver corte de gastos, comecemos pelos salários dos vereadores. Não por cortar a participação do contribuinte, que é quem mantem essa casa”, ressalta o estudante de letras, Guido.

Parte da polêmica encontra-se nos cartazes que emplacam a bancada dos vereadores. Frases como: “da copa eu abro mão”, “queremos $ pra saúde e educação”, “2,60 é um assalto”, “procura-se políticos honestos”, “os vândalos são vocês e estão no poder”, expressam a indignação com a política e a atuação governamental do momento. Os manifestantes exigem a permanência dos cartazes para a próxima sessão, que viria a ser hoje. “A câmara alegou que não podia deixar os cartazes por uma instrução legal e normatizada, a qual não nos foi apresentado” relata Luis Guilherme Fagundes, um dos estudantes que permanece na Câmara sobre a posição tomada pelos vereadores quanto à permanência dos cartazes.

Na tentativa de convenção entre Câmara e manifestantes, na manhã de hoje o vereador Márcio Patussi recebeu uma segunda petição. Essa solicitava a assinatura de um número de 12 vereadores – sendo no total 21 – como compromisso de iniciar o debate sobre as questões propostas em um prazo de 30 dias. “A todo tempo nos procuramos o diálogo, o equilíbrio nas manifestações, tanto do poder, quanto dos ocupantes, e entendemos também que algumas reivindicações propostas por eles são de nossa responsabilidade, mas aquilo que nos podemos oferecer nesse momento, de imediato, é o agendamento da audiência”, comenta o vereador sobre as futuras posições da câmara.

Luis Guilherme Fagundes

Luis Guilherme Fagundes

O impasse pela permanência dos cartazes colocou abaixo toda a negociação feita até a manhã do dia de hoje, 10,  quando os manifestantes decidiram que não tirariam os cartazes da plenária. “Nós dissemos que não iríamos tirar os cartazes, e mantivemos a posição de que não tiraríamos os cartazes. Mantendo essa posição, frente ao vereador Márcio Patussi, ele nos disse que então, toda a tratativa do dia anterior, referente a sessão plenária, estava encerrada e nada do que tinha sito tratado ali continuaria valendo” comenta Luís Guilherme Fagundes.

Conforme o vice-presidente do Legislativo,  Márcio Patussi, os vereadores decidiram aguardar a saída dos manifestantes até a próxima sexta-feira. Caso isso não venha a acontecer, a direção da Câmara pedirá via Ministério Público a desocupação do local.