25 de Janeiro de 64: um dia de poder à Passo Fundo

Seguiremos nossa tradição de luta. Não falharemos ao Brasil nesta hora de angústia, mas também de glória, porque a pátria se ergue para liberta-se da demagogia, da opressão, da mentira e da corrupção. Espero que cada um cumpra com o seu dever. – Discurso do governador Ildo Meneghetti ao chegar em Passo Fundo, em 25 de janeiro de 1964 durante a Ditadura Militar.

Interesses políticos que buscavam vida longa ao governador em época de repressão e embate: foi o que fez de Passo Fundo a sede do governo da República Rio-Grandense durante três dias em 1964. O governador se instalou no prédio do Quartel do 2° Batalhão Policial da Brigada Militar no município. A escolha do local se deu devido uma reforma  que a edificação recebeu dez anos antes, no dia 10 de dezembro de 1954. Assim, os olhos e a atenção de simpatizantes e não simpatizantes da ditadura se voltaram para cá novamente. Em outra oportunidade isso já havia ocorrido, porque o 3° Regimento de Cavalaria participou também, em 1939, do patrulhamento das fronteiras com a Argentina durante a 2ª Guerra Mundial, como principal força armada do Estado.

[stextbox id=”custom” caption=”Anos de “glória”:”]“Em 23, com a Segunda Revolução Federalista, maragatos e chimangos, Passo Fundo já teve uma participação importante. Depois, em 1930, quando Vargas passa por Passo Fundo ao subir para o Rio de Janeiro onde seria o Golpe. E na Revolução de 32, onde muitos passo-fundenses morreram. Sempre tivemos uma participação militar muito forte, até porque foi tradição gaúcha militarista de andar sempre armado”, ressalta o historiador e Secretário de Desporto e Cultura da cidade de Passo Fundo, José Ernani Almeida.[/stextbox]

Foto: Fabiana Beltrami

“O temor era que se repetisse a legalidade. Que os brisolistas atacasse. Então Meneghetti traz seu governo para Passo Fundo” José Ernani de Almeida.

Verão de 64
Com discurso tentador de sacrifício pela suposta honra de seus filhos, o governador Meneghetti, representante do Partido Social Democrático (PSD), transferiu a sede do governo gaúcho para Passo Fundo.  “O temor era que se repetisse a legalidade. Que os brizolistas atacasse. Então Meneghetti traz seu governo para cá. As fotos mostram o governador em frente de metralhadoras, barricadas, como se viesse um ataque fulminante. Aqui é um centro rodoviário importante, e na época ainda ferroviário. Então se você controlasse o Planalto Médio, você teria um ponto estratégico” comenta José Ernani.

Ditada pela prudência que previa garantir na presidência o regime militar, o clima de inquietação que rondava o Estado dos gaúchos se agravou quando o doutor Leonel Brizola impulsionou a possível nova campanha da legalidade, como aquela que veio destituir o presidente em 1961. Esse foi o fato que marcou o verão e permitiu a pressuposição de um confronto armado, já que a dúvida de quem apoiar – pró-governo ou revolucionários – rondava os generais que comandavam as tropas gaúchas. O Exército que representava a República, estava dividido. A única consequência que podia se prever é que, em caso de ataque, o mesmo seria na Sede do Governo, na Capital Porto Alegrense.  “Era preciso sair de Porto Alegre. Do ponto de vista militar, se estava melhor protegido aqui em Passo Fundo. Porto Alegre estava sujeito a um ataque pelo mar ou mesmo através da base aérea de Canoas, já que não se sabia se essa base  estava a favor ou contra o golpe. Havia a possibilidade do exército ter aderido a revolta de Brizola”, comenta Ernani ao falar da segurança da atual capital durante a revolta.

Restou Passo Fundo. A cidade contava com amplo quartel e forte milícia. Entretanto, outras histórias também contam que a estadia do governador pelo Planalto Médio foi resultado de um mal entendido. “Teria o governador dito para o seu motorista ‘pé no fundo’ , vindo este a entender ‘Passo Fundo’. Mas a questão é estratégica mesmo”, fala aos risos José Ernani.

Soldados! Transferi, nesse momento, meu governo para esta Unidade. Não sei qual o destino que nos aguarda, nem o sacrifício que teremos de fazer. Mas sei que devemos cumprir com honra o nosso dever de lutar com dignidade por aquilo que julgamos justo e certo. Chegou a hora em que o Rio Grande pede o sacrifício supremo de seus filhos. Não negaremos esse sacrifício. Parte do discurso de Meneghetti ao chegar na cidade. “Por outro lado foi arriscado vir à Passo Fundo. O governo não lembrou que aqui era terra de brizolistas. João Goular tinha ligações com a família Salton, tradicional na cidade.  Mesmo assim, vieram pra cá”, diz Ernani.

“Entramos na história, mas não foi uma forma boa de chamar atenção. Passo Fundo vai ter depois fortemente o movimento estudantil, a prisão de toda bancada do PDT, o Tasca foi aprendido pelo seu movimento com estudantes. Já em 79, o movimento dos motoqueiros, com alguns jovens baleados. Passo Fundo como capital do Estado foi um momento pontual“, diz Ernani.

Contexto da Ditadura por quem a vivenciou! 

Porque esteve presente nos movimentos estudantis de 64 e investigou os fato ao longo de sua caminhada acadêmica, o historiador Ivaldino Tasca contextualiza os anos de ditadura como um momento de rompimento das forças dos  movimentos populares. “Nós tínhamos um ambiente de eferverscência, e tivemos o golpe que truncou e proibiu algumas coisas. Ou tu fica quieto ou acha uma forma escondida de continuar falando”.

Foto: Nathalia Leal

“O pior do ser humano ao se apresenta a ditadura, é que a vítima não tem para quem apelar. Não precisaríamos chegar onde chegamos”, Ivaldino Tasca.

“Eu lembro de um fato bem típico: eu tinha feito o curso com Paulo Freire sobre o método de alfabetização de adultos, que na época foi muito badalado. Havia essa preocupação com a alfabetização dos adultos, é um problema atual e na época era pior. Após fazer o curso em Porto Alegre, a gente começou o curso em Passo Fundo e a primeira repressão que eu recebi, como ser humano, da ditadura, foi suspender o curso. O Paulo Freire era tido como subversivo e, portanto, o curso levava a subversão. Conseguimos concluir, mas só na clandestinidade, foi difícil. Então você passou de um momento de eferverscência e abertura na busca de um novo Brasil, para um momento …  “, conta Tasca sobre uma de suas experiências com a Ditadura de 64, a mesma que implantou a sede do governo estadual em Passo Fundo.

O governo com sua comitiva, viajou secretamente, fazendo do 2º Batalhão da Brigada Militar sua sede, e do Hotel Turis, sua casa. Essas iniciativas eram parte do golpe militar que instituía uma ditadura e quebrava a normalidade democrática do país. Os anos de chumbos também fizeram parte da vida dos passo-fundenses.

“Talvez o positivo em Passo Fundo ter virado capital é que entrou para a história. Não estaríamos conversando hoje se Meneghetti não tivesse vindo pra cá e implantado a capital aqui. Mas na minha ótica, a ditadura traz muito pouco de positivo. Há uma sensação de algo novo em um momento de crise. Se vislumbra algo novo e diferente, mas a história mostra que as coisas ficaram pior do que estavam com esse sistema ditatorial. Estamos condenados naturalmente a viver junto, mas viver junto na marra não é legal. Se democraticamente é difícil, imagina em uma ditadura. O pior do ser humano ao se apresenta na ditadura, é que a vítima não tem para quem apelar. Não precisaríamos chegar onde chegamos. O Brasil está passando por um período terrível e minha preocupação  é que é assustador o número de pessoas que dizem estar com saudade da ditadura”, comenta Tasca.