Märchen: fantasia ou realidade? – PARTE I

A menina desobediente

Há quem diga que era stripper.  Há quem diga que era assassina.  Também há quem diga que era uma pobre menina. Quais serão os mistérios por trás da história de Chapeuzinho Vermelho?

A história da amável garotinha que usa capuz vermelho é uma das mais antigas da humanidade. Além de educada, a menina ainda mostra bom coração ao atravessar sozinha o bosque, ir até a casa da vovó doente e lhe entregar doces. Ela é datada a partir do século XIV e adaptada pelos irmãos Grimm no século XIX. Desde seu surgimento a história recebeu diversas alterações, mas a clássica versão do confronto entre uma criança indefesa e um lobo faminto é a mais conhecida.

Agora, pensem: já imaginaram a hipótese de que o que nos contaram quando crianças fosse história de gente grande?

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“Quando a vó de Chapeuzinho passa a capa, transfere junto com a mesma sua sensualidade”. Jacqueline

Chapeuzinho Vermelho, em sua origem, era um conto voltado ao público adulto que se reunia perto de uma fogueira e dialogava sobre assuntos proibidos às crianças. Proibidos? Por que? Na época, temas relacionados à sexualidade eram vistos com maus olhos. Chapeuzinho Vermelho têm raízes no sexo, no despertar da maturidade feminina, no desejo do corpo oposto. A professora da Faculdade de Artes e Comunicação, Jacqueline Ahlert, diz que o conto tenta resolver problemas reais dos sentimentos humanos e que ele deixa claro as mudanças que acontecem na vida da garota. “Chapeuzinho mostra os ritos de passagem da infância para a adolescência na menina”.

Signos encontrados no conto, como a capa vermelha, deixam claro o tom sexual explícito na história. A professora da Faculdade de Artes e Comunicação, Maria Goretti Betencourt, comenta que o capuz representa bem mais do que se pode imaginar. “A capa vermelha que ela usa na verdade é um signo da menstruação da menina. Na medida em que ela menstrua, está saindo da vida de criança e entrando na vida adulta”. O lobo mau também tem uma conotação sexual, como explica Goretti. “O lobo é a figura masculina na história, é visto como um predador e o homem na sua virilidade é um predador atrás da caça”.

Outro fato que intriga é o motivo pelo qual a doce menina desobedece a mãe. Ela escuta aquele que, visivelmente, representa perigo. Para Goretti, esse tipo de comportamento se assemelha as nossas próprias escolhas na passagem da infância para a adolescência. “Ela escuta o lobo, porque nessa fase a mãe é quem se escuta menos. É melhor ouvir os apelos e desejos sexuais, por isso é bem mais sedutor e misterioso ir pelo caminho da floresta do que ir pelo caminho do rio que não tem graça nenhuma”.

As perguntas feitas ao lobo, momentos depois do mesmo supostamente ter devorado a avó da garota, vestido sua roupa e deitado na cama chamam a atenção. Seria evidente que a senhora adoentada, por mais velha que fosse, não teria aparência de um lobo selvagem. No momento em que a menina vê a figura na cama, a admiração e a curiosidade falam mais alto. As respostas do lobo soam interessantíssimas para a doce criança.

[stextbox id=”custom” caption=”Perguntas ao lobo” float=”true” align=”right” width=”300″]

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Que olhos grandes você tem?

– São para te ver melhor.

– Que orelhas grandes você tem?

– São para te escutar melhor.

– Que nariz grande você tem?

– É para te cheirar melhor… [/stextbox]

Está faltando uma, não é? A verdade é que a mesma é a mais estimulante. A professora Goretti diz que todas as perguntas e respostas tem uma forte presença do desejo sexual, pois o lobo, comparado a uma figura masculina, é observado e também observa.

– E que boca grande você tem?

– É para te comeeeer.

A última expressão usada pelo lobo, antes de atacar Chapeuzinho, tem e sempre terá duplo sentido. Seu significado é conhecido em diversas culturas, desde as mais sofisticadas até as menos reconhecidas.

A figura paterna, por mais que não apareça explícita no contexto, também se faz presente com o lenhador. Ele, nada mais é do que o ser que salva a menina das garras de um lobo faminto por carne jovem, a deixa fora do perigo e retarda a entrada da criança na vida adulta e, consequentemente, sexual.

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A finalidade do conto, vista pelo olhar da série Märchen, não é muito complicada de se entender. Ele deseja mostrar para as meninas que em algum momento de suas vidas irão se deparar com lobos, enfrentarão seus desejos e terão que se responsabilizar por seus atos. Para a professora Jacqueline, Chapeuzinho Vermelho traz muitas morais para a vida cotidiana. “Ele já foi estudado por muitos analistas, filósofos e psicanalistas e o que todos concordam é que o “chapéu” da sexualidade, que não poderia ter outra cor a não ser o vermelho, nunca desaparecerá da vida de uma mulher”. Com tantos mistérios fica difícil saber se a garotinha de capa vermelha era uma criança ingênua ou uma ninfeta devoradora de “lobos”.

Gostaram? No próximo capítulo da série “Märchen: Fantasia ou Realidade?” você vai desvendar os mistérios de Branca de Neve e os Sete Anões. Até lá!