Märchen: fantasia ou realidade?

Partimos do real: você já sabe que Papai Noel não existe e que a Branca de Neve é criação dos irmãos Grimm, não é? Ótimo, então já podemos entender as histórias que embalaram nossa meninice. Parabéns, você teve uma infância feliz, mas agora é a hora de descobrirmos o que há por trás de tanta inocência.

[stextbox id=”custom” caption=”Por que Märchen?” float=”true” align=”right” width=”300″]Märchen: vêm do idioma Alemão e significa Contos de Fadas. A palavra é usada no país para denominar os contos e histórias que são narradas para as crianças e que inspiraram os irmãos Grimm a transformar a tradição oral em escrita.[/stextbox]

Roteiros peculiares que tem como final o clássico “felizes para sempre”, bruxas narigudas com verrugas estrondosas, torres que prendem sonhos e amores, lobos que destroem casas e engolem vovozinhas. Por maior que seja a desordem dos contos, não há um que não nos surpreenda, mesmo que esse carregue tonalidades rosa.  É no desfecho lógico que o final da história organiza a desordem e ganha os leitores. Mas o que os contos escondem?

O vermelho da capa? A maça da bruxa? A casa construída pelos porquinhos? São esses alguns dos detalhes que dão rumo as histórias, mas qual o real sentido de tudo isso? Todas as histórias que conhecemos foram gestadas pelos mesmos sentimentos humanos: ambição, inveja, generosidade, ciúme, ódio, fidelidade, traição e muitos outros. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, Os Três Porquinhos e Shrek escondem mais mistérios do que imaginamos. Nessa nova série “Märchen: fantasia ou realidade?”  desmembraremos cada uma das histórias citadas acima. Antes de tudo, vamos conhecer um pouco mais da história dos Contos de Fadas.

Que comece a desconstrução do mundo imaginário em
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O “Felizes para Sempre”,  que sempre se repete

A jornada que rege qualquer conto de fada tem sua estrada já traçada. Há uma linha comum em todas as histórias que embalaram nossos primeiros anos de idade: o herói é levado a uma terra longínqua, marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas. Depois, como clímax da história, depara-se com a presença diabólica da bruxa nariguda, da madrasta má ou do lobo mau. Nessa situação é que acontece  a luta pela vida, pelo sonho ou que seja, pelo amor. O herói está presente em todas as narrativas, então tudo se resolve. Pronto: felizes para sempre! Em quantas histórias esse roteiro se encaixa?

"A base dos contos é falar dos medos cotidianos, diferente do mito que é uma narrativa mais revolucionária". Goretti

“A base dos contos é falar dos medos cotidianos, diferente do mito que é uma narrativa mais revolucionária”. Goretti

A professora da Faculdade de Arte e Comunicação da UPF, Maria Goretti Betencourt, explica o porque do final se repetir em todas as histórias. “O final feliz é uma espécie de esperança que todos temos, de encontrar nosso par perfeito, de viver feliz para sempre e sem nenhum problema. Claro que essa compreensão simplificada está apenas no mundo da fantasia, por isso que ele sempre termina da mesma maneira”.

Além do típico “felizes para sempre”  que hoje não surpreende ninguém, – mas que continua a agradar a todos – a separação das personalidades em categorias também está presente. Bons são bons e de certa forma, sem graça. Maus são maus e apimentam qualquer história. A professora Goretti esclarece a importância dessa característica na construção da identidade da criança. “Para a criança é importante se estabelecer o que é certo e o que é errado, já que ela se inspira e se projeta na história”, ressalta.

Outro elemento que está presente é a figura semi-divina e mágica que ajuda o herói da história. Conhecidas na mitologia como fêmea do elfo, as fadas tiveram suas primeiras  aparições na literatura dos escritores Joseph Ritson e Pompônio Mela. A origem da palavra fada deriva do grego, fatum, que significa fado, destino. Dessa forma, acredita-se que elas intervêm de forma mágica na vida das pessoas. Goretti fala que as fadas madrinhas são como anjos da guarda e necessitamos de uma figura que nos traga paz.

[stextbox id=”custom” caption=”E a Fada do Dente?”]Uma das mais conhecidas histórias envolvendo as pequeninas de asas é a tradição da fada do dente. A cultura segundo qual a “Fada do Dente” virá à noite para trocar o dente de leite por presente é contada em diversos países como Portugal, Canadá, Estados Unidos e Brasil. Suspeita-se que essa tradição foi herdada dos Vikings, que trocavam dentes por presentes há mais de mil anos atrás.[/stextbox]

Esse tipo de linguagem – dizer para o inconsciente – permite o diálogo entre o mundo dos castelos que estão muito distantes, com o mundo dos prédios e das fortalezas humanas do século XXI. Através da criação do maravilhoso, autores conseguiram comunicar valores e sentimentos ao concretizar imagens que correspondem a determinadas realidades.. É esse modo de conversa entre os séculos que permite a criança – e quem não é criança? – a continuar interessada na história, mesmo que essa seja contada a partir de um abismo de diferenças de época e costume. Entre os autores que estudam os mistérios dos Contos de Fadas, está a psicanalista Diana Corso. A escritora gaúcha  escreveu “Fadas no Divã” e “A  Psicanálise na Terra do Nunca”. Ambos tratam a psicanálise nas histórias infantis.

A partir de hoje você acompanha aqui a nova série “Märchen: fantasia ou realidade?”  que vai recontar as histórias  que marcaram – e ainda marcam – o imaginário infantil. Surpreenda-se ao conhecer um pouco mais  dos Contos de Fadas!