Onde está o negro na sociedade?

Em novembro, no dia 20, comemora-se o Dia nacional da Consciência Negra. Para refletirmos um pouco a respeito do negro na sociedade atual, o Nexjor bateu um papo com o advogado e professor Jonas Benites. Mestre em Ciências Sociais pela Unisinos e professor convidado do Programa de Pós Graduação em Educação da  UPF, Benites desenvolve trabalhos e pesquisas sobre teoria social contemporânea, multiculturalismo, identidades, sociabilidades e cultura afro-brasileira.

Motivos do racismo
Os negros foram trazidos para o Brasil para serem escravizados no século XVI pelos europeus, que implantaram um sistema econômico baseado na força de trabalho escravo, explica Benites. Essa condição de vida criou a ideia de o negro como um objeto, um instrumento de trabalho. “Essa ideia se preserva no imaginário social de forma insidiosa, consciente ou não, ao longo da sucessão de gerações”.

Assim, os brancos estão relacionadas as pessoas dotadas de saber, de racionalidade e disciplina, enquanto os negros trazem o estigma de escravo. Benites salienta que foi criado uma espécie de ‘gradiente étnico’ no Brasil. “A cor e as características físicas operam como ‘marcas’ de forma inseparável – de raça e a condição social”, .

[stextbox id=”custom” caption=”“Política do Branqueamento” “]Para o professor, estabeleceu uma ideia de nação com características e cultura europeia, buscando branquear a população brasileira, que no período pré-abolição era entorno de 64% de cor negra, abrindo espaço para a imigração de pessoas de cor branca. “A política proposta pelo governo brasileiro previa que até o ano 2010 não haveria mais pessoas negras no Brasil”.[/stextbox]

485077_3457097845268_1610448573_n

Auto preconceito
Para compreender a problemática do afrodescendente, é fundamental entender a maneira como ele se desenvolveu na sociedade. “A pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo, o estigma de ser um objeto de uso como instrumento de trabalho e tem de lidar” afirma.

Muitas vezes, os afrodescendentes julgam-se inferiores, pela sua raça e a sua condição social. “A escola e a mídia têm se mostrado fontes de retroalimentação do processo de discriminação racial e de diminuição da importância da cultura negra no país e no mundo”. Na mídia, os negros são representados por meio de imagens estereotipadas, expostos em posições subalternas em relação ao branco, desprezados e sem atributos estéticos, algo que pode ser claramente observado na teledramaturgia.

Já na escola há uma histórica distorção da realidade, com uma reprodução de inverdade ou omissão de fatos. Fazendo dos povos africanos e seus descendentes, como “tribos” sem cultura, estatística no tempo, alheias ao conhecimento ou não contramão do progresso. “É natural e comum que os afrodescendentes absorvam as crenças e valores da cultura branca, considerada superior, inclusive as associações entre ‘branco-positivo’ e ‘negro-negativo’, tendem a desvalorizar o mundo negro, ou mesmo considerá-lo insignificante para suas vidas”, .

Evolução no tratamento do negro
De acordo com Benites, as recentes transformações no tratamento do negro na sociedade brasileira são fruto de ações reivindicatórias dos movimentos sociais, seja através de políticas públicas de igualdade de oportunidades e/ou da equidade no acesso a direitos humanos e sociais. Nesse sentido, temas como intolerância religiosa, ações afirmativas na educação, saúde da população negra, violência contra a juventude negra, história e cultura afro-brasileira e africana, entre outros, até então invisíveis no seio social. “Os negros (re)aparecem como pautas em redações, em congressos científicos, em universidades, até mesmo, como forma de leis que destacam a importância do reconhecimento da especificidade dessa população”, observa.

[stextbox id=”custom” caption=”Um exemplo de lei é: – Lei 10.639/03 -“]Torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados. Torna de suma importância (re)definir em que medida e de que modo o reconhecimento multicultural faz parte da construção de identidades individuais e coletivas. Pois, compete à escola, uma das principais instituições sociais modernas, a capacidade de reproduzir uma estrutura de legitimação e/ou impulsionar a transformação de valores, tecnologias e construção de conhecimentos e interesses dominantes.[/stextbox]

Cotas sociais
Benites acredita que através de políticas públicas, como as cotas, consegue-se um pouco mais de igualdade social além de reconhecimento das “necessidades particulares” de indivíduos e da condição de cidadão. Contudo, ele destaca que “é necessário que a sociedade tenha a clara percepção de que o princípio de igualdade de oportunidades para todos, é ineficaz para os membros que pertencem a grupos historicamente discriminados”.

 O negro na mídia
“Inicialmente, o personagem negro, oscilava entre a absoluta invisibilidade na TV e a rara aparição com mensagens estereotipadas ou negativas. O espaço midiático reproduzia continuamente uma relação de dominação ou de estigmatização social” afirma.

Sobre a imagem na mídia, o professor pontua que apesar de 54% da população brasileira ser composta por negros, ainda existe pouca representatividade de fato. “Nos últimos anos houve uma maior participação, mas os seus papéis sociais continuam estereotipados, como criminosos, bufões ou indivíduos hipersexualizados”, finaliza.