Märchen: Fantasia ou Realidade? – Parte III

A dona do Sapato de Cristal

Cinderela (1)

Mais uma vez, beleza e inveja envolvem as narrativas que circulam o imaginário popular. Os contos de fadas, quando desconstruídos, revelam uma realidade não tão cor de rosa quando a que imaginamos. Assim foi em a Branca de Neve, onde a presença da madrasta que atormenta a vida da bela moça de pele branca. O mesmo enredo se repetiu com a menina do chapéu vermelho que desobedece a mãe e traz para o conto a sexualidade pré-adolescente. Pouco muda no roteiro que narra à vida daquela que calçou sapatos de cristais.

principe_cinderela

Abóbora que se transforma em carruagem.  A menina pobre que têm sua fada madrinha. O esperado príncipe heroico e viril, que atravessa reinos para encontrar sua amada. Como no conto anterior da série Marchen, o da Branda de Neve, os mistérios de Cinderela ganham corpo a partir de conflitos. Mas dessa vez os desencontros não envolvem só a madrasta.

Foto: Guilherme Cavalli

“Os conflitos fraternos estão presentes em Cinderela e nos recordam das dificuldades de conviver em grupo”. Maria Goreti

Qual o segredo de Cinderela? 

A história de Cinderela, que tem sua versão mais conhecida com o escritor francês Charles Perrault, de 1697, também traz à tona as disputas familiares que são comuns a todo geração. Não é só nas novelas de Walcir Carrasco que as batalhas entre irmãos estão presentes no conviver dos clãs.  Desde Sheakesperare e a guerra entre Capuleto e Montecchio, até Erico Veríssimo com os Cambará e Terra.   A disputa que envolveu muitos clássicos da literatura mundial, também está presente em Cinderela e é um dos pontos que a professora da Faculdade de Arte e Comunicação, Maria Goreti Betencourt comenta. “Os conflitos fraternos estão presentes em Cinderela e nos recordam das dificuldades de conviver em grupo”, ressalta a professora como uma das principais mensagens do conto.

Desde a Cinderela contada hoje, até a Gata Borralheira que inspirou a história, estão quase 3 mil anos. Na sua trajetória, essa é uma história que vai muito além do que uma simples trama romântica. Com sua característica atemporal, por estar presente em várias épocas e ter se adaptado em várias civilizações, Cinderela traduz uma espécie de arquétipo humano universal de se reconhecer como uma existência superior.

Com a conotação fetichista, Cinderela permite entender os sentidos que se escondem no conto e refletem os desejos humanos. Uma dessas mensagens é o anseio de assumir a vida adulta. “O sapato feminino, mesmo que desconfortável, assume uma postura de sedução. O que querem as crianças quando calçam os sapatos de suas mães? O sapato passa de proteção para sedução”, diz Goreti.

cinderela

“A vida sexual também é encontrada nos contos de fadas. Exemplo disso é príncipe que busca o par para encaixar o sapato encontrado”. Maria Goreti

As transformações de menina para moça

A passagem do mundo infantil para o pré-adolescente que representa a iniciação da vida sexual, também é subliminariedade encontrada em Cinderela. A moça que sofria maus tratos é resgatada por um príncipe que busca por seu par de baile. “A vida sexual também é encontrada nos contos de fadas. Exemplo disso é príncipe que busca o par para encaixar o sapato encontrado. O príncipe se encaixa em Cinderela”, revela a professora Goreti ao analisar o conto de Cinderela sobre psicanalise freudiana.

O marco divisório, que representa a passagem de ciclos, também se encontra no tempo em que o encanto se desfaz. Meia noite é o horário em que acontece a passagem para que algo de diferente aconteça. Para Goreti, a intenção do conto de Cinderela é exatamente esse, passar pela tradição oral as transformações e mudanças da menina. “O meia noite dado pela fada madrinha como prazo para o encanto, representa as modificações do processo da vida da menina que passa a mulher”, ressalta a professora.

[stextbox id=”custom” caption=”Por que Märchen?”]Märchen: vêm do idioma Alemão e significa Contos de Fadas. A palavra é usada no país para denominar os contos e histórias que são narradas para as crianças e que inspiraram os irmãos Grimm a transformar a tradição oral em escrita.[/stextbox]

Gostaram? No próximo capítulo da série “Märchen: Fantasia ou Realidade?” você vai desvendar os mistérios dos “Três Porquinhos”. Até lá.