O Carnaval que dura a vida toda

Ao que tudo indica, o carnaval surgiu de uma junção de festividades dos povos antigos. Comemorações na Mesopotâmia, Grécia, Roma e Babilônia originaram o que hoje é considerada a maior festa do Brasil. Essas comemorações típicas dos povos antigos, em sua maioria, tinham como característica principal a subversão dos papéis sociais e extravagancia de um comportamento não comum às outras épocas do ano.

No Brasil, a tradição começou no Rio de Janeiro por influência portuguesa, com uma prática chamada entrudo, onde os escravos saiam às ruas com os rostos pintados e jogando farinha e água de cheiro. Mais tarde, no fim do século XIX, essa prática foi criminalizada e reprimida. Enquanto isso, a elite do Império criava os bailes de carnaval. Mas é claro que as camadas populares não desistiram do ‘festerê’, tanto que hoje não há distinção de classes no carnaval. Por fim, novas tendências carnavalescas surgiram ao longo dos anos, formando a nossa comemoração como ela é hoje, com as marchinhas, escolas e trios elétricos. Agora que entendemos de onde veio essa mania brasileira, vamos dar um zoom e descobrir como ela chegou por aqui.

Visitando algumas escolas de Passo Fundo e conhecendo suas histórias, podemos perceber que na cidade o carnaval começou e vive até hoje por um amor e união que passam de pai para filho, de geração para geração. É o que move a Escola de Samba Unidos da Operária, que, apesar de ter esse nome há apenas dois anos, iniciou sua história há mais de 40 anos. Cerca de 100 pessoas trabalham para o desfile de 2014, entre eles, Antônio Gilmar Pereira Marques, um dos responsáveis pela escola e apaixonado por carnaval desde criança. Com 12 anos Antônio iniciou sua trajetória carnavalesca. Na escola em que seu pai desfilava, aprendeu tudo que faz dele hoje um dos grandes organizadores do desfile. “O carnaval em Passo Fundo nasceu na Escola Visconde de Rio Branco e se espalhou pela comunidade, fazendo surgir todas as outras escolas. A Rio Branco teve problemas e fechou, então foi fundada a Bom Sucesso, onde nós nos criamos e agora continuamos fazemos o carnaval com a Unidos, no lugar dos nossos pais. Comecei como neto, e agora os meus netos já estão desfilando. A gente não quer deixar morrer isso.” Conhecendo e tendo vivido quando pequeno a origem do carnaval passo-fundense, Antônio sabe muito bem a diferença dos desfiles de antigamente para os de hoje. “Era mais restrito. Apenas três escolas desfilavam, não tinha participação da prefeitura, não tinha nada. A gente simplesmente fazia uma fantasia e ia pra avenida. Os carros não eram alegóricos, eram levados manualmente. Faltava muito material, a gente tinha que comprar do nosso bolso.”

 São mais de 10 famílias envolvidas na apresentação da Escola, como conta o carnavalesco Santiago da Rocha. “Devido aos problemas com a outra escola (Bom Sucesso) a comunidade se envolveu para montar essa nova escola (Unidos da Operária)  e fazer as coisas certas. O nome já diz, ela foi feita com o pessoal da comunidade. Aqui é uma união. Nós vamos sair com 600 componentes na avenida, e todos eles são da comunidade. É aquele pessoal que foi se afastando da antiga escola e agora voltaram com a União.”

 Os organizadores trabalham desde março para o desfile desse ano e, como afirma Antônio “a comunidade é a diretoria”, existe o cargo de diretor apenas porque é exigido, mas na verdade todos são responsáveis. “Cada um que pregar um prego ou esticar um arame tem responsabilidade”.

Hamilton, fundador da Bom Sucesso, e Antônio.
Hamilton, fundador da Bom Sucesso, e Antônio.

 Em meio aos arames e carros alegóricos ainda em construção, seu Hamilton da Silva Luiz (77) se emociona ao lembrar como tudo aquilo iniciou. Quando começa a falar da escola precursora do carnaval passo-fundense, a qual ele foi um dos fundadores, a voz falha, os olhos enchem de lágrimas. “Olha só… falar da Bom Sucesso me arrepia” diz Hamilton, erguendo o braço para mostrar a emoção das lembranças.

 A escola que ele lembra com tanto carinho foi fundada em 1971. “Nós reunimos uma turma de amigos da vila e resolvemos fundar uma escola de samba. Aí entrou em votação qual seria o nome. Sempre queriam nome relacionado ao futebol, botafogo, flamengo. Mas fizemos uma votação e Bom Sucesso ganhou. No primeiro ano nós fizemos a alegoria de um peixe, isso há 50 anos atrás, mais ou menos. Pegamos redes de pescador para ornamentar a alegoria. Quando foi fundada a Bom Sucesso, nenhum de nós tinha carteira de identidade, mas como necessitava para fazer a documentação em Brasília, nós fomos todos na brigada fazer o documento.” Carnaval PF Foto Maryana Rodrigues

Conversamos também com mais duas escolas da cidade, a Coab I e a Bambas da Orgia.  Quem conta a história da Coab I é a carnavalesca Helaine dos Santos Ribeiro, que começou nos desfiles com 13 anos, herdando essa paixão de seu pai. Helaine começou na escola Visconde de Rio Branco, passou pela Bom Sucesso e Bambas da Orgia, contabilizando oito títulos.  “A Coab I foi fundada em 1/08/2007, na casa da minha mãe, onde a família e os amigos se reuniram para montar a escola. Várias famílias apoiaram a escola e lutamos cada vez mais para que o carnaval cresça na cidade. A gente viveu desde pequeno dentro do carnaval.”

Ebielquer Von Borwsky faz parte da segunda geração da Bambas da Orgia. Filho de um dos fundadores, ele trabalha no pavilhão lotado de alegorias para manter vivo o sonho da família. “A Bambas surgiu por causa da Bambas da Orgia de Porto Alegre, que era uma grande campeã dos anos 90. As cores verde e rosa foram escolhidas por causa da Mangueira, do Rio de Janeiro.” A Bambas da Orgia foi fundada em 14/01/1990 com a fusão de duas outras escolas passo-fundenses.