O trânsito, os acidentes e as motocicletas

Muitos fatores podem explicar o rápido crescimento de acidentes de moto em Passo Fundo, entre ele o tipo de treinamento feito nas autoescolas, o desrespeito às leis e a facilidade e rapidez que o veículo proporciona nas ultrapassagens.

Pista de treinamento

Nas autoescolas o treinamento para andar de motos conta com 40 aulas práticas, mas em nenhumas delas o aluno sai na rua. Todo treinamento é feito em uma pista coberta.

Um levantamento feito pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo mostrou que o número de mortes de motociclistas no país aumentou 18% nos últimos dois anos. De acordo com dados divulgados pela Seguradora Líder DPVAT, a frota de motocicletas no Brasil teve um crescimento de 357% no período entre os anos de 2000 a 2011 e segundo um documento das Nações Unidas, perto da metade das vítimas de acidentes de trânsito no mundo são as denominadas categorias vulneráveis (pedestres, ciclistas e motociclistas).

As estatísticas nos dão uma boa noção de como ainda é ruim o cenário de acidentes com motocicletas no país. Seja por imprudência dos próprios motociclistas ou condutores de outros veículos, os números são muito alarmantes.

Nas autoescolas, o treinamento de moto é de 20 aulas teóricas e 40 práticas, sendo que em nenhuma delas o aluno tem total noção de como é o trânsito. O grande problema também é o local onde é feito o treinamento dos alunos, em uma pista coberta, em momento alguns os alunos saem na rua. “Não tem como você preparar um aluno para ir pra rua, se na hora de ensinar a gente possui um espaço limitado”, comentou o Instrutor de trânsito Rodrigo Antônio Nunes.

Segundo Nunes o principal motivo dos acidentes envolvendo motos é a autossuficiência de boa parte dos condutores. Para ele maioria dos acidentes só acontecem por que o motorista se sente seguro nas ruas, e acaba abusando da velocidade ou fazendo ultrapassagens perigosas. “A maioria das pessoas que vêm tirar a habilitação para motocicleta já sabe dirigir e já possui o veículo, eles só querem o documento. Eles já se sentem seguros no trânsito dirigindo do jeito deles, do jeito errado, e depois de conseguirem a carteira ele se sentem ainda mais seguros para fazer o que já faziam”, explicou.

Apesar do espaço limitado no treinamento da autoescola, os alunos são sempre instruídos a usar os equipamentos de segurança, já que o motorista fica muito mais exposto nas motocicletas. Ainda assim, os equipamentos nem sempre são capazes de proteger os motociclistas de lesões em acidentes. As principais fraturas são de perna, no fêmur, quadril, geralmente membros inferiores, e cabeça. Segundo a enfermeira responsável do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Adriana Lourega, os motoristas de Passo Fundo usam os equipamentos, mas nem sempre de maneira correta, o que agrava as lesões. “O capacete só vai proteger se for bem fechado e com a viseira baixada. Outros equipamentos que não vemos muito na cidade são caneleira e cotoveleira, e evitariam muitos traumas,” completou. O capacete é o equipamento que oferece a maior proteção, a sua estrutura absorve grande parte do impacto, reduzindo as lesões de face, crânio e cérebro, a não utilização dele aumenta a incidência de lesões no crânio em mais de 300%. “São vários tipos de colisão, colisão frontal, lateral, onde as vitimas podem ser arremessadas, ser atropeladas por outros carros que estão passando”, completou Adriana.

De acordo com dados da Guarda Municipal de Passo Fundo, nos dois primeiros meses desse ano foram registrados 34 acidentes envolvendo motocicletas. Mas esse número é muito maior, já que a Guarda trabalha apenas com acidentes que causam danos materiais, nos que não ocorrem lesões. As motocicletas representam 22% dos veículos envolvidos em acidentes fatais. Se o risco de morrer em uma colisão de automóvel já é significativo, a depender das circunstâncias do acidente, sobre uma motocicleta essas chances são muito maiores. Em 2011, de acordo com dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), ocorreram 72,4 mil internações de vítimas de acidentes de trânsito. Desse total, 35,7 mil foram vítimas de acidentes de moto.

O SAMU realiza diariamente 3 ou 4 atendimento de acidente de motocicletas na cidade, os quais geralmente envolvem outros veículos. As chamadas mais frequentes ocorrem no centro da cidade, na Avenida Brasil e cruzamentos.