De carona com o perigo

As histórias dos taxistas de Passo Fundo que sofrem com a falta de segurança na sua profissão

O táxi e o perigo são palavras que se entrelaçam constantemente em Passo Fundo. A segurança dos taxistas, atualmente, é vista como inexistente por Jair Geraldo, profissional do ramo há 15 anos. Em meio a todo tipo de violência, o ser humano encarregado de transportar passageiros para ganhar o seu sustento vive dramas reais no seu cotidiano. Sequestros relâmpagos, assaltos e corridas para boca de fumo são situações que o taxista está sujeito a correr.

Os assaltos são frequentes com quem trabalha nessa profissão, na cidade do norte do Rio Grande do Sul. Segundo o presidente da Associação dos Taxistas de Passo Fundo, Jair Geraldo Embarach, o ano de 2013 apresentou números baixos de ataques comparados aos anos anteriores. Segundo o taxista, foi um ano ”tranquilo”, sem muitos prejuízos com assaltos.

A segurança, tão reivindicada por milhares de taxistas no Brasil – que se cansa de presenciar assassinatos dos companheiros de profissão -, é deixada de lado para Jair Geraldo. O passo-fundense afirma que a única segurança para ele e seus colegas é a proteção de Deus. ’’O taxista corre perigo 24 horas por dia, a nossa única segurança é o senhor que está no céu’’, classifica o presidente.

A Estação Rodoviária de Passo Fundo é o local de maior frota de táxis da cidade

Na Capital do Planalto Médio, a abordagem dos assaltantes aos taxistas acontece em qualquer região da cidade. Atualmente, não há um bairro ou zona do município em que o perigo esteja mais próximo, ou que o assalto seja evidente. ’’O pessoal assalta qualquer um sem escolher, não existe mais um ponto que seja mais ou menos perigoso’’, conta o presidente da Associação dos Taxistas de Passo Fundo, cujo ponto no qual trabalha é onde se concentra a maior frota de táxis da cidade, na Rodoviária.

Embora Jair acredite que não haja um ponto que seja menos perigoso que outro, o taxista Luiz Eduardo Zonatto conta que os pontos mais deslocados do centro são mais perigosos. Devido à fraca iluminação, os taxistas não enxergam o rosto das pessoas. ’’Os pontos da Praça Tocchetto e Hospital São Vicente de Paulo são uns dos mais perigosos. O do Hospital da Cidade também é muito perigoso. Já o Municipal nem se fala, que nem tem mais taxi lá, à noite’’, comenta Luiz, que já passou por diversas regiões da cidade.

Luiz Eduardo Zonatto atualmente trabalha no ponto da Rua General Canabarro. Segundo ele, há mais de um ano ninguém é assaltado ali, mas garante que seus companheiros já foram vítimas de assaltos no local, apesar de ser muito movimentado.

[stextbox id=”custom” caption=”Preocupação dobrada”]Luiz Eduardo Zonatto é taxista há 30 anos, e já sofreu quatro assaltos – dois de forma brutal. A pedido da sua família, parou de trabalhar por um ano. No entanto, retornou ao emprego e ganhou um companheiro: o filho. ‘’Meu filho, antes de entrar no mundo do táxi, dizia para eu largar a profissão. Quando resolveu trabalhar comigo, viu que o táxi é um emprego como qualquer outro, e que você corre mais risco porque lida com o público a todo o momento na rua’’, conta Luiz. Segundo Zonatto, a preocupação da sua esposa é dobrada em casa. – A minha esposa constantemente se preocupa comigo, e agora com meu filho também – relata o taxista.[/stextbox]

Engana-se quem pensa que os assaltantes escolhem turno para efetuar a ação. Apesar de boa parte da população achar que é mais arriscado fazer uma corrida de táxi à noite – ou durante a madrugada -, atualmente não há um horário específico que ocorram assaltos. A coragem dos bandidos chegou ao ponto de não ter receio de assaltar um táxi durante a manhã ou à tarde.

Olmar Pasini é taxista em Passo Fundo há 34 anos e trata a sua profissão como um benefício para a comunidade, pelo motivo de prestar serviço para outras pessoas. O passo-fundense compõe o grupo de taxistas no ponto da Rua Coronel Chicuta, em frente ao Bella Città Shopping Center. Pasini ressalta que já foi assaltado diversas vezes, mas que uma em especial lhe marca mais pela peculiaridade do fato. ‘’Já sofri um assalto armado, com todo um planejamento organizado antes. Esse é mais um perigo que o taxista corre risco, às vezes até de pessoas que você nunca espera que vão fazer uma coisa dessas’’, lamenta o taxista.

‘’No táxi se trabalha hoje para se alimentar no próximo dia.
O taxista corre o risco da falta de segurança pela sua própria necessidade’’

Com vasto conhecimento sobre a profissão, Pasini afirma que os taxistas mais experientes da cidade identificam quando o passageiro pode ser suspeito. Além disso, revela que não se deve aceitar pedido de corrida nas ‘’baixadas’’, que são as bocas de fumo. ‘’Se o passageiro já embarcou, eu paro o carro e mando-o seguir em frente’’, alerta Olmar Pasini.

A cabine é o acessório que protege os taxistas de possíveis assaltos, mas que atualmente são pouco utilizados em Passo Fundo. No centro, três ou quatro motoristas utilizam da proteção. Em bairros mais deslocados, ninguém a utiliza. Segundo Olmar Pasini, a cabine desconforta o passageiro e o motorista, mas é a única forma de passar um pouco de tranquilidade diante do perigo. Confortável ou inseguro, ser taxista em Passo Fundo é conviver com a adrenalina e o perigo 24h por dia.