Ensino Médio Politécnico formará primeiras turmas no final de 2014

O Ensino Médio Politécnico, que passou a valer em 2012, formará neste ano em mais de duas mil escolas estaduais de todo Rio Grande do Sul suas primeiras turmas. As mudanças mais significativas no contexto das salas de aula foram a carga horária ampliada em 200 horas-aula por ano; a mudança nas disciplinas que passaram a integrar áreas do conhecimento; nas avaliações que passaram a ser feitas através de conceitos; e um plano de apoio, montado pelos professores ao aluno que não atinja desempenho satisfatório em apenas uma área.

A implantação desta mudança curricular foi feita gradativamente. Em 2012, o novo currículo entrou em vigor com o primeiro ano reformulado, e nos anos seguintes, as demais séries foram adicionadas ao modelo.

Segundo descrição da Secretaria de Educação do Estado, a mudança no ensino médio, entre outros objetivos, visa a desenvolver a formação indispensável ao cidadão e meios de fornecer-lhes um modo de progredir no trabalho e nos estudos. Ainda, pretende qualificar os estudantes quanto a ética, pensamento crítico e compreensão de fundamentos científicos, tecnológicos e de produção. As mudanças visam também a redução da evasão escolar e de repetência, além de buscar fazer com que mais de 70 mil jovens que estão fora da escola retornem ao ambiente escolar.

Em Passo Fundo, na região de atuação da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), que abrange 32 municípios e 54 escolas de Ensino Médio, estão matriculados em torno de 13,8 mil alunos, e 1,5 mil professores envolvidos em ministrar as aulas, conforme dados passados pela coordenadora pedagógica Elisena Cristiani Battistella Maidana. Segundo ela, a reestruturação que começou em 2011 com conferências em escolas, municípios e regiões escolares foi implantada com cursos custeados pelo governo estadual aos professores. “As escolas receberam recursos financeiros do governo do Estado para realização de formação continuada com assessoria de Instituições de Ensino Superior”. Em 2013, as escolas aderiram ao Programa Ensino Médio Inovador, que prevê aporte financeiro às mesmas. “Houve um acréscimo significativo nos recursos para formação continuada dos professores. Agora, em 2014 as escolas iniciaram o processo de formação pelo Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio, onde os professores que participam recebem uma bolsa mensal de R$ 200,00”, relata.

A professora da UPF Luciane Bordignon, doutora em Educação, avalia o impacto da implantação do novo ensino como a transformação do eu professor para o nós. “Era necessário uma mudança, e o principal impacto é uma forma diferente de o professor trabalhar de o aluno aprender, no sentido da metodologia dos projetos”, explica. Luciane ainda ressalta que o novo ensino dará resultados na medida em que as pessoas se engajarem com os projetos e conseguirem trabalhar de forma interdisciplinar. Entretanto, ela acredita que a aceitação e o aprimoramento do novo ensino nesses três anos está sendo boa. “O projeto requer um tempo para que as pessoas possam compreendê-lo e aprender a trabalhar dessa forma. Uma vez que a formação da maioria dos professores foi disciplinar e agora existe a perspectiva interdisciplinar”, lembra. Ao ser questionada sobre se o projeto dará certo e trará resultados, a professora fala em continuidade com ressignificação, pois as políticas não podem ter duração de quatro anos, caracterizando-se em  políticas de governo. “O que tem que se pensar são políticas de estado, que tenham continuidade, para que os objetivos educacionais sejam atingidos também a longo prazo”, avalia.

 

Principais alterações

Uma das principais alterações do chamado Ensino Médio Politécnico é a  carga horária, que  foi ampliada de 400 para 600 horas de aula em cada ano. Nessa carga horária a mais os alunos conduzem projetos de pesquisa, chamados seminários integrados abordando tópicos das quatro áreas.

A estudante Kananda Meregalli, que vai concluir o Ensino Médio Politécnico esse ano, fala sobre a boa experiência de trabalhar e por em prática projetos, mas demonstra preocupação com relação à diminuição de períodos em matérias importantes para provas de vestibulares. “Em parte é bom, pois vou saber trabalhar em projetos, mas por outro lado está cada vez pior na parte de períodos, porque estamos perdendo matérias importantes e que vamos precisar para provas como o Enem e vestibulares”, avalia.

A professora Luciane comenta que acredita que a forma dos seminários poderá seguir também para o ensino fundamental nos próximos anos. “É uma forma pertinente, pois não fragmenta o conhecimento, e compartilha, por meio da interdisciplinaridade”, justifica.

Outra alteração tem a ver com o agrupamento das disciplinas, que agora estão reunidas em quatro áreas do conhecimento, Linguagens: língua portuguesa e estrangeira, literatura, educação física e artes; Matemática; Ciências da natureza: biologia, física e química; e Ciências humanas: história, geografia, sociologia e filosofia.

A forma de avaliação também foi alterada. Foram substituídas as notas de zero a dez por três conceitos: CSA – Construção Satisfatória da Aprendizagem; CPA – Construção Parcial da Aprendizagem; CRA – Construção Restrita da Aprendizagem. As notas (conceitos) passaram a ser atribuídas nas quatro áreas, e não mais em cada disciplina. Os alunos recebem, portanto, quatro conceitos, após avaliação e consenso entre os professores.

A estudante Kananda Meregalli fala também sobre a questão das notas, uma grande mudança, e que acaba desmotivando o bom aluno. “Aluno que sempre foi nota 10 agora é o mesmo que aquele que nunca passou de um 7, e isso é ruim ao meu ver”, avalia.

Dois conceitos, entre os quatro avaliados, já permitem a aprovação do estudante. No caso do aluno apresentar desempenho insatisfatório em apenas uma área, ele pode ser aprovado, mas os professores da série seguinte são avisados de que o mesmo precisa melhorar nos conteúdos daquela área específica, tendo que elaborar um plano de apoio ao mesmo.

A professora Luciane comenta que no quesito da forma de avaliação, a alteração proposta pode ajudar, desde que seja feita de uma forma sistemática, e não apenas em provas. “Deve ser uma avaliação como um todo, do aluno. Uma avaliação permanente”, conclui.