O trabalho de quem vai além da notícia

“Minha imagem não está em lugar nenhum. Já ‘vazaram’ fotos minhas do banco de dados da polícia e foram parar até em mãos de bandidos. Cheguei a encontrar uma, numa parede, no escritório de um golpista”. O relato feito ao Nexjor é uma passagem da carreira de Giovani Grizotti, repórter investigativo da RBS TV há 15 anos.

É verdade que todo jornalismo é investigativo. Ou melhor: deveria ser, porque a pesquisa e checagem de informações deve ser a base para elaboração de qualquer notícia. Mas tratemos aqui por jornalismo investigativo aquele que trabalha com denúncias, que usam de câmera escondida a disfarces e nomes fictícios, e que, principalmente, põe em perigo profissionais que escolhem esse caminho.

Os casos mais complicados e que podem até colocar em risco a vida são feitos por jornalistas que não podem revelar a própria identidade. E não é para menos: traficantes de drogas, esquemas de lavagem de dinheiro e contrabando são pautas recorrentes nesse ramo onde a denúncia de um esquema atinge muita gente importante e perigosa. Grizotti conta que já foi ameaçado diversas vezes por telefone, carta e, ao realizar uma investigação sobre funerárias, teve seu carro interceptado pela Polícia Rodoviária Federal. Além disso, precisou sair duas vezes do estado devido às ameaças. “Tem que gostar, querer descobrir coisas, não temer riscos. E, não posso negar, há uma adrenalina por trás disso, de buscar o desconhecido”.

Seus rostos não estão gravados na retina do grande público. Talvez, o telespectador menos atento nem se dê ao trabalho de ler o nome do autor da reportagem que acaba de denunciar um grande problema da sociedade. “Não tenho menor preocupação com isso. Não quero ser reconhecido na rua, dar autógrafos. Quero só ser reconhecido pelo meu trabalho. E isso o anonimato de imagem não prejudica”, conta Giovani Grizotti, que iniciou a carreira na Rádio Horizonte, de Capão da Canoa.

Tratado como herói por alguns admiradores, Grizotti rechaça o rótulo e acredita que as reportagens são apenas o seu trabalho. Mas é um trabalho que repercute. Em 2006, a reportagem intitulada “A farra dos vereadores”, exibida no Fantástico da TV Globo, denunciou um esquema de servidores públicos que deveriam participar de cursos em outros estados, mas, na verdade, usavam o dinheiro das diárias para fazer turismo. A reportagem gerou uma série de denúncias e processos. Em 2011, Giovani Grizotti denunciou a “Fraude dos pardais”, um esquema ilícito de compra de controladores de velocidade por prefeituras. Assista:

Ameaças de torcidas de futebol e de grupos neonazistas fazem parte do currículo de Fábio Almeida, repórter da RBS TV de Porto Alegre. O jornalista segue uma linha parecida com a do seu colega Giovani Grizotti: preserva o rosto como artifício para não atrapalhar a reportagem, entretanto diz não temer ameaças. Para Fábio, o profissional que trabalha nessa área precisa ter ciência dos limites da ética. “Lidamos com assuntos sérios e tensos a cada reportagem. É necessário saber também até onde vale correr o risco. Nenhuma reportagem vale a vida”.

“Tentar mostrar o ilegal, o que algumas pessoas tentam esconder”

A frase adapta-se perfeitamente ao tema de um dos trabalhos realizado em 2011. Em parceria com Cid Martins, Fábio Almeida conduziu uma reportagem sobre o comércio ilegal de explosivos. Os jornalistas foram até Ciudad de Leste, no Paraguai, e a diversos municípios gaúchos para checar a denúncia, que se confirmou. O material entrava pelo Rio Grande do Sul e seguia para outros estados brasileiros, a fim de auxiliar bandidos no assalto a bancos e em explosões de caixas eletrônicos. Escute aqui.

“O lado bom é a repercussão que reportagens desse estilo acabam trazendo. Muitas vezes, conseguimos contribuir com a sociedade com as mudanças provocadas pelas matérias investigativas.” Fábio Almeida conta que um dos pontos negativos desse segmento do jornalismo é o tempo de elaboração das reportagens, pois é preciso identificar flagrantes, confirmações e apurar os dados obtidos. Em 2013, a reportagem Império da Areia: a dragagem que mata o Jacuí exigiu bom tempo de trabalho: “Foram quase seis meses de investigação, mais de 20 entrevistas, muitas horas de navegação e estudo de mapa e licenças ambientais. Mas houve um grande retorno social e jornalístico.” Além de importante denúncia sobre o descaso ambiental, a reportagem recebeu diversas premiações, incluindo um dos mais prestigiados do mundo, o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha.

Fontes

Para que as denúncias virem reportagens, o jornalista precisa contar com boas fontes. Giovani Grizotti iniciou na Rádio Gaúcha como repórter policial. Assim, passou a trabalhar com diversas pessoas da área, o que contribuiu para obter bons contatos e informações privilegiadas. “Hoje as principais matérias têm surgido da observação do dia a dia. Às vezes, por exemplo, tem um assunto que está no canto de página de um jornal e que pode ser o ponto de partida para uma matéria nacional”. Fábio Almeida usa as redes para divulgar seu trabalho e manter contato com fontes. “Boas pautas surgem pelas redes sociais. Um exemplo foi a matéria sobre a extração de Areia do Jacuí [citada anteriormente]. O estopim com dicas e a denúncia veio do Twitter, do sócio de uma ONG de defesa ambiental. Ele me enviou documentos e muitas informações que deram start na reportagem”.

A morte de Tim Lopes em 2002 chamou a atenção aos perigos desse nicho de reportagem. O jornalista da Rede Globo, famoso por apurar assuntos de alto risco, foi sequestrado e assassinado por traficantes no Rio de Janeiro. O episódio é uma das faces desse segmento do jornalismo. Entre a grande matéria que instiga a sociedade a cobrar providências e a câmera escondida que, ao ser descoberta, põe em risco a própria vida, há um profissional empenhado em mostrar aquilo que muitos desejam silenciar.