A geração das ‘Meninas-mães’

Primeiro a surpresa, talvez até o susto, depois as dúvidas,  incertezas e uma constatação: sua vida nunca mais será a mesma, e você já não está mais sozinha. Uma nova vida habita a sua, e durante nove meses será como uma semente que germina dentro do seu corpo, até o momento em que desabrochará. A partir daí muito amor e dedicação, uma boa dose de preocupação e incontáveis alegrias.

Ser mãe é a realização de um sonho para muitas mulheres. Mas e quando esse sonho se realiza cedo demais? Quando interrompe planos e põe na lista de espera tantos objetivos? Adolescentes vêm se tornando mães cada vez mais cedo, um problema da sociedade, dos governantes e dos próprios jovens que não fazem a sua parte.

A gravidez na adolescência é considerada um grave problema de saúde pública no Brasil. Dados do IBGE dão conta de que são cerca de 700 mil meninas que se tornam mães no Brasil por ano, as regiões que registram os maiores números são o Nordeste e o Sudeste com 13,6% e 12,3% respectivamente, onde meninas entre 13 e 15 anos já são mães. No ano de 2010 19,3% das crianças que nasceram vivas no Brasil eram filhas de adolescentes.

Gravidez na adolescência pelo mundo

De 2013 para cá os casos diminuíram, mas ainda assim estima-se que nos países desenvolvidos sejam aproximadamente 20 mil partos por dia, ou seja, todos os dias 20 mil meninas com menos de 18 anos dão à luz, entre elas, 200 morrem por complicações durante a gravidez ou no parto. Em todo mundo esse número chega a 7,3 milhões, das quais 2 milhões são menores de 15 anos. Esse número pode aumentar para 3 milhões até 2030, se a tendência atual for mantida.

O médico clinico geral, Jorge Mansur convive diariamente com essa realidade, e afirma: precisamos antes de tudo, mudar nossa posição perante o tema, “uma menina grávida tá fora do seu tempo biológico, está fora do seu tempo emocional, psicológico, esta fora do contexto de trabalho social, e ela acaba sendo discriminada. O Brasil ainda é preconceituoso”, afirma o médico.

Uso de camisinha e de outros métodos contraceptivos no Brasil é metade do necessário

Nos países desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia, são 7 milhões de meninas que dão à luz, por ano, segundo o relatório “O Estado da População Mundial 2013“, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), divulgado em outubro do ano passado. Falta de acesso à escola, violência sexual e tanto outros fatores estão ligados com o ainda, elevado índice dos casos.

“O Brasil é um dos países que avançou para aumentar o acesso a meninas grávidas a tratamentos pré-natal, natal e pós-natal”, diz o UNFPA, o relatório afirma ainda que uma série de problemas sociais está associada à alta taxa de gravidez na adolescência: “A gravidez precoce reflete a pobreza e a pressão de parceiros, família e comunidade. E em muitos casos, ela também é resultado de violência sexual ou coerção”. Ainda de acordo com o relatório, meninas que permanecem na escola por mais tempo são menos propensas a engravidar.

Como lidar com uma gravidez indesejada?

Uma gravidez não esperada traz uma série de consequências para a saúde, educação, emprego, pode se tornar um obstáculo ao desenvolvimento do pleno potencial de meninas em todo o mundo.

A interferência econômica se dá porque adolescentes que poderiam estar trabalhando e ajudando no desenvolvimento do seu país precisam se afastar de suas atividades para cuidar do filho. Com a educação ocorre o mesmo, já que há a necessidade de interromper a formação para se dedicar à criança, sendo assim para os países onde são grandes os índices de gravidez na adolescência, a perda em desenvolvimento econômico é significativa.

Mariana*  tinha só 16 anos quando teve sua primeira filha, fruto de um namoro conturbado e desaprovado pelos pais. Ao descobrir sua gravidez um misto de medo e de culpa lhe assombravam todos os dias à medida que via que não seria possível esconder o fato por muito tempo, “Eu tive medo, eu sabia que minha vida ia mudar, enfrentar os pais e as pessoas nas ruas é a pior parte, todo mundo te olha diferente, faz você se sentir mal”, conta a jovem.

A maior incidência dos casos de gravidez na adolescência se dá nas grandes periferias onde há pouca informação e o nível de escolaridade é baixo

Mariana* teve o apoio de sua família, que mesmo tendo sofrido e até condenado ela no começo, a entendeu e acolheu de braços abertos. Um ano depois, ela confessa que após o nascimento da filha as coisas melhoraram,é tanto amor pela menina que  já nem lembram que a criança foi fruto de um descuido, e veio na hora errada. “Eu já amava ela quando estava na minha barriga, desde quando eu soube, não era o que eu planejei, mas é uma surpresa todo dia. Eu não sabia como ia ser, e hoje eu também não sei como vai ser amanhã, mas com o apoio da minha família tudo está dando certo!”.

Quando há o apoio da família da adolescente e do pai da criança, e ambos têm boas condições financeiras, como é o caso de Mariana, as coisas se tornam mais fáceis, mas nem sempre é assim. O maior índice de casos está nas periferias brasileiras, onde há pouca informação e o nível de escolaridade é baixo, fatores decisivos para gravidezes indesejadas. No documentário “Meninas Gravidez na Adolescência” é retratada a rotina de meninas que descobrem que estão grávidas e desde então precisam se acostumar com a ideia e descobrir aos poucos como lidar com essa nova realidade.

Apesar dos vários métodos contraceptivos e de haver muita informação ao redor do tema os casos ainda são bastante frequentes. Entre campanhas pelo uso da camisinha e palestras de conscientização, a psiquiatra Rossana Braghini aposta na busca da identidade e do autoconhecimento para evitar esses episódios, “Cada adolescente é cada adolescente ela vem de uma família que responde de um jeito às questões sexuais e da maternidade, ele esta inserido em uma cultura de um tempo, então cada adolescente vai ter uma resposta diferente, até geograficamente, uma adolescente lá do Nordeste talvez não tenha os mesmos dramas de uma adolescente daqui”, salienta.

 *A pedido da entrevistada seu nome foi substituído