Albergue: um lugar de refúgio

Giseli Furlani e Thaís Biolchi

O Albergue Municipal de Passo Fundo presta acolhimento provisório para pessoas em situação de rua e desabrigo por abandono, migração e ausência de residência ou pessoas em trânsito e sem condições de autossustento.

Com apenas 21 anos, Fabrício Ávila Fortunato já tem muita história para contar, e muito do que se orgulhar. Com a perda dos pais ainda na adolescência, o jovem viveu 6 anos de sua vida envolvido com drogas, por consequência, quem o recebeu foi a rua. Natural de Farroupilha, Fabrício conta que veio morar em Passo Fundo, quando os pais haviam se separado, com a morte do pai e da mãe, caiu nas tentações da cidade. Foram 6 anos que o jovem não quer recordar, hoje está a 7 meses sem usar drogas. Fabrício foi durante 1 mês, acolhido pelo Albergue Madre Teresa de Calcutá e resolveu mudar de vida. Voltou para a cidade natal e passou 2 meses com a avó, distante de Passo Fundo e das tentações da cidade, largou das drogas. No retorno ao município, conseguiu um emprego e alugou uma casa, junto com um colega que também estava no albergue: “é bom ver o jeito que eu vivia antes e como estou agora, tudo está  bem melhor”. Hoje, Fabrício faz algumas refeições na casa de acolhimento.

[stextbox id=”custom” float=”true” align=”right” width=”200″]20% do público atendido pelo Albergue vem do Serviço Especializado em Abordagem Social, SEAS, que faz busca ativa nas comunidades de Passo Fundo 24h por dia, 7 dias por semana. Para contatar o serviço de abordagem, ligue: (54)9193-9597.[/stextbox]

Já para João Luiz da Costa e sua mulher Alessandra Regina Dias ainda há um longo caminho ser perseguido. O destino do casal é a cidade de Ourinhos, São Paulo, cidade natal de Alessandra. João e Alessandra moravam em um albergue de Caxias do Sul, na cidade trabalhavam em uma coleta seletiva, saíram de lá pois perderam a vaga do albergue, como explica João: “o albergue tem um sistema, se tu faltar tanto tempo tu perde a vaga, e nós perdemos, conforme a emoção, ai tivemos que largar o nosso emprego e seguir viagem, não podíamos ficar na rua”. Alessandra está com um problema de saúde e foi tratada pelo Hospital da Cidade. Enquanto ela passa o dia todo no albergue de Passo Fundo se recuperando, João só volta para as refeições e para dormir, conforme as regras da casa de passagem. Ele conta que, quando está fora do albergue tenta agilizar a documentação e cuida da medicação para esposa, mas quando o tempo se torna longo demais, fica sentado na praça esperando a hora passar para voltar ao albergue. A história do casal no albergue Madre Teresa de Calcutá termina quando Alessandra se recuperar e a assistência social liberar a documentação dos dois.

IMG_4940Para Fabrício uma casa que acolhe, que dá assistência nos momentos que mais necessitam, para João e Alessandra uma casa de passagem. O Albergue Madre Teresa de Calcutá do município de Passo Fundo já fez parte da vida de muitas pessoas, de vários lugares e cada uma com uma história diferente na bagagem. Uruguaios, argentinos, bolivianos, haitianos, senegaleses e pessoas do Brasil inteiro já tiveram o abrigo do albergue nas horas de necessidade.  Há três anos no comando do albergue, Eduardo Camargo explica que a casa de passagem faz parte do núcleo de alta complexidade da Coordenadoria de Proteção Social Especial da Secretaria de Cidadania e Assistência Social de Passo Fundo. O albergue dispõe de 30 leitos, sendo 20 masculinos e 10 femininos, todos adaptados para pessoas com necessidade especiais. Uma equipe composta por dois assistentes sociais, uma psicóloga, além de uma equipe de cozinheiras, porteiros e uma auxiliar de limpeza trabalham diariamente para atender a casa. Por ser uma casa de passagem, quem é encaminhado ao albergue permanece de três a cinco dias e em casos específicos – em que a pessoa esteja procurando emprego, ou encaminhando documentação – este tempo pode ser maior, a partir da aprovação técnica social. Camargo explica, que o objetivo do albergue é o acolhimento, mas também, o encaminhamento das pessoas que precisam retornar para suas casas e suas famílias. Por isso, o PIA – Plano o Individual de Atendimento – e o PAF – Plano Acompanhamento Familiar – auxiliam no atendimento.

Cabe ao usuário do Albergue

Para uma boa convivência o Albergue Municipal segue uma série de normas,   Eduardo explica que durante o dia é realizada toda a sanitização e higiene dos ambientes para que não haja riscos de qualquer contaminação como, por exemplo, tuberculose. “Às 17h30min nós abrimos as portas. A primeira parte é o banho e logo depois o jantar.  Após a janta, o albergue conta com um espaço de tv e com alguns jogos alternativos, como dama e xadrez, não há jogos de azar, tem livros, revistas, IMG_2032para que eles possam passar o tempo. Eles ficam até umas 22h na sala de recreação,  caso haja algum filme, nós fazemos uma adaptação de horário em que eles terminam de ver e após começa o período de silêncio e todos se recolhem. Nestes momentos, o albergue não deixa de receber pessoas, a abordagem social continua. Estas pessoas que precisam dos serviços do albergue, passam a noite e de manhã cedo eles fazem a higiene e tomam o café. Saindo do espaço do albergue cada um tem suas atividades individuais, alguns tem trabalho, outros vão atrás de fazer seus documentos, como identidade e CPF, encaminhar carteira de trabalho, outros vão fazer consultas.”

Muitas pessoas que estão em atendimento pelo Centro POP,  Serviço Especializado para Populações de Rua, retornam para almoçar no albergue. Quem recebe essa refeição, geralmente está em acompanhamento. O coordenador Eduardo explica que  “o albergue não é um restaurante popular, nós não queremos fortalecer os vícios de algumas pessoas, que querem almoço e depois voltam para as ruas beber e fumar.  Quem almoça passa por uma conversa, o preenchimento de uma ficha, se comprometem em seguir algumas normas e querem sair da situação de rua. Há casos como o do seu Lauri, que está em constante acompanhamento, ele acaba de sair de uma cirurgia, então eles faz inclusive o lanche da manhã e o lanche da tarde.”

Uma lição de vida para os funcionários

Há 5 anos Gilmar Roberto Barile trabalha no albergue como porteiro mas ajuda em tudo o que precisar. Orientação, encaminhamento, preenchimento de fichas, ele confere se quem chega ao albergue está com armas ou drogas. Gilmar carrega, dá banho e troca de roupa se precisar. Ele já esta acostumado com o seu trabalho, e diz que é necessário ser uma pessoa equilibrada, pois há riscos e é preciso saber lidar com eles. “Muita gente chega ao albergue dependente químico e afirma ser uma viagem sem volta, muita gente que teve uma profissão e perdeu tudo acaba parando em situação de rua, como advogados, engenheiros. Há casos de pessoas que vendem todos os pertences para poder comprar drogas. Pessoas que tinham tudo e perderam, e a primeira coisa que acabam perdendo é o contato com a família. O Albergue é o começo de uma nova chance para essas pessoas.”

IMG_5006Segundo Gilmar, a equipe que comanda o albergue é muito boa, unida e sabe como agir nas situações. O porteiro vê todo dia uma nova história e um novo aprendizado, e diz: “ao longo da vida reclamamos muito por qualquer coisa, coisas pequenas e ai chega uma pessoa aqui que a única coisa que ela quer é alguém que estenda a mão para ela recomeçar a vida, é a única esperança que ela tem. Aprendemos que a vida é cheia de altos e baixos, e que se todos procurassem fazer a sua parte, desde uma doação de roupas já ajudaria muito.”

IMG_2028“Que Deus abençoe as tuas mãos tia”, é assim que Rosani Teresinha dos Santos recebe os agradecimentos pela comida que prepara no albergue. Ela é cozinheira na casa há 6 meses e diz que gostaria que as pessoa não necessitassem do albergue, “mas já que necessitam estamos aqui para estender a mão, dar um apoio e ajudar”. “Eu acho que se a gente tá fazendo isso é porque Deus colocou no nosso caminho pessoas que a gente pode fazer algum bem. Aqui dentro não somos somente cozinheiras, somos parceiras, psicóloga, somos de tudo um pouco.” Rosani fala orgulhosa que adora seu trabalho e que todos que passam pelo albergue tem muito respeito, “é o reflexo do nosso trabalho que é feito com amor.”

Histórias como a de João, Alessandra e Fabrício passam todos os dias pelo Albergue de Passo Fundo. Diferentes personagem, que enfrentam os desafios de uma sociedade desigual e encontram na casa de acolhimento uma chance para retornar a sua vida em sociedade.