Armadilhas na “rede”

 

 As redes sociais, embora pareçam inofensivas, nos cercam de riscos, o cuidado com a forma de se expressar e  atenção aos materiais publicados é uma medida necessária para assegurar a a segurança no ambiente online

Fotos, textos, mensagens, músicas e vídeos. E é assim que aos poucos, postamos mais do que devemos, e além do que precisamos. Difícil imaginar a nossa vida longe das redes sociais, em um mundo onde tudo gira em torno da conexão, mas a verdade é que estamos lá porque gostamos. Caso contrário, o número de usuários do Facebook e Twitter – as redes sociais mais populares- não seriam tão significativos, é verdade que o mercado de trabalho tem olhado bastante para esse aspecto, e hoje, praticamente todas as empresas dão uma boa checada nas redes sociais de uma pessoa antes de contratá-las. Mas para conseguir um emprego ninguém precisa de uma foto de perfil super produzida e impecável.

Postamos tudo e a todo o momento, estamos sempre compartilhando fotos de ocasiões em família ou com amigos. É nesse embaraço de informações e de desejo de reconhecimento que acabamos nos perdendo. A exposição acaba se tonando excessiva. “Poderíamos considerar que qualquer coisa que parecesse inconveniente divulgar em uma praça pública ou em um terminal de ônibus movimentado também deveria ser considerado inconveniente para a divulgação nas redes sociais. A gente não sairia distribuindo fotos do alimento que comemos no almoço para as pessoas na rua, pois seria estranho… então por que razões deveríamos fazer isso nas redes sociais?”, argumenta o professor de Filosofia da UPF, Marcelo José Doro.

O Facebook é atualmente a rede social mais popular no mundo

Para ele, é difícil estabelecer, -se é que há- uma fronteira entre o público e o privado dentro das redes sociais, já que há quem acredite que postando determinado material está agradando, quando a verdade não é bem essa. Somos sujeitos de opiniões distintas e isso dificulta bastante na hora de perceber o que é viável e interessante de ser compartilhado, e o que pode se tornar até mesmo embaraçoso. “O ideal seria: nada de tornar público informações, fatos, conhecimentos, ou outras coisas, que exponham desnecessariamente a nossa imagem ou a do outro. Mas o problema é que a noção do ridículo é muito variável: não raro sentimos vergonha alheia por pessoas que não dão a mínima ou que acham que estão agradando”, argumenta o professor.

A grande necessidade de se expor e de buscar reconhecimento não é novidade. Doro acredita que isso venha desde a constituição da espécie humana, já que a biologia evolutiva destaca o papel da imagem e do status, como componentes fundamentais para atrair parceiros, impressionar amigos e criar filhos. Deste modo quem não tivesse sucesso na promoção da sua imagem e não obtivesse status simplesmente não deixava descendentes. “Todos somos descendentes de indivíduos que souberam promover suficientemente sua imagem dentro de um grupo, a ponto de obter proteção e parceiros sexuais para a reprodução. E na condição de descendentes de tais indivíduos, conservamos por herança esse impulso como um traço essencial”, destaca o filósofo.

Pode-se dizer, então, que as redes sociais só facilitaram e fortaleceram essa necessidade. O modo como nos comportamos nesses ambientes virtuais diz muito sobre nossa personalidade. Mesmo quem pouco se expõe está transmitindo características sobre si, e esse seria o objetivo implícito no uso das redes sociais. “Queremos nos mostrar, queremos que os outros reconheçam nossas características através dos indicadores que oferecemos. Do mesmo modo como nós, ao frequentar estes espaços, buscamos identificar-nos outros os traços que nos interessam. As pessoas têm feito isso desde sempre. As redes sociais apenas tornaram tudo mais simples e eficiente”, enfatiza o professor Marcelo José Doro.

A rede social e a mentira 

E como estamos na busca por reconhecimento – que no caso das redes sociais vêm em forma de curtidas, compartilhamentos, entre outros – selecionamos cuidadosamente o que será exposto, de tal maneira que muitas pessoas tornam-se perfeitas nesse universo, porque somente compartilham suas qualidades. É possível contar nos dedos pessoas que se submeteriam a postar fotos de si mesmos que considerem feias ou em situações que julgue constrangedoras. O mesmo acontece com quem julga ser inteligente e, aqui o destaque vai para sua intelectualidade e não mais para a beleza física. Assim, buscamos mostrar só o que possuímos de melhor, por isso muitos estudiosos da área afirmam que todos são grandes mentirosos nas redes sociais.

Mayara Petruso foi condenada por ofensa aos nordestinos em sua conta no Twitter

Não são raros os casos de gafes, que causam certo constrangimento nas redes sociais. Pior ainda são os casos onde há publicações com doses de preconceito ou ofensas. Em tais situações as consequências, muitas vezes, são drásticas, e o simples fato de postar tudo que passa pela cabeça pode custar um emprego, a reputação ou até mesmo resultar em punições. Um exemplo é o caso da ex- estudante de Direito Mayara Penteado Petruso que foi condenada à pena de prestação de serviços à comunidade e ao pagamento de multa de R$ 620 por publicar no Twitter uma mensagem de preconceito e discriminação contra nordestinos. Ela foi condenada também ao pagamento de uma indenização por danos à sociedade, de R$ 500. A decisão foi da 9ª Vara Federal Criminal de São Paulo.

[stextbox id=”custom” caption=”Dados que não devem ser compartilhados em redes sociais” float=”true” align=”right” width=”250″ image=”null”]

Data de aniversário;
Status de relacionamento;
Indicar sua localização;
Publicar que está sozinho em casa;
Imagem e nome dos filhos;
Conversas pessoais;
Informações da empresa em que trabalha;
Telefone e endereço pessoais;
Informação financeira pessoal;
Dicas de senhas;[/stextbox]

As redes sociais tornaram praticamente impossível proteger a privacidade. Os especialistas da área afirmam categoricamente: as novas mídias sociais acabaram com a divisão entre público e privado. Basta lembrar o fato de que no Facebook, se não houver uma classificação de quem pode ver suas imagens e demais materiais publicados, qualquer um terá acesso aos seus interesses, intimidade da sua família e seus gostos. É evidente que nem todos se dão conta disso, e a maioria não dá importância para tais aspectos. Ou, na necessidade de serem reconhecidos, acham natural escancarar a intimidade. Não é preciso deixar de lado o uso de tais ferramentas, mas o segredo é ter atenção.

É preciso ficar atento a cada foto postada, cada texto compartilhado. Desconfiar sempre. Entregar imagens e dados privados, dar a uma pessoa maldosa,- ou até mesmo um criminoso- a chance de causar grandes transtornos na sua vida é um preço alto demais a pagar. As redes sociais não nasceram com tal propósito. São uma novidade tecnológica, um espaço de diversão, interatividade e até mesmo construção de conhecimento, mas para que não sejam causas de dor de cabeça é preciso a consciência do usuário em saber a hora de parar.