O bombeiro mais experiente do Rio Grande do Sul

Quem chega ao Aeroporto Lauro Kortz de Passo Fundo não imagina a história de vida que se encontra a poucos metros do local de partida dos aviões. No pavilhão dos bombeiros, logo ao lado da pista de saídas e pousos, encontra-se uma figura simbólica entre o batalhão: o bombeiro mais velho do Rio Grande do Sul, segundo o histórico do Corpo de Bombeiros do estado. Trata-se de Jandir Paulo de Borba, que dos seus 61 anos, presta serviço à comunidade há 36 temporadas. E seria mais tempo caso não tivesse aposentado, e depois retornado à profissão.

A jornada pelo RS

Com uma carreira extensa no ramo, o bombeiro mais experiente do estado iniciou sua trajetória em Porto Alegre, quando ingressou no antigo 1º Batalhão de Bombeiros – atual EsBo (Escola de Bombeiros) –, em 1973. O objetivo de Jandir Borba era conseguir uma transferência para Passo Fundo, sua cidade natal. No entanto, o desejo não foi realizado, e o militar teve de se contentar com a Estação de Bombeiros de Carazinho, onde trabalhou de 1976 até 1979.

Após três anos em Carazinho, o sonho de voltar à sua terra foi concretizado. Em 1979, Borba continuou sua carreira em Passo Fundo, onde só deixou em 2000, quando teve a experiência de passar dois anos em Frederico Westphalen, quando foi para a reserva. Depois de 29 anos de profissão, o desgaste de trabalho fez com que o bombeiro tomasse uma decisão: a aposentadoria.

O retorno: amor à profissão

‘’É muito difícil alguém trabalhar por quase três décadas no mesmo ramo. E quando eu parei, senti falta da rotina, de tudo’’, afirma Borba. Uma ligação telefônica, em meados de 2008, foi fatal para o bombeiro voltar à corporação. O tenente do 7º Comando Regional de Bombeiros entrou em contato com Borba, que aceitou o pedido de retorno ao batalhão.

Por amor, Jandir Borba voltou ao grupo e tornou-se o mais experiente em atividade. A questão de ser o mais velho não intimida o profissional, que relata o quão importante é poder aconselhar os mais jovens e colocá-los no caminho mais correto e eficaz. ‘’É muito bom poder repassar a eles tudo o que já aprendi até hoje, pra que eles possam realizar o trabalho com a mesma dedicação’’, explica Borba.

‘’Se fosse em outra encarnação, eu gostaria de ser bombeiro novamente, é gratificante salvar vidas’’

Salvar vidas e estar sempre preparado: as missões de um bombeiro, para Jandir Borba. Foto: Matheus Moraes – Nexjor FAC/UPF

Salvar vidas e estar sempre preparado: as missões de um bombeiro, para Jandir Borba. Foto: Matheus Moraes – Nexjor FAC/UPF

Gratidão e compromisso classificam a profissão de bombeiro, para Jandir Borba. O experiente militar garante que apesar de ser uma vida sofrida, o resultado final é positivo, é algo que vale a pena. ‘’A gente salva vidas. Isso não é uma questão de escolha, é pura vocação, tem que gostar’’.

O que mudou em 30 anos

Nem sempre os bombeiros tiveram o suporte de hoje. Direito a receber o 13º, na época em que começou na área, não existia. A escala de serviço era diferente. Antigamente a carga de trabalho era ’24 por 24’ (uma expressão interna dos militares resumirem quando o serviço começava num dia e terminava no outro), com dois expedientes. As vantagens de obter horas extras só foram instauradas anos depois. Outra mudança foi o período de recesso, que outrora era de 25 dias, e atualmente são de 30. Atualizações que interferem indiretamente no trabalho dos bombeiros, mas que vieram à tona junto com outras necessidades de modernização, como materiais e viaturas em melhores condições.

 

O incêndio das Lojas Americanas foi o mais assustador da carreira do bombeiro. Foto: Conselheiro X.

O incêndio das Lojas Americanas foi o mais assustador da carreira do bombeiro. Foto: Conselheiro X.

O caso mais marcante

Enquanto trabalhava em Porto Alegre, no final de 1973, o bombeiro presenciou um dos maiores incêndios que a capital gaúcha já enfrentou. O incidente nas Lojas Americanas, no centro da cidade, matou cinco meninas e apavorou a esquina democrática. Naquela oportunidade, Jandir Borba estava escalado na escada do caminhão Magirus-Deutz. Paraquedas foram utilizados para salvar pessoas, mas na ocasião, cinco mulheres pararam no banheiro, onde morreram queimadas, com os corpos aos pedaços. Uma tragédia que chocou os bombeiros que trabalharam naquela noite.

Os planos para o futuro

Um bombeiro pode exercer o seu trabalho até os 65 anos. E para Jandir Borba, restam quatro anos ainda. Depois é obrigado a deixar a corporação. Apesar disso, o desejo é de continuar – de forma indireta – na profissão, realizar uma especialização e poder auxiliar cursos preparatórios para bombeiro. É a possibilidade para não deixar o ramo.

Entre tantas ocorrências e incêndios na carreira de Jandir Paulo de Borba, hoje a sua vida é mais serena. Atualmente o bombeiro trabalha no Aeroporto de Passo Fundo, após já ter passado pela Matriz Central, na Rua Independência, e o 7ºCRB, no bairro Petrópolis. Fiscalizar os voos e prevenir que algo de errado aconteça é a tarefa diária do militar. Depois de enfrentar o perigo constantemente, Borba, aos poucos, encerra o seu ciclo de quase 40 anos de muito aprendizado, ensinamentos e, sobretudo, proteção à sociedade.