Uma igreja chamada Bola de Neve

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O ambiente não é o mesmo de tantas igrejas evangélicas. Um aperto de mão é o sinal de boas vindas ao visitante. “Pode ficar à vontade”, diz Vilimar Muller, o senhor que cuida a recepção da Igreja Bola de Neve de Passo Fundo. O espaço recebe cerca de 50 pessoas para o culto noturno de uma quarta-feira. Gente jovem, de meia idade, idosos dividem o pequeno mas aconchegante espaço do número 522 da Rua 14 de Julho do bairro Rodrigues. Ocupando boa parte do altar, há uma prancha de surf que faz as vezes de púlpito. “Em Jesus, nós acreditamos”, ressalta, em inglês, o slogan da igreja. Bandeiras do Brasil, Rio Grande do Sul, Israel e de Passo Fundo completam a decoração.

O louvor chama atenção. Guitarra, violão, bateria e teclado. A pregação da palavra é feita sempre ao som de um ritmo musical. Os fiéis ficam em pé, atentos à fala de Leandro Trizzini, o pastor. É possível ver nele alguns dos ideais da igreja. Conduz o culto usando camisa de uma marca famosa de surf, calça jeans e tênis que lembram os de um skatista. Tem 35 anos e é formado em Engenharia Civil. Não economiza em gírias e conversa sobre religião como quem conversa sobre qualquer assunto. Não há proselitismo em sua fala. Entrou no Bola – como é conhecida a igreja entre os fiéis – em 2002 porque, segundo conta, recebeu “um chamado de Deus para fazer algo diferente por uma geração”.

– A entrevista mais louca que tu vai fazer é esta – diz Leandro. E foi. No final do culto, o pastor conversou com a equipe do Nexjor em meio ao ensaio de uma peça de teatro, que tinha como tema histórias bíblicas. Na hora da pregação, as crianças não ficam em frente ao altar, junto aos demais fiéis, mas em um espaço no segundo andar do prédio. Depois do culto, elas correm e brincam entre os adultos como se estivessem em um playground. Parece qualquer coisa, menos uma igreja.

Gabriel Zucchi, de 26 anos, frequenta o Bola desde a chegada da igreja a Passo Fundo. Sua vida religiosa começou como a de muitos jovens. De família cristã protestante, Gabriel ia aos cultos para agradar seus pais:

– Com 14 anos eu fazia minhas coisas, tomava porre e não tava nem aí para nada – lembra.

Tempo depois, quando ainda morava em Florianópolis, Gabriel decidiu ir a um retiro da Sara Nossa Terra, uma das maiores igrejas evangélicas do país.

– Lá ouvi tudo o que precisava. Deus falou comigo, através de pessoas e tive a certeza que eu queria mudar – conta o jovem convertido há cinco anos, e que há três é casado com a professora de educação infantil do Bola.

Foto: Reprodução internet

Apóstolo Rina nos primeiros encontros do Bola de Neve (Foto: Reprodução internet)

História
O Bola de Neve foi fundado em 1999 por Rinaldo Luiz de Seixas Pereira. Ex-usuário de drogas e surfista, Apóstolo Rina, como é conhecido, tornou-se evangélico após ter sérios problemas de saúde. A escolha do nome é uma referência à ideia que a igreja começaria pequena e ficaria grande, como uma avalanche. E acertaram: conta hoje com cerca de 270 templos no Brasil e no exterior.

O uso da prancha de surf tem também a ver com o início da igreja. Nos primeiros anos, os integrantes do Bola não tinham sequer lugar para realizar cultos. O cenário mudou quando “Deus levantou um empresário do mercado surfwear para nos abençoar”, conforme diz o site oficial. A benção, no caso, é Jackson Adisaka, proprietário da HD (Hawaiian Dreams). A empresa de Jackson possuía um auditório para workshops de relógios e roupas de borracha, com capacidade para 130 pessoas. Ele emprestou o espaço localizado no bairro do Brás em São Paulo para a realização dos cultos. Esse foi o primeiro endereço do Bola.

 

Liberal ou conservadora?
Apesar de uma roupagem mais liberal, o Bola de Neve segue parte dos principais dogmas de outras instituições religiosas, como, por exemplo, o incentivo ao sexo apenas após o casamento. Em entrevista, o Apóstolo Rina comenta como é a abordagem da igreja em relação aos homossexuais:

– São seres humanos tão amados por Deus como qualquer outro ser humano. Mas a Bíblia diz: “o homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem”. Não sou eu quem está falando, é a Bíblia. É um pecado como o adultério e está na Bíblia. Não julgamos ou condenamos.

Sobre as questão financeira, ou seja, as contribuições dadas pelos fiéis à igreja, ele afirma que a oferta e o dízimo são as formas bíblicas que a igreja tem para se sustentar, mas não há obrigatoriedade na doação.

– Muitos chegam preparados para serem extorquidos. Quando conhecem nossa igreja, percebem que tratamos do assunto de forma natural, sem pressão. E ele acaba contribuindo com o que pode – afirma Rina.

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Público

O público alvo do Bola de Neve é diferente de outras igrejas evangélicas. Drogados, prostitutas, órfãos, pessoas tatuadas, segundo o pastor Leandro Trizzini, são aceitos, porque não há preconceitos quanto à origem dos fiéis.

– Nosso alvo são as pessoas que precisam de ajuda, jovens que não conseguem se enxergar dentro de uma igreja, porque não podem praticar um esporte, curtir um ritmo de música diferente – diz.

O Bola de Neve trabalha em um sistema chamado “células”: encontros realizados fora da sede da igreja em Passo Fundo, e geralmente organizado em casas. Para Leandro Trizzini, um dos grandes diferenciais é que “no Bola de Neve, são os filhos que trazem os pais”. Em Passo Fundo desde 2012, a igreja tem uma comunidade em torno de 60 pessoas, que frequentam os cultos e fazem parte das células. Segundo o pastor, não há uma busca por número de fiéis:

– É melhor ter uma igreja dentro dos propósitos de Deus, com 50 pessoas que entendem essa natureza e essa identidade, do que uma com duas mil pessoas que estão ali para desencargo de consciência – comenta.

Fotos: Fabiana Betralmi