Eu bicho, bicho meu!

Materiais feitos em xilogravuras e gravuras de metal, expostos na Sala de Arte Laura Borges Felizardo da FAC, foram produzidos durante a disciplina de Gravura II, do curso de Artes Visuais Licenciatura

Qual seu bicho preferido? Há quem goste da força do leão, outros preferem a delicadeza do beija-flor, ou ainda a leveza de uma gaivota.  Têm aqueles que admiram o companheirismo do cachorro, ou até mesmo a velocidade e astúcia de uma águia.

[stextbox id=”custom” caption=”Gravura em Metal” float=”true” align=”right” width=”250″ image=”null”] Processo de gravura feito em uma matriz de metal, geralmente o cobre, mas, que pode também pode ser feito em alumínio, aço, ferro ou latão amarelo.
A ponta seca e o buril são as ferramentas mais comuns usadas para gravar uma imagem na matriz. A gravura em metal é conhecida como uma das mais antigas técnicas em gravura. Há obras nesta técnica datadas de 1500, produzidas por grandes gênios da Renascença, como Andrea del Sarto e Antonio da Correggio.
A gravura em metal deposita a tinta nos sulcos realizados pela gravação. Esta técnica consiste na gravação de uma imagem sobre uma chapa de cobre. Os meios de se obter a imagem sobre a chapa são diversos, sendo que cada artista desenvolve, dentro desse contexto, seu procedimento pessoal no trato com o cobre.[/stextbox]

Essa foi a pergunta que a professora Ma Mariane Loch Sbeghen fez aos seus alunos do curso de licenciatura em Artes Visuais, na disciplina de Gravura II. Além do questionamento, uma proposta: construir um autorretrato e ao lado a gravura de um bicho do qual gostam.

Foi dessa maneira que surgiu a exposição “Eu Bicho, Bicho Meu”. A professora Mariane conta que a proposta inicial era a de cada aluno fazer seu autorretrato em xilogravura e a gravura em metal do bicho que gostavam. Ela lembra ainda, que desde o começo se buscou algo além de simplesmente expor.

Ao lado das obras expostas há sua respectiva matriz, um fato que segundo a professora, representa muito. “Pensamos desde o início, em construir uma exposição que tenha um cunho artístico, mas também pedagógico, porque estamos mostrando os materiais e um pouco da técnica”, ressalta.

É só no vazio que o voo acontece 

“Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. Às gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”

O trecho acima é  extraído de um poema de Rubem Alves, mas expressa perfeitamente o modo como Mariane pensou em construir a mostra e a justificativa por ter colocado o nome da exposição dentro de uma gaiola. “Será que não estamos presos dentro de uma gaiola? Por isso coloquei o nome dentro dela. Muitas vezes, a gente acha que os outros que estão engaiolados, e quem está engaiolado somos nós mesmos”, comenta Mariane

[stextbox id=”custom” caption=”Xilogravura” float=”true” align=”right” width=”250″ image=”null”] Processo parecido com o de um carimbo, a xilogravura é uma técnica que utiliza a madeira como matriz. E que, possibilita a reprodução da imagem gravada na madeira, sobre papel ou outro suporte adequado. Sua invenção é atribuída aos chineses, sendo, a técnica conhecida desde o século V.
Com a ajuda de um instrumento cortante, se entalha na madeira, a forma ou figura que se pretende produzir. Terminado esse procedimento, é usado um rolo de borracha embebida em tinta, de modo que toque somente as partes elevadas do entalhe.
A impressão em alto relevo em papel ou pano especial, que fica carregado com a tinta, desse modo, revelando a figura, é o procedimento final da xilogravura.[/stextbox]

Cada bicho retratado ganhou um pequeno resumo que fala sobre suas características e significado. O que, segundo a professora é algo relativo. Assim como tantas outras coisas, um animal pode ter um significado para cada pessoa, à medida que o sujeito se identifica com ele por determinada característica em especial, e que lhe chama atenção.

A professora Mariane lembra alguns fatos curiosos que aconteceram ao longo da produção e mesmo após a exposição. É o caso de alguns alunos que imprimiram ao seu bicho alguma ou algumas de suas características físicas. Uma aluna, por exemplo, retratou seu bicho, um porquinho, com um óculos, semelhante ao que ela usa, e que em seu autorretrato está presente.

Além disso, após a exposição a professora conta que identificou algumas características nos alunos referentes aos bichos que cada um retratou, fato que segundo ela, não foi planejado. Mas, mostra que de alguma forma, gostamos daquilo que se aproxima de nós de alguma maneira. “Na verdade é uma grande brincadeira: somos bichos, mas também gostamos de bicho”, brinca.