Tudo nela era perfeito, menos a cor

Sábado, 21 de maio de 1977. O Clube Comercial assiste Apelonice Lima entrar na passarela para receber a faixa de Miss Passo Fundo. A universitária tinha então 21 anos, 1,73 m de altura, 90 cm de busto, 90 cm de quadris e 61 cm de cintura. As medidas a credenciavam como a representante da cidade no maior concurso de beleza do estado. Mas alguns jurados não gostaram da decisão. Perguntou, então, o presidente do júri, o jornalista César Romero:

Miss Passo Fundo (1)

Revista Manchete do dia 11 de junho de 1977

– Como nossa cidade seria vista no concurso de Miss Rio Grande do Sul tendo como candidata uma pessoa de cor?

“Pessoa de cor” é uma forma antiga de referência a uma pessoa negra. Apelonice é negra. O termo caiu em desuso. O racismo continua.

– Quando entrei na passarela para receber a premiação, viram a minha cor e mudaram o resultado – conta a hoje professora aposentada de 57 anos.

Os jurados alegaram um erro na apuração dos votos. Sob a vaia do público e três recontagens depois, Passo Fundo escolheu sua representante: Rosângela Esmeralda dos Anjos, uma jovem branca que tinha ficado em segundo lugar. O caso ganhou repercussão. A imprensa noticiou. Apelonice foi à justiça contra a decisão. Mas segundo conta, a lei da época, a Afonso Arinos, “não punia ninguém a nada” e também “em nada” deu o processo.

Meses depois, a organização do concurso ofereceu à Apelonice o título. Segundo ela, esse ato foi “para dar uma remendada na situação”, devido à repercussão negativa do caso na época. Ela não aceitou. Justifica a decisão porque “não ficou deslumbrada com a faixa, que perdeu todo o valor depois de tudo que aconteceu”:

– Eu precisava ter uma postura não como Apelonice, não como a menina que eu era, mas como uma mulher negra.

Na época, Apelonice Lima trabalhava como modelo. Segundo diz, havia uma cota para trabalhar nessa área. Não importava quantas negras disputassem as vagas, apenas uma ou duas eram selecionadas.

– Quando se ia para algum teste, a primeira coisa que olhavam era a cor dos olhos e o tom de pele – lembra.

Já longe das passarelas, em 1988, Apelonice sentiu novamente na pele negra o estigma do preconceito. Ouviu de seu chefe que a Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social não era lugar para ela. O motivo? Ela conta:

– Ele quis me tirar porque eles não faziam trabalho de limpeza, e como eu era uma negra, não podia estar lá.

Na FGTAS não se varre rua nem se recolhe lixo. É um órgão executivo do estado. Apelonice conquistou a vaga após uma seleção semelhante a um concurso público. Conquistou por mérito. Mesmo assim não havia trabalho para ela, disse o chefe. Foi afastada. Mais uma vez decidiu ir atrás de seus direitos. Na queixa-crime encaminhada à justiça, entre tantas ofensas, está a sentença: “Vou varrer a negrada daqui”. Através de uma liminar, conquistou o direito de assumir o cargo público.

Cópia da queixa-crime de Apelonice

Cópia da queixa-crime de Apelonice

O racismo em números

Ter o tom da pele mais escuro é um problema em um dos últimos país do mundo a abolir a escravidão. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o racismo no Brasil é “estrutural e institucionalizado” e “permeia todas as áreas da vida”. Um emaranhado de números corrobora a afirmação da ONU. No mercado de trabalho, segundo dados do Dieese, trabalhadores negros ganham até 57% menos do que brancos. Atualmente, 11% dos jovens negros entre 18 e 24 anos está matriculado em algum curso de ensino superior. A taxa pode parecer baixa, mas não é. Em 1997, por exemplo, essa parcela da população representava apenas 2,2 %.

– O jovem negro tem, hoje, oportunidades que seus pais não tiveram, mas isso não significa que elas sejam iguais as de um branco – afirma Frederico Santos, sociólogo e coordenador do Grupo de Relações Étnicas da Universidade de Passo Fundo.

O Mapa da Violência 2013, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americano (Cebela), revela que a cada três assassinatos cometidos no Brasil, dois são de jovens negros com idade entre 15 e 24 anos. Para exemplificar, esse número é maior que as mortes no Afeganistão, entre 2004 a 2007, em um período de conflitos no Oriente Médio. Em 2013, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo que aponta que possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 maior do que um branco.

O racismo no Rio Grande do Sul

O professor Frederico Santos acredita que a colonização europeia no Rio Grande do Sul influencia nos casos de racismo:

– Fomos um dos estados que mais recebeu escravos. Desta forma, temos um grande contingente de negros que ajudaram a construir este estado, mas que não são valorizados – diz.

São poucos os estudos que comparam o número de casos de racismo entre os estados brasileiros. Uma das poucas pesquisas sobre o tema, realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, apontou o Rio Grande Sul como o estado que mais julgou esse tipo de crime entre 2005 e 2008. Dos 232 processos, 78 estão relacionados ao estado gaúcho. O número representa um terço do total.

– O Rio Grande do Sul ainda é muito mais racista. Nos outros estados, se você tiver condições, não apenas como modelo, mas qualquer outra profissão, você entra. Aqui é meio peneirado, negro só entra o da cota – conta Apelonice Lima, que viajou por diversos estados brasileiros em sua carreira de modelo.

Há uma saída para o problema?

Apelonice Lima se diz feliz com a repercussão do recente caso envolvendo o goleiro Aranha, porque, segundo conta, “tem orgulho de começar a gritar” sobre o problema, na década de 1970. Acredita, ainda, que a situação do racismo está melhorando, mas que há uma “longa caminhada” para resolver a questão:

– De um tempo para cá, o pessoal tem gritado mais. Na minha época era feio falar, as pessoas não tinham o hábito de denunciar esses casos raciais.

Já o professor Frederico Santos não acredita em uma solução próxima para o problema.

– Posso afirmar que isso ainda vai perdurar por muito tempo. Mas é importante que continuemos a sonhar e a construir uma sociedade sem racismo – afirma.