CEMITÉRIO VERA CRUZ: A história de um patrimônio

Assim como qualquer edificação construída, os cemitérios também fazem parte de um grupo que possui influências no âmbito arquitetônico e artístico. Muitas são as obras de arte encontradas nestes locais e que marcam uma determinada linha do tempo que, coincidentemente, se mescla ao hoje.

No passado o cemitério, além de cumprir sua principal função, demonstrava o poderio da classe superior em belos túmulos, seja pelo material rebuscado, pelas esculturas fúnebres, pelo artista que produziu a obra, ou até mesmo pela grandiosidade de diversas construções, além da localização privilegiada que estes monumentos passaram a ocupar.

Bittar (2008, p.208) fala que, à vista de todos, erguem mausoléus, jazigos, sepulcros, sepulturas, carneiros, catacumbas, gavetas, monumentos funerários suntuosos, verdadeiras obras de arquitetura, diferenciando-se nos tratamentos e epitáfios das populares covas rasas, com suas modestas cruzes em argamassa ou em madeira, com um simples número a identificar o ocupante, jazido sob um discreto mais revelador monte de dois palmos de altura.

Neste sentido, esta arte, embora esquecida, tenta resistir à ação do tempo, buscando, assim, os valores excepcionais entendidos pela sua riqueza de adornos, sua monumentalidade e sua historicidade.

As acadêmicas do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Passo Fundo, Emanuela Vieira, Jocelaine Prates, Elaine Merotto, Maiqueli Marcon e Bruna de Marchi, orientadas pela professora Jacqueline Ahlert, estudaram a estrutura arquitetônica do cemitério Vera Cruz, em Passo Fundo.

Em entrevista, algumas explicações de como foi o andamento do projeto:

Por que estudar a arquitetura do Cemitério Vera Cruz?

A arquitetura se manifesta de diferentes formas, esta monta uma linha de tempo, e assim como em qualquer espaço no cemitério ela se mantém presente. O cemitério Vera Cruz tem uma carga histórica artística e arquitetônica de grande valia já que neste estão sepultados os fundadores da cidade de Passo Fundo. Através do estudo do cemitério foi possível identificar os padrões da sociedade de determinada época, assim como a sua cultura, estando expresso nos detalhes de cada túmulo. Cabe lembrar que a arquitetura confeccionada nos túmulos antigos seguiam os padrões da arquitetura que na época estava em uso, esta pertencente ao historicismo eclético.

Quais as diferenças entre antigamente e agora?

As diferenças são gritantes, pode-se dizer. Antigamente havia uma preocupação com a morada final, túmulos bem trabalhados e detalhados, refletindo o poderio da sociedade. Hoje não passam de lápides revestidas de cerâmica.

Qual a representatividade deste estudo para a vida acadêmica e profissional?

Como acadêmica acredito que explorar um tema no qual há tantos tabus, é algo instigante, o qual nos demostra o quão a sociedade está perdendo ao ignorar este patrimônio que aos poucos vai desaparecendo.

E para a vida profissional pode se dizer que sempre que observado uma obra fúnebre este terá um olhar diferente, investigativo, buscando o caráter histórico e arquitetônico da obra, assim como a valorização deste bem que é literalmente eterno.

Vocês participaram de um Congresso em São Paulo. Conte um pouco da experiência.

O Congresso Internacional do patrimônio arquitetônico e edificado aconteceu na cidade de Bauru, em São Paulo. Este proporcionou uma experiência única de troca de vivências e conteúdos, onde estivemos ao lado de doutores e mestres na mesma igualdade, partilhando sobre os mais diversos temas relacionados à preservação do patrimônio.

Quais os próximos passos para o projeto?

É interessante comentar que em Passo Fundo há duas grandes frentes de estudo sobre o cemitério Vera Cruz: nós e Instituto Histórico de Passo Fundo. O Instituto acaba de lançar um guia de Visitação no Cemitério Vera Cruz. Sendo assim estamos buscando fundir as pesquisas e as ações, tornando mais sólida a conscientização da população perante este bem histórico, artístico e arquitetônico.

Para finalizar, este é um bem patrimonial artístico-arquitetural, revelando que não só é parte da cidade, como também é uma cidade dos mortos dentro da cidade dos vivos. Estes transpassam gerações, marcaram época e continuam indagando os olhares de quem os admiram, por uma época onde o historicismo eclético predominava e demonstrava o poderio da sociedade, alimentando a admiração pela “morada final”.

Cabe lembrar que daremos continuidade à pesquisa, assim como através dos resultados obtidos será possível novas publicações e análises com relação ao tema*.

*Matéria desenvolvida em conjunto com as acadêmicas,  e com informações do projeto.