Figuras importantes da política brasileira (parte I)

Francisco Fianco é doutor em Filosofia e professor do curso na UPF

Francisco Fianco é doutor em Filosofia e professor do curso na UPF

Controversas e emblemáticas. A política brasileira está repleta de personagens assim. Inspirado pelas eleições 2014, e pelos últimos acontecimentos no cenário político nacional, o Nexjor foi ouvir a opinião de especialistas em diversas áreas do conhecimento sobre a seguinte questão: quais foram as cinco figuras mais importantes da política brasileira?

Na primeira matéria você confere os escolhidos pelo professor da UPF, doutor em Filosofia, Francisco Fianco. Na opinião dele, e em ordem cronológica, os personagens são:

“Um dos ícones da política brasileira”, descreve o professor Francisco Fianco. Getúlio Vargas divide opiniões, e até hoje segue vivo na memória dos brasileiros. Amado ou odiado, mas sempre lembrado, o ex-presidente da República é uma das figuras mais polêmicas que já habitou esse solo. Fianco destaca o fato de que muitos que o defendem, fazem uma apologia, dizendo que Getúlio era o pai dos pobres, mas da mesma forma outros também o odeiam e denunciam seu populismo.

Vargaas

O professor acredita que assim como outros, o gaúcho teve acertos, mas também erros. “Ele teve acertos, teve aspectos positivos, interessantes, organizou um monte de coisas, no sentido de criar uma unidade nacional; construiu o Brasil que a gente tem hoje, um político caudilho do seu contexto.”

O legado de Vargas está em todo lugar, na opinião do pesquisador. A Consolidação das Leis do Trabalho, a legislação sindical, a Petrobras, a Ordem dos Advogados do Brasil, e mesmo coisas mais abstratas, como um certo nacionalismo excludente, que encara adversários como “entreguistas”, inimigos da nação, todas são heranças da Era Vargas, que, 80 anos depois, ainda não é objeto de consenso entre pesquisadores.

Vivendo entre a ditadura e a luta pela democracia, e mesmo tendo sido deposto, Vargas era dono de uma enorme popularidade e voltou como presidente eleito em 1951. Porém, o presidente viu sua vida chegar a um empasse dramático, envolvido em diversos escândalos. Ele se viu sem alternativas. Caso não cometesse o suicídio, o presidente veria tudo que construiu se perder. Sua família não suportaria e veria seu nome na lama. Em 24 de agosto de 1954, com um tiro no peito, Vargas fez o que escreveu em sua carta testamento. Saiu da vida para entrar na história, e com um tiro no coração, deu a sentença: o Brasil viveria assombrado pelo seu fantasma para sempre.

collor

Collor é, segundo o professor Francisco Fianco, uma das grandes desilusões políticas do Brasil. Com ele, o povo brasileiro conheceu uma face escura do poder, que embora já andasse nas penumbras do governo, aflorou com a sua pessoa.

Fianco lembra que Collor é uma evidência de que talvez mesmo aquilo que parece perfeito pode não dar certo. “Ele veio com toda uma proposta de renovação. Ele tinha uma imagem de renovação, e no fim se compreendeu que ele não representava renovação nenhuma. Representava uma nova roupagem a hábitos já antigos, já existentes”.

Marcante em vários aspectos, Fernando Collor de Mello foi o presidente mais jovem da história do Brasil- chegou ao poder com menos de 40 anos de idade. Foi também o primeiro eleito por voto direto após o regime militar. Mas, foi Collor o único presidente deposto por um processo de impeachment no país.

Considerado por muitos como o herdeiro político de Getúlio Vargas e João Goulart, Brizola é para o professor Francisco Fianco um personagem que tinha um enorme apelo populista. “Ele era dono de um estilo de representação que dava a entender certas qualidades políticas. Tinha uma vivência. Alguns dizem que o Brizola foi o último representante de um animal político, um ser político a moda antiga. Não sei se é tão verdadeiro assim, mas dá para perceber em alguns aspectos isso”.

Fianco defende a importância de Brizola como personagem da política brasileiro por acreditar que ele foi o último ser político representante de uma política ideologicamente engajada, uma coisa que, segundo o professor, não vemos mais no Brasil. Mesmo sem obter sucesso nas suas duas tentativas de chegar à Presidência da República, Brizola é lembrado como um dos mais destacados líderes nacionalistas do país. Também é o autor de discursos veementes onde defende a implantação da reforma agrária e a distribuição de renda no Brasil.

“As pessoas são filiadas a um partido de direita mais apoiam medidas de esquerda e vice versa. Não consigo ver um personagem como o Brizola. Acho que isso modela muito do que achamos que deva ser um político”, lembra Fianco.

“Representou muita coisa, e que, posicionamento político a parte, se beneficiou de um momento de conjuntura da economia mundial para elevar o país a certo patamar que ele nunca antes na sua história tinha conseguido”, lembra o professor Fianco.

Mas, antes de qualquer coisa, a representação política do ex-presidente Lula está nas suas origens e no modo como chegou à presidência. Metalúrgico, e envolvido em causas operárias, Lula se candidatou várias vezes, e aos poucos conquistou seu eleitorado. Embora, represente muito para a história da política brasileira, e tenha seu governo marcado por inúmeros ganhos, o professor Fianco lembra que não são as pessoas que fazem a política. “Lula representou muita coisa, mas nos enganamos ao achar que pessoas fazem a política. Essas pessoas em geral são representantes de grupos de interesse, e esses grupos são os que fazem a política”, salienta o professor.

É importante lembrar que Lula, na opinião do pesquisador, é uma figura dúbia, que tem muitos seguidores e simpatizantes, mas também muitos inimigos políticos e uma oposição forte. Porém , assim como Getúlio, é um personagem que não pode ser ignorado. Fianco lembra que pode ser que daqui a 50 anos falem de Lula da mesma forma que hoje se fala de Getúlio. Alguns afirmando que foi um grande líder, outros que foi um populista.

“Em um ambiente acadêmico, em uma universidade, não há como não falar de Fernando Henrique”, lembra o professor Francisco Fianco. Sociólogo, cientista político, filósofo, professor universitário com pós-graduação em econometria, escritor e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), lecionou também no exterior, notadamente na Universidade de Paris., Fernando Henrique Cardoso é além de político um acadêmico, fato pelo qual, segundo Fianco, merece ser lembrado.

“Quem teve essa ideia, de eleger um acadêmico como presidente?”, questiona o professor Fianco. Para ele, FHC provou que a intelectualidade não interfere em nada na vida pública. Até então pensava-se, segundo ele, que acadêmicos não prestavam para a política, por serem intelectuais demais.

Fernando Henrique é responsável pela implementação de várias políticas sociais de transferência de renda para as populações mais pobres, como os programas bolsa-escola, vale-gás e bolsa-alimentação. Avanços importantes também foram conseguidos nas áreas da educação, da saúde (com a distribuição gratuita de medicamentos contra a AIDS e a criação dos remédios genéricos, vendidos a preços baixíssimos) e na questão agrária (com a implementação de um sólido programa de reforma agrária). Além é claro da manutenção e continuidade do Plano Real, que fez com que a inflação se mantivesse baixa.

Confira a parte II e a parte III da série.