Maconha: legalização, uso e consequências

“O tráfico mata gente, por isso que eu estou plantando. Pra não fazer parte disso, dessa sujeira. Mas o que é muito difícil é que plantar é crime.”

Antônio Silva (21) bolava um baseado enquanto dava esta entrevista, em Passo-Fundo, na sala de estar do seu apartamento, ao lado de seus três pés de maconha que agora já estão com aproximadamente 20cm. É claro que Antônio é um nome fictício, mas a dimensão desta cadeia  de produção que começa fora do Brasil e vem parar na sala do nosso personagem é enorme e muito real. “A semente vende na internet. Ela vem pra ti pelo correio. O que eu estou fazendo de errado plantando uma parada?”

Sequence 01.Still001Não é o caso das pequenas plantas encontradas na sala de estar de Antônio, mas, um pé de Cannabis Sativa pode chegar a 5 metros de altura. E ao contrário do que se pode pensar, não é com essa famosa folha verde e cheia de pontas que vemos estampada por aí, que se faz um cigarro de maconha. Apesar de também poder ser usada, o que mais faz a cabeça dos consumidores são as pequenas flores amarelas e sem perfume que brotam do mesmo pé.  Isso porque essas flores concentram uma maior quantidade de THC. Segundo o Neurocientista da Universidade de Brasília, Renato Malcher Lopes, o tetra-hidrocanabidiol é uma das 400 substâncias químicas encontradas na planta da maconha, classificadas como canabinoides, e o responsável pelos efeitos que o baseado produz no cérebro humano. Ele afirma que o cérebro humano possui receptores para essa substância.

Haxixe – Extraído da resina das flores da maconha, além de fumado, pode ser ingerido (misturada em bebidas ou alimentos) ou mascada.

Charas – Forma de haxixe artesanal, produzido na Índia. Em forma de erva, é consumida com um cachimbo que simboliza o corpo do deus Shiva.

Haxixe e Charas também são maneiras de se consumir a cannabis, mas a mais comum é o fumo. Ao inalar a fumaça da maconha, o THC vai direto para os alvéolos que são responsáveis pelas trocas gasosas e o absorvem facilmente. Mas qual é a sensação de fumar uma planta com essa substância? “Tu sente calma. Fica tranquilo. É uma sensação de relaxamento não-natural, induzido. Tu pode estar muito estressado, mesmo assim vai relaxar. Eu não fico tonto, não vejo coisas. Simplesmente meu pensamento desacelera. Eu era muito acelerado, tinha inquietudes incômodas, e a maconha serviu como uma luva por conta disso. Por exemplo, quando eu chegava em casa depois de trabalhar muito, meu corpo e minha mente estavam exaustos e eu nunca conseguia desligar, sentar em um sofá ou ler um livro. Eu ficava muito cansado e irritado. E o mundo hoje te deixa muito nervoso e estressado.” Conta Antônio.

As sensações que o Antônio descreve podem parecer atrativas, mas cuidado. Segundo o Psiquiatra Dr. Jorge Luiz Carrão – confira a entrevista em vídeo no final desta matéria — a maconha é uma droga altamente depressora, pode fazer com que a pessoa se isole da sociedade, e induzir a problemas graves como esquizofrenia. Essa é uma afirmação baseada em estudos, mas coincide com a percepção do Antônio. Ele tem consciência de que a maconha é uma droga depressora e se considera um dependente. “Isso é um problema, mas eu não quero parar. Se fossemos crucificados pelos nossos vícios, todo mundo ia ter uma cruz. Todos temos algum tipo de vício. Eu sou viciado em maconha, mas isso não afeta o meu lado profissional nem minha vida pessoal.”

A Organização Mundial da Saúde publicou recentemente um relatório (explorado e divulgado pela revista Super Interessante ) sobre os efeitos da maconha, desmistificando algumas coisas e confirmando outras. Segundo o estudo, a substância altera sim a capacidade de raciocínio e memória, mas não “queima os neurônios” como se costumava pensar. Afirma ainda que quem fuma muito tempo pode acabar ficando dependente, mas isso não acontece com todo mundo que fuma. Também destaca que a maconha pode provocar acidentes no trânsito, pois altera a cognição, mas que o motorista não perde totalmente a capacidade de se controlar.

Conforme o documentário “Cortina de Fumaça”  Segundo Antonio Escohotado, professor e pesquisador da Universidade de Madri, a maconha é usada há mais de cinco mil anos como medicamento no tratamento de dores, em caso de inapetência ou ausência de fome, para amenizar náuseas e vômitos provocados por quimioterapia, para tratar sintomas de esclerose múltipla e várias outras enfermidades. Entretanto para obter tais efeitos ela deve integrar um tratamento prescrito por um médico, dentro de uma lógica clínica.

Conforme estudo feito pela Universidade de Bristol e do Conselho de Pesquisa Médica da Grã-Bretanha, também divulgado pelo documentário acima, que avaliou as drogas mais perigosas para o ser humano, o Álcool ocupa quinto lugar no ranking, sendo mais nocivo do que LSD, maconha e ecstasy. Nos Estados Unidos, em 2010, 15 estados já haviam liberado o uso da maconha e outros 12 estudavam a possibilidade. No Uruguai, país vizinho, o uso da planta foi liberado em maio deste ano, mas no Brasil, a discussão em torno da legalização, apesar de obter avanços como o uso controlado para tratamento de patologias específicas, não parece estar perto de ser concluída.

CRIMINALIZAÇÃO
Para o Antônio, o processo de criminalização da Cannabis é ridículo. “Como eu vou comprar maconha? Eu tenho que me envolver com o crime. Tenho que ir lá na puta que pariu, passar medo, correr mil riscos, pra comprar um fumo horrível, cheio de sujeira. Eu não quero isso, eu não sou um criminoso. Eu fumo maconha. Eu não vou roubar nem matar ninguém. Trabalhei o dia inteiro e antes de dormir eu quero fumar um baseado. Isso não pode ser crime, eu não estou fazendo nada pra ninguém.”

No Brasil, o procedimento para quem é pego com maconha varia conforme o flagrante. Segundo o policial Militar, Elias Vaz, mesmo que seja apenas usuário, o cidadão que é pego com a substância sempre terá de ser apresentado à delegacia. A partir disso é aberto um processo conforme a situação for classificada: uso pessoal ou tráfico. “Vai depender do jeito que foi encontrado. Por exemplo, vamos dizer que você tem 100g de maconha, mas essas 100 gramas estão divididas em 10 papelotes de 10 gramas. Se for assim, entende-se que é tráfico”. Além disso, a quantidade também é levada em conta. Conforme o Art.28 da Lei de Tóxicos 11343/06, quem adquirir ou tiver guardada a substância para uso próprio recebe advertência sobre o uso da droga, deve prestar serviço à comunidade e participar de curso educativo. Em caso de importação, exportação ou venda da droga, a pena pode ir de cinco a quinze anos de reclusão. Mas em outros países, a punição pode ser ainda mais pesada, como na Indonésia, onde um enquadrado como traficante pode ser condenado à morte.

Mas será que legalizar é a solução? Essa medida não poderia incitar o uso da cannabis? Para o professor de Sociologia da Universidade de Passo Fundo, há um preconceito no Brasil com relação à substância, e falta — se não a legalização – pelo menos uma regulamentação. “Dizer que a maconha é porta de entrada para outras drogas é uma simplificação muito grande sobre um tema bem complexo. Um a cada 100 consumidores de maconha passa a ser usuário regular de cocaína, por exemplo. É um índice absurdamente pequeno. Quem quer usar já usa, e quem não quer, não é por indução que vai começar. Se fosse de difícil acesso, até deveríamos nos preocupar, mas não é o caso aqui no Brasil.” O Nexjor fez uma enquete online sobre a legalização da maconha, você pode conferir o resultado em um infográfico ao final desta matéria.

Segundo adeptos e cultivadores, um mercado vasto e quase inexplorado se esconde atrás da produção da planta – confira no documentário Cortina de Fumaça. Da extração do cannabis ainda podem ser feitos vários produtos — raros no Brasil, mas já comercializados em Países como a Suíça e Estados Unidos — como licores, chocolates, óleos para massagem, vinhos e outros. Estima-se ainda que o estado poderia lucrar 1,5bi de dólares com a taxação das vendas e economizar quase outro bilhão em policiamento por não prender portadores da substância.

Apesar da criminalização da erva, recentemente foi incluída na lista de medicamentos com controle especial no Brasil  pedidos de importação de medicamentos à base de canabidiol (CBD) já vêm sendo autorizados. Segundo a Anvisa, até agora, 50 de 72 pedidos já receberam autorização.